A Declaração de Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho da OIT consagra, conforme referido, oito convenções internacionais do trabalho como fundamentais, cuja ratificação pelos países membros se mostra essencial ao estabelecimento dos padrões mínimos de direitos no plano internacional.
O Brasil, não atingiu o objetivo de ratificar todos os instrumentos definidores de direitos fundamentais no trabalho no plano internacional. Destacam-se as particularidades inerentes a cada um.
Ratificada em 25-04-1957 pelo Brasil, a Convenção n.º 29 de 1930 dispõe sobre o trabalho forçado ou obrigatório, estabelecendo sua eliminação. Admitem-se algumas exceções, tais como o serviço militar, o trabalho penitenciário adequadamente supervisionado e o trabalho obrigatório em situações de
emergência, como guerras, incêndios, terremotos.
Não foi ratificada pelo Brasil a Convenção n.º 87 de 1948 sobre a liberdade sindical e a proteção do direito sindical, a qual estabelece o direito de todos os trabalhadores e empregadores constituírem organizações que considerem convenientes e de a elas se afiliarem, sem prévia autorização. Contempla, ainda, uma série de garantias para o livre funcionamento dessas organizações, sem ingerência das autoridades públicas. O mandamento contido no artigo 8.º da Constituição Federal brasileira, ao estabelecer a unicidade sindical, obsta a incorporação do instrumento fundamental em questão. A Convenção n.º 87, aliás, apresenta-se como a menos ratificada das convenções fundamentais da OIT pelos países-membros. Importante destacar que a liberdade sindical e a liberdade de associação são consideradas como direito humano fundamental. Com o direito de negociação coletiva, constituem um valor central da OIT, pois os direitos de sindicalização e de negociação coletiva permitem promover a democracia, uma boa governança do mercado de trabalho e condições de trabalho decentes.
Ratificada em 18-11-1952 pelo Brasil, a Convenção n.º 98 de 1949 sobre o direito de sindicalização e de negociação coletiva, estabelece proteção contra todo ato de discriminação que reduza a liberdade sindical, proteção das organizações de trabalhadores e de empregadores contra atos de ingerência de umas nas outras, e medidas de promoção da negociação coletiva. O mandamento contido nos artigos 7.º, inciso XXVI115, e 8.º, caput116 da Constituição brasileira, o texto da referida convenção encontra expressão, assim como na legislação infraconstitucional
115Art. 7.º - São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de
sua condição social(...) XXVI - reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho;
(Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, artigos 611117 a 625).
A Convenção n.º 100 de 1951, ratificada em 25-04-1957 pelo Brasil, preconiza a igualdade de remuneração de homens e mulheres trabalhadores por trabalho de igual valor. A Constituição Federal, em seu artigo 7.º, incisos XX118 e XXX119, consagra os direitos fundamentais em apreço, que também estão amparados pela legislação infraconstitucional.
Ratificada em 18-06-1965 pelo Brasil, a Convenção n.º 105 de 1957, relativa à abolição do trabalho forçado, proíbe o uso de toda forma de trabalho obrigatório. Os mandamentos contidos nos artigos 5.º, inciso XLVII, alínea “c”120, da Constituição Federal, além do artigo 149121 do Código Penal brasileiro abordam o tema, reiterando valores expressos na Convenção.
Ratificada em 26-11-1965 pelo Brasil, a Convenção n.º 111 de 1958, sobre a discriminação em matéria de emprego e profissão, indica a formulação de uma política efetiva que elimine toda distinção ilegal no âmbito laboral por motivos de
117Art. 611. Convenção coletiva de trabalho é o acordo de caráter normativo, pelo qual dois ou mais
Sindicatos representativos de categorias econômicas e profissionais estipulam condições de trabalho aplicáveis, no âmbito das respectivas representações, às relações individuais do trabalho.
118XX - proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da
lei;
119 XXX - proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por
motivo de sexo, idade, cor ou estado civil;
120 Art. 5.º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:(...) XLVII - não haverá penas: (...) c) de trabalhos forçados;
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Art. 149 - Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto:
Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência. § 1.º Nas mesmas penas incorre quem:
I – cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho;
II – mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho.
§ 2.º A pena é aumentada de metade, se o crime é cometido: I – contra criança ou adolescente;
raça, cor, sexo, religião, opinião política, ascendência nacional ou origem social, além de promover a igualdade de oportunidades e de tratamento. Referida convenção encontra firme sustentação no artigo 7.º, incisos XXX122, XXXI123 e XXXII124, da Constituição brasileira.
Ratificada em 28-06-2001 pelo Brasil, a Convenção n.º 138 de 1973 sobre a idade mínima de admissão a emprego, estabelece a abolição do trabalho infantil, ao estipular que a idade mínima de admissão ao emprego não deverá ser inferior à idade de conclusão do ensino obrigatório. O artigo 7.º, inciso XXXIII125, da Constituição Federal prevê a proibição do trabalho de menor de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos.
A Convenção n.º 182 de 1999, ratificada em 02-02-2000 pelo Brasil, estabelece a adoção de medidas imediatas e eficazes que garantam a proibição e a eliminação das piores formas de trabalho infantil. Seus mandamentos são percebidos em preceitos contidos na Constituição Federal (artigo 7.º XXXIII126), CLT (artigos 403127 a 441) e do próprio Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Lei
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XXX - proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil;
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XXXI - proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência;
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XXXII - proibição de distinção entre trabalho manual, técnico e intelectual ou entre os profissionais respectivos;
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XXXIII - proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos;
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XXXIII - proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos;
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Art. 403. É proibido qualquer trabalho a menores de dezesseis anos de idade, salvo na condição de aprendiz, a partir dos quatorze anos.
Parágrafo único. O trabalho do menor não poderá ser realizado em locais prejudiciais à sua formação, a seu desenvolvimento físico, psíquico, moral e social e em horários e locais que não permitam a frequência à escola.
n.º 8.069/90, artigos 60128 a 69).
Importante ressaltar que, fora do âmbito das Convenções Fundamentais, não foram ratificadas pelo Brasil importantes normas propostas pela OIT, como a Convenção n.º 90, que versa sobre o trabalho noturno dos menores na indústria; a Convenção n.º 128, que trata das prestações de invalidez, velhice e sobreviventes; a Convenção n.º 143, sobre imigrações efetuadas em condições abusivas e sobre a promoção da igualdade de oportunidades e de tratamento dos trabalhadores migrantes; a Convenção n.º 151, que trata do direito de organização e aos processos de fixação das condições de trabalho na função pública; a Convenção n.º 157, que versa sobre a preservação de direitos em matéria de seguridade social; a Convenção n.º 173, sobre a proteção dos créditos trabalhistas na insolvência do empregador. A polêmica Convenção n.º 158, que trata sobre o término da relação de trabalho por iniciativa do empregador, foi ratificada pelo Brasil e, logo após, denunciada, sendo objeto de questionamento perante o Supremo Tribunal Federal.
3.6.2 Leis brasileiras que ressaltam a responsabilidade social
empresarial nas relações de trabalho
Os direitos de proteção ao trabalho humano constituem um sistema legal, que, no Brasil, suplanta, no mais das vezes, os ditames propostos pela Declaração de Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho da OIT.
A evidenciar enunciada realidade, podem ser destacadas normas brasileiras que ressaltam a responsabilidade social empresarial nas relações de trabalho, como
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Art. 60. É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na condição de aprendiz.
as seguintes:
• Lei Federal n.º 10.101, de 19-12-2000: a norma em menção dispõe sobre a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados da empresa e dá outras providências. A proposta da participação nos lucros e resultados das empresas pelos funcionários é parte integrante de um modelo de gestão conhecido por administração participativa. Ele busca integrar os objetivos dos funcionários da empresa com a sua administração, otimizando a organização do processo produtivo. Como recompensa, ao trabalhador é franqueado participar financeiramente dos lucros e resultados corporativos. Enunciado regime possibilita a manutenção da força de trabalho motivada e produtiva, contribuindo para estabelecer um clima organizacional adequado. A participação enunciada varia conforme o acordo firmado e pode se dar apenas com relação aos resultados, aos lucros ou tanto nos lucros como nos resultados;
• Lei Federal n.º 11.770, de 09-09-2008: a mencionada lei criou o programa empresa cidadã, destinado à prorrogação da licença-maternidade mediante concessão de incentivo fiscal às corporações. Estabeleceu, assim, a ampliação do período de afastamento do trabalho das mulheres, com remuneração plena, de 120 para 180 dias ao ensejo da maternidade. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a mãe deve amamentar o bebê por, no mínimo, seis meses e, preferencialmente, até dois anos. A extensão da licença atendeu às recomendações médicas e a uma reivindicação recorrente de diversas entidades de classe e movimentos sociais;
• Lei Federal n.º 10.421, de 15-04-2002: a regra em questão estendeu, à mãe adotiva, o direito à licença-maternidade e ao salário-maternidade. Desse modo, equiparou-a à gestante, reconheceu a necessidade da licença à adotante, no
interesse do adotado. A adoção obedece a processo judicial e somente é admitida se constituir efetivo benefício para o adotando. A adotante deverá ser maior de dezoito anos e pelo menos dezesseis anos mais velha que o adotado;
• Lei Federal n.º 8.213, de 24-07-1991: A norma em referência estabeleceu a criação das denominadas “cotas para inserção de deficientes no mercado de trabalho”. As empresas com cem ou mais empregados estão obrigadas a preencher de dois por cento a cinco por cento dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência, habilitadas, nas proporções que prevê. A lei exposta representa autêntica ação afirmativa destinada à implementação ou incremento de políticas de discriminação positiva, com esteio na afirmação do princípio da igualdade. Ação afirmativa é um gênero da qual a política de cotas faz parte. O constitucionalista José Joaquim Gomes Canotilho129 demonstra, com habitual percuciência, a importância da discriminação positiva:
“Uma das funções dos direitos fundamentais ultimamente mais acentuada pela doutrina (sobretudo a doutrina norte-americana) é a que se pode chamar de função de não-discriminação. A partir do princípio da igualdade e dos direitos de igualdade específicos consagrados na constituição, a doutrina deriva esta função primária e básica dos direitos fundamentais: assegurar que o Estado trate seus cidadãos como cidadãos fundamentalmente iguais. (...) Alarga-se [tal função] de igual modo aos direitos a prestações (prestações de saúde, habitação). É com base nesta função que se discute o problema das quotas (ex.: parlamento paritário de homens e mulheres) e o problema das affirmative actions tendentes a compensar a desigualdade de oportunidades (ex.: quotas de deficientes).”
129
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 3.ª ed. Coimbra: Almedina, 1999, p.385.
• Lei Federal n.º 10.097, de 19-12-2000: A norma apontada, também conhecida como a “lei do aprendiz”, aos estabelecer que as empresas de médio e grande porte contratem jovens de 14 a 24 anos por meio de contrato especial de trabalho, preconiza ação afirmativa destinada à inclusão de jovens no mercado de trabalho, assim como a adequada profissionalização e preparação. Assim, os jovens beneficiários são contratados como aprendizes e passam a frequentar cursos de aprendizagem profissional, associados à oportunidade profissional. A cota de aprendizes está fixada entre cinco por cento e quinze por cento, calculada sobre o total de empregados cujas funções demandem formação profissional. A inserção de trabalhadores deficientes no quadro de aprendizes também contribui para o cumprimento da meta.