Na abertura do quarto artigo sobre a guerra austro-prussiana202 chamado Os
prussianos iniciam um erro tático, Engels diz o seguinte:
Suponhamos que se pergunte a um jovem alferes ou cadete prussiano, em seu exame para obter o grau de tenente qual seria o plano mais seguro para que o exército prussiano invada à Boêmia. Imaginemos que o jovem oficial responde: “O melhor procedimento seria dividir as tropas em duas partes mais ou menos iguais, enviando uma destas para dar uma volta pelo lado leste dos montes dos Gigantes e a outra pelo oeste, de modo que ambas se unam em Hulcin” Que diria o oficial examinador? Responderia-lhe que este plano atenta contra duas leis básicas da estratégia; em primeiro lugar, nunca se deve dividir as próprias tropas de modo que as partes não estejam em condições de se auxiliarem uma a outra, no entanto, ao contrário, é preciso conservá-las muito próximas; em segundo lugar, no caso de avançar por caminhos diferentes, as diversas colunas devem unir-se em um ponto situado fora do alcance do inimigo; que por isso, o plano proposto é o pior entre todos os possíveis, o que somente se poderia ter em conta se a Boêmia estivesse absolutamente livre de tropas inimigas, e que, por consequência, um oficial que apresenta semelhante plano nem sequer é digno do grau de tenente.
Ao que acrescenta Engels:
Com efeito, este é o plano adotado pelo sábio e prudente Estado-maior prussiano. Resulta quase incrível, mas é assim. O erro que tiveram de pagar os italianos em Custozza foi repetido de novo pelos prussianos, e em condições que o tornaram dez vezes mais desastroso.
O comentário de Engels se dá sob o signo da prudência e, curiosamente, ele é similar à crítica feita por Montaige no capítulo sobre os Destrier, os cavalos de garantia que se conduz ao lado direito (Destries, Capítulo 48 do primeiro volume dos Ensaios), que seria acima de tudo um argumento a favor de umaa garantia contra as armas de arremesso que não
201 HOLBORN, Hajo. The Prusso-German School: Moltke and the Rise of the General Staff. Em: PARET, Peter (ed.). Makers of modern Strategy – from Machiavelli to the Nuclear Age. New Jersey: Princeton University Press, 1986, p.282.
garantiriam o controle integral do ataque no combate, o que criaria uma situação propícia ao erro. Algo semelhante também é possível encontrar em Maquiavel nos Discorsi que defendia a tradição de combate onde os cidadãos fossem necessários como força militar livre, contra uma forma de combate que permitiria mercenários, considerados inábeis, mas perigosos politicamente graças ao emprego de armas de fogo. Em todos estes autores, o combate, ao modificar suas condições, produziria efeitos perigosos ao perder o graças à perda de uma forma tradicional de combate que permitiria prescindir do próprio combatente como indivíduo treinado e habilitado. O resultado, mesmo eficaz do emprego da arma de fogo, ao produzir um efeito útil, traria consequências negativas graças ao seu emprego, deixando de ver a importância do elemento de novidade ou surpresa resultante do constante desenvolvimento das formas de combate de modo a antecipar e neutralizar possíveis reações no campo de batalha.
O caso particular do sucesso de 1866 deveu-se ao fato dos prussianos surpreenderem os adversários austríacos, rompendo expectativas sobre o formato do combate travado, pressuposto no entendimento militar da época criado a partir das formas tradicionais de combate adotadas até então. A questão que Engels e os austríacos, assim como todos os demais exércitos da Europa continental não conseguiam compreender era justamente a tática de dividir os exércitos para envolver o adversário, tática que, curiosamente, se aproveitava do recurso da história militar (as primeiras campanhas de Napoleão na Itália, que foram estudadas criticamente por Clausewitz e Jomini) como forma de se repensar a tática. Tanto a tática prussiana contra a Áustria, quanto a adotada por Napoleão na Campanha da Itália (em particular no combate aos austríacos na guerra da primeira coalizão antes da tomada de Milão) se apoiavam na mudança da forma de combate permitida pela mobilidade, isto é, pressupunham novas condições propiciadas pelas estradas de ferro para poderem mover os exércitos, da mesma forma como Napoleão se utilizou da marcha rápida e da quebra de certos rituais de combate ligados ao deslocamento e concentração das tropas.
Como descreve Ghunter Rothenberg:
Confrontado com o impasse imposto pelas novas armas e os fronts estendidos, Moltke, chefe do general staff de 1857 a 1887, desenvolveu o conceito de flanquear (outflanking) o inimigo em uma sequência contínua operacional-estratégica combinando mobilização, concentração, movimento, e combate. Assumindo a iniciativa, ele pretendeu conduzir seu oponente em um envolvimento, destruindo seu exército em uma grande e decisiva batalha de aniquilação ou cerco, a Verninchtungs – ou Keselschlacht. Para controlar a execução da sua sequência, Moltke a construiu sobre desenvolvimentos anteriores para criar o moderno sistema de Estado-maior (general staff) e introduziu a Auftragstaktik, missões táticas, um método de comando
que enfatizou a iniciativa descentralizada com uma concepção estratégica global.203
Para este processo, além do movimento das tropas em combate, é possível notar o impacto causado pelo fato da Prússia não apenas implementar a conscrição, uma instituição republicana em um sistema imperial, com o fato de tê-lo realizado em um patamar inaudito, somando-se à adoção de novo arsenal para um combate muito mais eficaz do que o utilizado por outros exércitos até aquele momento.
A Prússia foi o único país que pretendeu estender aos quadros da reserva, em grandes proporções, a força militar do povo. E foi, além disso, o primeiro Estado a adotar em toda a sua infantaria a novíssima arma, o fuzil carregado pela culatra, depois de ter usado, por pouco tempo, o fuzil de carga dianteira, aperfeiçoado e adaptado para a guerra, entre 1830 e 1860. Tais foram as duas inovações a que se deveram os triunfos prussianos de 1866.204
Certamente, isto não ocorreu sem resistências à inovação inclusive por parte da instituição militar em virtude da existência de “repertórios de violência coletiva” que persistiam conforme o embate com a tradição se mostrava como um dos aspectos do conflito entre os valores aristocráticos e a dinâmica da modernização da forma de combate tenham sido implementadas anteriormente pelos exércitos da França revolucionária. No entanto estas mudanças táticas trouxeram uma marca incontornável de mudança social, mas especificamente isoladas e aplicadas exclusivamente ao campo militar, ao utilizarem-se de um princípio de organização que, por se mostrar mais eficaz se comparado a todo o aparato utilizado até então, o que acabou condenando os exércitos a depender dele no futuro, sem o que não poderiam mais se desfazer desta nova forma, sob pena de derrota no campo de batalha.
Portanto, efeitos definitivos se fizeram sentir a partir de então, como a modificação da forma de organização e agrupamento para a batalha, realizando uma transição entre formações de combate que Engels, anos a frente será obrigado a reconhecer, analisando novamente este combate. Não mais medidas pelo emprego eficaz de um mesmo repertório, mas pensada sob o signo da inovação em campos estruturais que não poderiam mais serem abandonados no caso de exércitos ofensivos. As formas tradicionais que poderiam ser auxiliadas por outros fatores, como o relevo, disciplina, etc., com resultado sensíveis nas mudanças táticas, modificam a própria organização militar na “ordem de batalha, ”que por sua vez, ao persistirem, mostram resultados na modificação da própria instituição militar ao tornarem-se tais modificações
203 ROTHENBERG, Gunther E. Moltke and the Doctrine of Strategic Evelopment. (ed.). Makers of
modern Strategy – from Machiavelli to the Nuclear Age. New Jersey: Princeton University Press, 1986, p. 296. 204 Idem, p. 296. Vide o capítulo a respeito da guerra austro-prussiana e tabela explicativa no final do trabalho.
fixas, como marcas de modificações de formações de combate com interesse tático que se tornam definitivas.
Quando, porém, em 18 de agosto, perto de St. Privat, a Guarda Prussiana quis tomar a sério a ordem de batalha de sua coluna de companhia, os cinco regimentos mais empenhados na ação perderam, em duas horas, mais da terça parte de seus efetivos (178 oficiais e 5.114 homens). A partir deste momento, a coluna de companhia foi condenada a desaparecer como forma de luta, da mesma maneira que a coluna de batalhão e a linha.205