3. GEREÇ VE YÖNTEM
4.7 Hastaların Beck Depresyon Ölçeği Sonuçlarına Göre Değerlendirilmes
Tipos Característicos: Conforme as descrições acima expostas buscaram explicar, alguns dos personagens de Carrossel – em sua maioria os personagens infantis – foram construídos com base em características singulares, como, por exemplo, as luvinhas rendadas utilizadas pela esnobe Maria Joaquina e os fones de ouvido sempre presos ao pescoço do levado Paulo. Além dos personagens descritos em detalhes anteriormente, ainda foi possível destacar as personagens “diretora Olívia” e “Graça” a faxineira da escola, também como personagens que foram construídas com base na ideia de singularidade, tanto no que se refere à lógica das ações dessas personagens quanto à sua caracterização. De acordo com a teoria que embasa essa pesquisa, a particularidade do personagem que é construído como um tipo característico, indubitavelmente, lhe confere individualidade em meio à trama. Com a reprodução em massa, porém, “o ar de obstinada reserva ou a postura elegante [ou a luvinha rendada, o esnobismo e os fones de ouvido] do indivíduo exibido numa cena determinada é algo que se produz em série exatamente como as fechaduras Yale, que só por frações de milímetros se distinguem umas das outras” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 145). Eis a carga ideológica que reside no aspecto cênico, sua colaboração com o processo de liquidação das individualidades vivido pela sociedade industrializada.
Estereótipos: Em Carrossel foi verificada a presença de disputa entre “O Bem” e “O Mal” na relação das personagens “professora Helena” e “professora Suzana”. A professora Helena é o tipo de personagem unilateralizado para o lado do bem. Essencialmente bondosa, Helena é uma professorinha doce, meiga, jovem, bela, profissional aplicada que ama seu trabalho e o desempenha com muita dedicação e doação. Em outras palavras, Helena é a professora perfeita, aquele tipo de profissional e de ser humano que agrada a sociedade em todos os sentidos, incapaz de oferecer resistência ao status quo. Porém, o sossego de Helena é frequentemente ameaçado pelas investidas de Suzana que, motivada por predicados como a inveja, o ciúme a insegurança e a maldade, vive tentando sobressair-se em relação à Helena. Apesar das investidas de Suzana e dos surtos de ingenuidade de Helena, o resultado é o
esperado final feliz, favorável à boa e doce professora. Além disso, e apesar de já terem sido identificados como tipos característicos, os personagens Cirilo, Maria Joaquina, Kokimoto e Laura também representam as figuras estereotipadas “do menino humilde e negro”, “da menina rica e esnobe”, “do japonês que só pensa em artes marciais” e “da gordinha que só pensa em comida”.
Meter-se em problemas e depois sair: Em relação a essa característica cênico/ideológica é possível destacar o episódio da festa anual da escola e os problemas enfrentados pela professora Helena durante a preparação das crianças: a roupa de uma aluna que se rasgou, o aluno que faltou à apresentação e Maria Joaquina que não aceitava Cirilo como par na dança. Além disso, a professora Suzana omite o aviso de que a turma de Helena fora chamada ao palco, gerando atrasos na apresentação e a ira da diretora Olívia que, também motivada pelos comentários maldosos de Suzana, acaba julgando Helena como uma profissional despreparada e irresponsável. Mas, para a sorte de Helena, diante do turbilhão de problemas, a apresentação de sua turma foi ótima, o que fez com que tudo se transformasse em sucesso, todos ficam muito felizes e a professora Helena volta a ser bem vista perante sua superior, visto que “as novelas e os programas de auditório e, sobretudo, os filmes são caracterizados por heróis, pessoas capazes de resolver seus problemas, seja de forma positiva ou negativa, e que funcionam como substitutas do espectador” (ADORNO, 2008, p. 71). De acordo com essa fórmula dramática, os personagens se metem em problemas apenas para depois saírem deles, pois o alívio só faz sentido porque um dia uma ameaça existiu.
Naturalização de linguagem estereotipada: Com a observação foi possível notar que os personagens Cirilo e Laura fazem, cada um deles, o uso de um jargão, como via de expressão. Algumas vezes, ao ser repreendido por seus colegas, Cirilo expressou-se através da seguinte frase: “Eu só quis dizer”, enquanto Carmem, de forma repetida, se manifestou através da expressão: “Isso é muito romântico!”, sempre em referência a algum acontecimento transcorrido na encenação. De acordo com a teoria que fundamenta essa pesquisa, o uso de jargões colabora com o processo de naturalização de um linguajar estereotipado, visto que, na verdade, “ninguém fala assim, ninguém se move assim” (ADORNO, 1992, Aforismo 93), enquanto a encenação sempre procura fazer crer que assim fariam todos.
Elemento Trágico: Conforme apontamentos de Adorno e Horkheimer, esse aspecto cênico/ideológico tem a função de impregnar a suposta “diversão” com o sofrimento, pois “a arte fornece a substância trágica que a pura diversão não poderia por si só trazer, mas da qual ela precisa, se quiser se manter fiel de uma ou de outra maneira ao princípio da reprodução exata do fenômeno” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 142).Dentre os cinco capítulos
observados, em três deles, Cirilo sofreu pelo fato de não ser possível dançar com Maria Joaquina na festa da escola, comovendo outros a sua volta com seu sofrimento. Além disso, o personagem foi convencido de que esse sofrimento pelo qual vinha passando era algo natural que, incondicionalmente, faz parte da vida. Cirilo recebe o conselho de que a solução para abrandar o sofrimento é valorizar o que se tem e o que se é. Em outras palavras, Cirilo foi aconselhado a se conformar, conformar-se com sua situação e com a realidade assim como ela lhe estava sendo apresentada, no caso de Cirilo, uma realidade de inferioridade social e rejeição em relação à Maria Joaquina, seu objeto de desejo. Isso confirma a utilização do elemento trágico, não como purificação das paixões conforme o que acontecia com os clássicos gregos, mas como aceitação do sofrimento como um mal que necessariamente faz parte da vida, que tem como consequência a conformação ao status quo.
Movido por tais crenças Cirilo, em oração, diz a Deus que ele ainda quer muito dançar com Maria Joaquina, embora saiba que deve aceitar as coisas assim como elas são. Se por acaso fosse possível dançar com Maria Joaquina ele iria ficar muito feliz e se não fosse, ele iria entender, e agradece ao Senhor. Por fim, é justamente o par de Maria Joaquina quem se ausenta da apresentação, então Cirilo recebe a graça tão almejada, o que pode vir a ser entendido como uma forma de recompensa por sua conformação. Porém, apesar de Cirilo ter realizado seu maior desejo, no dia seguinte as coisas voltaram a ser exatamente como eram antes dos fatos ocorrerem. Cirilo volta para a escola, continua a alimentar o fascínio por Maria Joaquina e volta a ser rejeitado pela menina, de modo que, além de conter o elemento trágico, o acontecimento encontra fim em si mesmo em meio à ação cênica, abstendo-se da tarefa de direcionar a trama para novos caminhos.
Amor e Sexualidade: Por se tratar de uma encenação com conteúdo infantil, não há exploração do objeto sexual como tema desse enredo, como já era de se esperar, embora a ideia do romance apareça, mesmo se tratando de crianças. Há uma verdadeira guerra declarada entre meninos e meninas, que se veem muito diferentes uns dos outros. Ao meso tempo, há a fascinação de Cirilo por Maria Joaquina, sentimento que é rejeitado, bem como a relação de carinho e lealdade estabelecida entre Davi e Valéria, que afirmam serem “amigos especiais” um do outro. Assim, é possível perceber que, de certa forma, mesmo que essa produção encene situações que abarcam principalmente o universo infantil, ela é tendenciosa para com a retratação de um modelo de comportamento afetivo que, se não diz respeito às crianças do presente, possivelmente será uma referência para os adultos em potencial.
Merchandising Comercial: Aspecto cênico/ideológico presente em cinco dos cinco capítulos observados, sendo que todos os produtos propagandeados dentro dessa encenação
têm como destino final o público infantil, exceto a linha de produtos “Jequiti”, destinada ao público feminino adulto. No capítulo de número 101 Laura, Marcelina e Alicia admiram as bonecas “Barbie” de Maria Joaquina. No capítulo 102 Graça analisa as bonecas da linha “Barbie quero ser” que Helena utilizará durante a aula e, na hora do recreio, Kokimoto, Daniel, Davi e Adriano estão jogando “Uno robô”, brincadeira da qual posteriormente participam Firmino, Graça e até a diretora Olívia. No capítulo 103 Carmem e Valéria estão na casa da última, brincando com outro tipo de boneca, cuja imagem é bastante clara, embora a marca não seja mencionada. No capítulo 104 Bibi e Maria Joaquina brincam com a “Barbie quero ser” enquanto Adriano e Davi brincam com bonecos da linha “Max Steel”. E finalmente, no capítulo 105, o lanche de Koki é o leite fermentado “Chamyto”, a professora Helena joga um videogame portátil que pertence a um dos alunos, cuja marca não aparece e, ao chegar a sua casa, Helena presenteia sua mãe com produtos da linha “Jequiti Vida”.
O merchandising costuma posicionar-se em meio à ação cênica, momento oportuno para que todas as propriedades do produto propagandeado sejam devidamente exaltadas. O mais interessante do merchandising visto em Carrossel, porém, é que, de modo diferente das outras duas encenações observadas, aqui a propaganda foi feita de modo muito sutil, imbuída de uma dose generosa de discrição. O merchandising foi inserido nessa encenação de tal forma que a propaganda muitas vezes não era algo óbvio, que se revelava propaganda à primeira vista. Talvez isso se deva ao fato de que é um tipo de merchandising que não insiste em ressaltar as propriedades do produto em detrimento da ação cênica. Pode-se dizer que nessa encenação o merchandising foi naturalizado, de modo que a função dos produtos propagandeados se estendeu para além dos limites da propaganda, pois eles acabaram funcionando também como elementos de cena, fato que coloca o presente aspecto cênico/ideológico em uma relação direta com os aspectos cênico/ideológicos seguintes.
Representação Objetiva e Relação Realidade/Ficção: Desse modo, os limites entre encenação, realidade e propaganda, por vezes ficaram comprometidos, visto que os produtos propagandeados foram expostos nessa encenação em um nível muito próximo do nível em que se encontravam os elementos excepcionalmente cênicos e, além disso, a encenação preza pela representação objetiva do mundo externo. Assim, atenta-se para a relação mais do que estreita que é estabelecida entre o sistema do consumo e a pseudorrealidade encenada e exibida sob a forma de imagens em movimento, “reiterando que as árvores são verdes, que o céu é azul e as nuvens derivam ao vento, tornam-se já criptogramas para chaminés de fábricas e postos de gasolina” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 139).
Caso realmente seja estabelecida analogia entre as imagens veiculadas e o mundo externo, então, de que forma o espectador processará as informações transmitidas acerca desses produtos que foram tão discretamente propagandeados? E, levando em consideração o fato de que a encenação é destinada ao público infantil, como uma criança processará tais informações, visto que a noção de realidade ainda está em processo de formação no ser infantil? Acredita-se na possibilidade de que algum espectador acabe por entender que a “Barbie quero ser”, por exemplo, é um instrumento eficaz na descoberta da futura vocação profissional, mesmo que todas as profissões sejam representadas por um modelo feminino irreal: uma boneca linda, loira e cor-de-rosa.