Esta parte de nosso trabalho se baseia na dissertação de mestrado de Pedroso (1999). Com base nas cinco categorias por ele estabelecidas, constatamos quais são as abordagens culturais mais comuns em nosso corpus do italiano, como podemos observar no Gráfico 5:
Gráfico 5 - Representação proporcional dos tipos de abordagens culturais (Pedroso, 1999) adotadas nos
LDs de italiano 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 LDN ESP NPI
pragmática folclórico-turística histórico-geográfica
87 Podemos notar que esse levantamento não traz dados novos em relação à abordagem pragmática. Como já tínhamos percebido pelo Gráfico 4, o conteúdo pragmático é o mais presente, comprovando que os LDs visam melhorar a competência comunicativa dos alunos.
A segunda abordagem mais adotada em todos os LDs foi a folclórico-turística, presente especialmente no livro LDN. Esse livro apresenta 4 unidades (que constituem 50% do livro) sobre o tema de viagens, principalmente na Itália92, ficando clara, portanto, sua abordagem turística. Já em ESP e NPI, essa abordagem toma proporções menores. Se interpretarmos esses resultados do ponto de vista da abordagem intercultural, percebemos que livros como LDN parecem querer transformar o aluno em ‘turista’, já que a abordagem pragmática é somente um pouco mais presente do que a abordagem turística. Por outro lado, livros como NPI e, especialmente, ESP parecem dar muito mais valor à abordagem pragmática do que à abordagem turística, demonstrando interesse em transformar os alunos mais em ‘viajantes’ do que em ‘turistas’.
Outra abordagem constatada é a histórico-geográfica, que, na verdade, contempla mais o lado geográfico (a divisão da Itália em regiões, as cidades importantes, etc.) do que o histórico, remetendo, em muitos casos, ao tema de viagens e à abordagem turística.
4.3.5 Tratamento da informação cultural: Cultura formal e cultura informal
Nessa etapa, fizemos um levantamento das referências culturais de acordo com o tipo de cultura nelas representado: a cultura informal, do ‘modo de viver’, e a Cultura formal, que se refere às artes, religião, e à produção erudita no geral. Os resultados obtidos podem ser observados no Gráfico 6:
88 Gráfico 6 - Representação proporcional da Cultura formal e cultura informal nos LD de italiano.
Os resultados desse levantamento também corroboram os dados encontrados antes. Como a abordagem cultural é mais pragmática e o conteúdo é mais procedimental, é natural que a forma cultural mais contemplada seja a cultura vista em seu sentido antropológico, como modo de viver. A Cultura em suas manifestações mais eruditas é particularmente explorada nas unidades que tratam o tema das viagens.
A diferença entre os LDs é mínima: a única observação que podemos fazer é que o livro ESP faz mais referência à cultura informal e possui menos referências à cultural formal, o que condiz com os objetivos das autoras de se concentrar nas situações da vida cotidiana.
4.3.6 Tratamento da informação cultural: modo visual e textual
Apresentaremos aqui as referências culturais divididas de acordo com o modo: visual (p. e. foto, mapa, desenho) e escrito (em texto autêntico ou texto preparado para uso didático). Para cada modo, mostraremos quais são os recursos mais utilizados, de forma a entender se a cultura alvo está sendo apresentada de forma mais ou menos realista.
Começando pelas referências textuais, o Gráfico 7 a seguir mostra a proporção que existe entre textos autênticos e não autênticos em cada LD:
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 LDN ESP NPI
89 Gráfico 7 - Representação da proporção entre textos autênticos e não autênticos nos LD de italiano
Ao analisar o gráfico, fica claro que em ESP os textos autênticos e não autênticos estão em perfeito equilíbrio, ao passo que em LDN e NPI há um domínio dos textos não autênticos. Cabe lembrar que textos produzidos com fins didáticos provavelmente mostram uma visão própria do autor e do editor, enquanto os textos autênticos tendem a mostrar outra perspectiva da cultura alvo. Sabemos, contudo, que cabe sempre ao autor e ao editor a escolha final de quais textos autênticos são incluídos no LD, portanto até esses textos podem ser escolhidos de forma a corroborar a visão do autor. Todavia, quando o texto é baseado em dados coletados por estudiosos das ciências sociais, normalmente reporta dados mais confiáveis e não um ponto de vista pessoal. Por isso, podemos concluir que, quanto ao uso de textos, ESP encontra um equilíbrio entre a visão do autor e outras visões, enquanto LDN e NPI privilegiam as visões próprias do autor.
No Gráfico 8 a seguir, veremos a proporção em que os LD fazem uso de desenhos, fotografias e mapas:
0 20 40 60 80 100 LDN ESP NPI
90 Gráfico 8 - Representação da proporção entre mapas, fotografias e desenhos nos LD de italiano
Considerando que mapas e fotografias dão uma visão mais real da cultura alvo, notamos que o LD que oferece uma visão mais realista da cultura alvo e das pessoas nela envolvidas em termos de recursos visuais é o livro NPI. Por outro lado, o livro que faz um uso maior de desenhos, correndo o risco de representar a cultura alvo de maneira caricatural ou pouco realista, é LDN. ESP é o livro que se destaca por fazer o maior uso de mapas, que também oferecem insights interessantes sobre a maneira em que a cultura alvo organiza suas cidades, suas ruas, seus monumentos e seus espaços públicos. A representação de mapas é sensivelmente menor que a de fotografias e desenhos devido a seu uso restrito já que nos LDs analisados, por exemplo, esse recurso visual aparece somente nas unidades relacionadas a viagens ou a estrangeiros e turistas que pedem informações.