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escalas aproximadas, para serem comparadas entre si, onde é possível

perceber as modificações no zoneamento que permitirão o avanço sobre a

APA.

Fig. 5.10- meusdoc/aquiraz/pddu/4

a

etapa/mapas/2.1 – Zoneamento da AIT

1 e AIT 2.dwg

Ao compararmos a figura 5.10 com a 5.11, podemos fazer um exercício de leitura da linguagem não verbal da fotografia aérea sob a malha projetada do loteamento: os traços do desenho do projeto de loteamento significam o avanço agressivo e displicente sobre o espaço natural, formando uma malha que aprisiona e impede as interações dos ecossistemas com as unidades componentes da paisagem, causando um choque diante de tamanho descaso para com a questão ambiental. E essa displicência é fruto de outro universo de valores cultuados na perspectiva do empreendedor imobiliário formado na orientação da valorização do negócio capitalista, que acha tudo isso completamente normal, baseado no olhar e julgamento da legislação ambiental vigente, que apresenta uma brecha por onde passam todos os crimes ambientais, submetidos às subjetividades dos pareceres jurídicos dos órgãos de licenciamento ambiental.

A figura 5.12 mostra a planta das macrozonas de ocupação apresentada no plano estratégico do PDDU em abril de 2000 para ser comparada com a fig. 5.13, que mostra a planta do zoneamento municipal componente do conjunto da legislação básica do PDDU de Aquiraz, elaborado em abril de 2004, que se encontra em avaliação pela Câmara, e até o momento, não foi aprovada. Não temos informações sobre os prováveis rumos tomados pela Câmara local. Em entrevista a um vereador da oposição, ele afirmou apenas que o conteúdo da matéria deveria ser aprofundado, uma vez que apresenta grande complexidade, quando mais bem analisado após os resultados da eleição municipal, em sessão específica.

Saber até onde vai o direito adquirido pela empresa responsável pelo loteamento é matéria polêmica e sujeita a diversas interpretações judiciais, que poderão ser argumentadas durante o processo de votação, caso haja alguma manifestação contrária (o que constataremos) haja vista que seus limites foram aprovados pela Prefeitura na gestão de 1985 (anterior à criação da APA), quando o então prefeito, baseado na lei de uso e ocupação do solo vigente, autorizou a sua regulamentação. Independente, entretanto, do resultado local, o fato é uma mensagem muito clara para aqueles que pretendem contribuir com a gestão dos impactos ambientais provocados pela infra-estrutura turística e imobiliária: a legislação de zoneamento, uso e ocupação do solo dos planos diretores municipais, sob a luz da lei federal 4771, de 1965, que institui o “novo” Código Florestal, é peça-chave e fundamental para a gestão responsável das áreas sujeitas à preservação ambiental, nas cidades e regiões metropolitanas, servindo de instrumento poderoso para a definição do futuro das relações

entre sociedade e natureza, no meio ambiente urbano, onde os diversos setores da sociedade civil deverão estar permanentemente atentos sobre essa questão.

Na fig 5.14, a mesma fotografia aérea do Porto das Dunas levantada em 1999 5, agora sem a malha projetada do loteamento, permite fazer uma leitura das dimensões da APA e da implantação do loteamento, naquele ano, comparando com a fig. 5.15, que mostra uma fotografia aérea da mesma região, colhida em 20036. Essas figuras apoiarão as análises ao longo de todo o texto. De imediato, destacamos algumas alterações mais perceptíveis, como a implantação do empreendimento imobiliário Alpha Ville Fortaleza (1), no Município vizinho do Eusébio, onde podemos ver a enorme área desmatada, reforçando a questão já mencionada da legislação ambiental; a retomada das obras de ampliação do Aqua Ville, que demonstra a vitalidade do bairro(2); o avanço na faixa de praia pelo “Beach Park”, que se manteve o mesmo de 1999, mostrando uma estagnação ou estabilização do seu crescimento (3); centralidade e ocupação desordenada, analisadas posteriormente (4); as setas verticais que indicam as zonas de uso misto (em vermelho) e a residencial de alta densidade (em azul) para ser comparada com a planta do loteamento nas zonas AIT1 e AIT2 (fig.5.10), dando a idéia de vermos loteada, nesse trecho, toda a área definida como APA e, finalmente, o discreto crescimento urbano no período, em toda a zona mais adensada ao centro do loteamento, motivado pelos problemas de infra-estrutura que analisaremos, também, a seguir.

Foi curioso notar, em entrevista com o gerente do loteamento, um cuidado especial sobre a imagem “ecológica” do futuro empreendimento (a ser implantado no interior da APA) ao mesmo tempo em que não demonstrava sensibilidade na importância da legislação ambiental como instrumento social de proteção dos recursos naturais, hoje considerados bens inestimáveis. Mostra, no entanto, o ponto de vista da percepção do empresário sobre o problema das dificuldades do licenciamento ambiental.

Contratamos um escritório de arquitetura para fazer um estudo preliminar do projeto de um complexo hoteleiro e imobiliário, para ser previamente avaliado pela SEMACE, buscando compatibilizá-lo com o meio ambiente e a paisagem do entorno, deixando áreas verdes ao centro, onde há recursos hídricos. Os hotéis ficarão mais próximos das margens do rio, com equipamentos de apoio ao esporte e ao lazer; marina para pequenos barcos que farão passeios ecológicos no rio que será dragado

5 PDDU – Aquiraz. 6

para adaptação ao terreno construído. O lado mais alto deverá situar um setor imobiliário, porque o empreendimento turístico demora muito para retornar o investimento e precisa de uma compensação para poder viabilizar o negócio. Entretanto, o processo ainda está em nível de estudos e pode ser totalmente alterado [...] A SEMACE demora muito para atender os licenciamentos e acaba trazendo muita dificuldade. Se o governo pretende preservar a natureza, deveria, pelo menos pagar ao proprietário a indenização pelo terreno.

Airton Aguiar – sócio-gerente da J.G Empreendimentos e Participações Ltda.

O discurso do empresário encontra eco na justificativa do crescimento da atividade turística como a nova fronteira econômica do Estado. Caso haja aprovação pela Câmara Municipal, sem nenhum recurso de algum setor da sociedade civil, a responsabilidade passa a ser dos órgãos de licenciamento e fiscalização ambiental – SEMACE e IBAMA – que deverão dar pareceres favoráveis ou não ao empreendimento, antes de sua implementação.

Apenas para ilustrar e detalhar um pouco da legislação urbanística do bairro, é possível perceber no Zoneamento das Áreas de Interesse Turístico AT1 e AT2 (fig 5.10), a ocupação de praticamente toda a APA (ver a linha tracejada). Não é nossa intenção julgar assunto tão complexo e delicado. Certamente deve existir alguma explicação para o fato que somente o tempo poderá explicar. Na melhor das hipóteses, a APA não foi considerada na legislação municipal por causa de algum direito adquirido do empreendimento, ou mesmo pelo fato de ainda não ter sido devidamente regulamentada. Mesmo assim, compreendemos o quanto a legislação urbana de uso e ocupação do solo pode influenciar as decisões, uma vez que é a primeira instância de aprovação, ficando dependente somente dos pareceres – que podem vir a ser subjetivos ou não – dos órgãos de licenciamento ambiental.

Voltando à planta de zoneamento, (Fig. 5.10) é possível perceber quatro zonas de adensamento variável, para cada uso: a ZR1 – Zona residencial predominantemente unifamiliar de baixa densidade demográfica ( em amarelo), a ZR2 – Zona residencial pred. unifamiliar de média densidade demográfica (em rosa); a ZR3 – Zona residencial pred. unifamiliar de alta densidade demográfica (em azul) e a ZRSC – zona residencial pred. multifamiliar, de comércio e de serviços (em vermelho).

Analisando a tabela de índices urbanísticos, em página posterior (fig.5.16), destacamos o fato de que, para as residências unifamiliares, o gabarito único é de dois pavimentos (10 m)

com uma baixa taxa de ocupação e alta taxa de permeabilidade, comparado aos padrões metropolitanos de Fortaleza, o que parece adequado ao local. Para as multifamiliares e uso misto, o gabarito é de 3 pavimentos (13m), também com baixa taxa de ocupação e alta taxa permeabilidade, só permitidas nas ZRSC. Seria razoável se não existissem três zonas, dentro da APA. Os condomínios residenciais horizontais também parecem adequados ao local.

Já os índices urbanísticos para o uso em serviços de hotelaria e hospedagem poderiam ser mais restritivos. Apesar de a legislação estabelecer um índice de aproveitamento baixo e igual a 1 (um), associado a uma taxa de ocupação relativamente baixa e igual a 40%, o que é favorável para o local, este tipo de uso, segundo zoneamento (fig. 5.10), pode ser implantado em qualquer lugar do loteamento, inclusive dentro da APA. Portanto, é uma ferramenta de alto poder de alteração da paisagem do local ao estabelecer de modo indiscriminado, para o referido uso, o gabarito de 3 pavimentos, com altura máxima de 16m que na prática equivalente a altura de um edifício de quatro pavimentos. (Obs: IA= Índice de Aproveitamento = área construída / área do terreno e TO = Taxa de Ocupação = percentual da área da projeção do perímetro construído / área do terreno).

Em outras palavras, quando a lei for aprovada, será permitido construir-se hotéis, pousadas, “flats” ou “apart hotéis”, muito comuns no local, sem considerar o fechamento das visuais paisagísticas. Isto já ocorre ao longo da CE-025, no trecho que corta o loteamento, com residências unifamiliares de gabarito com apenas dois pavimentos (igual a 10m), impedindo quase que totalmente o acesso da vista ao mar, cuja tendência natural é fechar ainda mais, conforme poderemos observar nas fotos seguintes. Acreditamos que deveria ser analisada a paisagem, em cada trecho, protegendo-se as visuais de interesse paisagístico, um dos maiores bens procurados pelos turistas.

Não estamos querendo julgar a qualidade do loteamento (cujo maior problema foi ter sido aprovado, ignorando-se as leis de proteção ambiental), nem a legislação urbanística municipal, até mesmo porque não é o objetivo do trabalho fazer um estudo profundo sobre o tema. Estamos apenas analisando preliminarmente o significado apreendido na leitura dos mapas de zoneamento e o seu rebatimento na legislação, com o intuito de compreender o quanto esses instrumentos influenciam a transformação da paisagem urbana e natural. De outro modo, temos somente o interesse de levantar alguns questionamentos para contribuir

com o aperfeiçoamento de matéria tão complexa e minuciosa. Na página seguinte, temos os anexos das tabelas com alguns dos índices urbanísticos comentados.

Tabela 5.1 – Índices Urbanísticos das AIT 1 e AIT 2 (Porto das Dunas)

Até o momento, iniciamos a compreensão da gênese do lugar denominado Porto das Dunas, procurando conhecer o modo como os agentes sociais e seus instrumentos interagem no início da produção do espaço urbano que vão ocasionar as transformações espaciais vistas em campo, analisando as relações daquilo que chamamos de cadeia dos produtores do espaço, usando uma expressão utilizada em Rodrigues (1998:91) que trabalha a categoria espaço no contexto da problemática ambiental inserida no processo de apropriação, considerando-o um produto social. Para ela, este produto pode ser compreendido como a necessária articulação da sociedade com a natureza, em todas as esferas e escala, passando assim a ser visto como locus de reprodução das relações sociais de produção. Nesse aspecto, a produção social é compreendida como um processo pelo qual se ocupa um espaço, no qual se produzem e/ou reproduzem relações socioespaciais (SANTOS, 1977) e se reproduzem relações dominantes de produção e de reprodução do espaço, como parte integrante das relações societárias da natureza.

Lembramos, como vimos, fazendo ao longo de todo o terceiro capítulo (que aborda o planejamento turístico governamental), do papel do Estado e da sua política de turismo, também presente na cadeia da produção do espaço urbano, ao criar instrumentos de planejamento e linhas de financiamento legitimados no discurso da importância do turismo no contexto econômico do Ceará. Parece-nos evidente que isso pode ser feito com muita propriedade, uma vez que a atividade é a que mais cresce no mundo inteiro. Precisamos estar atentos, porém, aos diversos aspectos da sua sustentabilidade, como prática socioeconômica e espacial que, nos parece, estão intimamente relacionados aos instrumentos urbanísticos e ambientais, já mencionados, suscitando reflexões para o aperfeiçoamento da elaboração e gestão de tais instrumentos. Esse aspecto precisa ser enfaticamente discutido, sob o risco de não conseguirmos interceptar a percepção empresarial imediatista forjada na valorização do “negócio” e do “lucro”, pondo em risco a própria rentabilidade e viabilidade nos investimentos dos empreendimentos turísticos, cuja queda pode ser detectada, no Porto das

Dunas, por sutis movimentações como, entre outras, as retiradas das “bandeiras” da hotelaria internacional, como a famosa “Caesar Park”, que administrava o atual “Beach Park Suítes Resorts”, ou mesmo a recente entrega da gestão do “Hotel IBIS” (de bandeira Francesa) para um grupo de investidores privados portugueses. Não podemos identificar quais os verdadeiros motivos para explicar tal fenômeno, uma vez que não conseguimos penetrar o assunto, considerado sigiloso por envolver especulações imprevisíveis. Nas várias tentativas de entrevistas empreendidas, não conseguimos passar de um contato superficial e apressado, em ambos os casos.

É evidente que existam, porém, fatores combinados à degradação da paisagem e relacionados à ausência da gestão urbana sobre o lugar. A falta crônica de infra-estrutura urbana (incluindo segurança) do local é originada por diversos fatores, entre eles: a crise fiscal das prefeituras municipais; a tendência de estas priorizarem o atendimento da população segundo a sua base eleitoral (existe uma média de 400 unidades habitacionais de moradores residentes no Porto das Dunas, contra 1600 unidades de veraneio e hospedagem, além do que, a população local tem um nível social superior à maioria do Município); o ultrapassado e ilegal modelo tradicional de criação de loteamentos de praia – com acessos em terra batida, energia elétrica, telefone e deficiente coleta de lixo, sem infra-estrutura urbana adequada, acontecendo sempre sem a participação efetiva da Prefeitura, movido pelo interesse privado que não demonstrou uma preocupação na compatibilidade entre as vendas dos lotes e a viabilização implantação de infra-estrutura (padrão predominante em todo o Estado e é problema crônico em várias regiões do País), o que abordaremos nas próximas páginas.

5.1.2 O consumo do espaço urbano-turístico na percepção dos seus

usuários, o problema da infra-estrutura urbana e a crise fiscal do

Estado

Como pudemos constatar, o “Porto das Dunas” nasceu da iniciativa