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O texto completo onde se apresenta a fundamentação mais geral da visão engelsiana sobre a guerra é a segunda seção do livro o Anti-Dühring (1877), localizado logo após a apresentação resumida sobre o desenvolvimento das táticas de infantaria (especialmente na terceira parte da teoria da violência). Além disto, este livro foi o maior responsável pela divulgação da crítica da economia política durante o século XIX e início do XX em uma exposição aplicada à análise de diversos aspectos sociais que definiram os contornos mais popularmente aceitos de uma visão crítica marxista, tendo como núcleo um ataque definitivo aos fundamentos da filosofia de Eugen Dühring.233

A parte dedicada ao tema da violência deste texto mais conhecido foi escrita com base em outro texto, que se acredita ser preparatório, ou um para-texto (como na acepção de Tzedan Todorov) chamado As Táticas de Infantaria derivadas de suas causas materiais, texto que evocaremos apenas em alguns aspectos exclusivamente presentes nele sem serem retomados no Anti-Dühring, pois trata-se de uma versão mais explícita sobre o desenvolvimento das formas de infantaria modernas.

No Anti-Dühring, Engels realiza o esforço duplo de realizar uma crítica ao pensamento de Eugen Dühring ao mesmo tempo em que procura fundamentar um método crítico que tivesse sua validade estendida para fenômenos que seriam considerados usualmente externos à economia política. Mesmo sendo este texto apenas uma parte de um capítulo mais amplo sob o tema da dialética234 e circunscrito a uma resposta à crítica de Dühring a Marx, sua argumentação procurou atingir também os pressupostos do modo como Dühring compreendia o método marxiano. Assim, em sua visão seria considerado dentro do mesmo conjunto de pressupostos o combate ao argumento que negaria a existência da

233 “Eugen Dühring [...] era cego e professor de filosofia da Universidade de Berlim, cujo ramo do socialismo estava ficando cada vez mais popular na periferia política da democracia social alemã. Entre seus primeiros seguidores estava o promissor teórico socialista Eduard Bernstein.” HUNT, Tristam. Op. cit. , p.126. Se Dühring possui características que o aproximam da parte prática às oficinas sociais de Proudhon, Hunt (2010) não comenta que o tom das críticas contém passagens consideradas antissemitas já no século XIX, assim como contrários à herança grega, adotado, além dos elogios a Frederico o Grande.

234 ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring: filosofia, economia política, socialismo. Rio de Janeiro: paz e Terra, 1979, p. 102.

contradição em qualquer fenômeno observável com um pensamento fundamentado em uma

plena positividade,235 questão ao qual Engels responde por meio da defesa simultânea tanto de Marx e Hegel, quanto de Darwin e da ciência moderna, em termos análogos aos relacionados por Dühring. Defesa esta, que expôs seu argumento ao ataque de críticos como Lukács, especialmente quanto aos exemplos, algo tortuosos, relacionados às ciências naturais. Um exemplo desta defesa é a forma como Engels entendia a mutação – entendida como a transformação de uma espécie em outra - como um fenômeno que provaria a existência da

contradição em si, por meio de tendências presentes nos fenômenos naturais, expandindo a

significação da contradição para algo além da lógica e da consciência.

A crítica à Engels ocorre principalmente porque o prefácio d’O Anti-Dühring, ao realizar uma reflexão sobre as partes do texto acrescidas ao capítulo sobre a dialética, ampliam a validade da mesma, não apenas como refutação às teses de Eugen Dühring sobre as ciências naturais (apresentadas como uma crítica ao seu sistema como um todo, criado a partir de categorias fixas segundo um nexo linear e evolucionário “como coisas prontas”), mas permitindo a leitura do texto como uma transposição teórica de uma crítica que passaria do método de exposição de Dühring a uma interpretação que disputa uma pretensão de validade alternativa em relação àquilo que Dühring pretende analisar, especialmente a própria natureza em si mesma.

Na aplicação deste método foram utilizadas categorias como “quantidade e qualidade”

236 (que poderia ser visto no exemplo das proporções múltiplas da química), “negação da

negação,” “contradição” e “processo,” mas interpretadas não segundo o mesmo sentido da exposição hegeliana, nem aplicadas apenas para o capitalismo segundo o aparecimento das categorias na crítica da economia política, mas à história humana em geral e à natureza.

Esta aplicação da teoria caracteriza, para vários estudiosos da obra de Marx, um desenvolvimento independente da parte de Engels em relação ao seu pensamento, cujos traços reivindicam uma forma particular de reestruturação da dialética que estaria sendo

235 O que é similar à defesa de Darwin contra Lamarck feita por Engels com base na crença de uma consistente, ainda que insuficiente força argumentativa presente na história natural para explicar a evolução natural em termos da mudança de suas formas segundo um princípio comum e dinâmico.

236 No século XX, estas categorias ganharam destaque com a publicação dos manuscritos inacabados de a Dialética da Natureza em 1926, que, junto a outras reflexões presentes no livro que foram estendidas à sociedade no sentido da passagem das sociedades primitivas à contemporânea, justamente os textos mais polêmicos de Engels. Não é nosso escopo defender a posição de Engels, mas um artigo de Robert L. Carneiro, uma das maiores autoridades a respeito das teorias sobre a gênese do Estado defende a utilização do conceito de Engels aplicado ao Estudo das sociedades primitivas em: The transition from quantity to quality: A neglected causal mechanism in accounting for social evolution Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 97, no. 23, (2000): 12926. E neste mesmo artigo dá indicação de um químico famoso, J. D. Bernal, que teria aplicado os princípios de Engels às propriedades químicas.

desenvolvido desde o contato de Engels com a obra de Büchner em 1873.237 No entanto, aquilo que aparece como uma tentativa de sistematização da teoria e do método (que terá papel maior em obras posteriores), e que sustentaria a crítica ganharia neste texto menos destaque do que o próprio ataque à Dühring. Deste modo, é possível supor que a crítica à ideia de sistema, como aparece no Anti-Dühring, se relacione à própria teoria de Dühring, muito mais do que a crítica a Hegel238 (sempre presente na obra de Engels) e à ressignificação do que seria, para ele, a dialética.

Engels (na parte sobre a Filosofia no Anti-Dühring anteriores ao prefácio de 1878) critica a dialética hegeliana, mas não sem assumir aquilo que entende como seus aspectos verdadeiros a serem recuperados. Estes aspectos seriam ligados à forma como seu sistema em particular permitiria uma visão com um sentido específico, de tal modo que fosse possível, graças à sua sistematicidade, algo que não ocorre em Dühring, que é a capacidade de organizar os fatos do mundo natural, histórico e intelectual, resultando, deste modo, na demarcação de diferenças no recurso à ideia de sistema, entre Hegel, Engels e Dühring, especialmente naquilo que seria ligado a um modo necessário de organização do pensamento. Quanto ao sistema hegeliano, na parte chamada “Generalidades” (Allgemeines), Engels trata de sua organização, apresentada como uma forma que ultrapassaria a perspectiva de uma mera descrição dos fatos como eventos isolados, graças à sua apresentação como sistema ordenado e como “processo,” pois, isolados em si mesmos, os eventos seriam percebidos como mera sobreposição de eventos violentos sem sentido. A consciência da mudança, de algo que existe e torna-se “outro,”239 é um dos pontos fortes observados por

Engels, como capacidade de conseguir formular as perguntas corretas, mas sem poder respondê-las. Seu aspecto “falso” seria a proeminência da “Ideia,” invertendo a ordem da “conexão das coisas do mundo,” em que tais ideias se relacionariam gerando uma “fixidez,” ao se manifestarem como categorias empregadas somente enquanto categorias de pensamento e sem nenhuma pretensão à sua efetividade, ou seja, a produzir efeitos no mundo.

237 Irmão do dramaturgo Georg Büchner e do descobridor do frasco de Büchner, era um dos partidários do materialismo científico. Engels - segundo as cartas a Marx durante o mês de maio de 1873 (nos dias 24, 26 e 30) - teria iniciado certas formulações de seu pensamento a respeito das ciências naturais, principalmente a partir da aversão causada pela leitura de Ludwig Büchner em “O Homem e seu lugar na natureza no passado, presente e futuro. Ou: De onde viemos? Quem somos nós? Para onde vamos?,” quando na carta de 30 de maio lhe envia seu primeiro esboço a respeito das questões ligadas às leis de movimento em Hegel. A resposta de Marx mostra o agradecimento, mas pontua que Marx não responderia sobre o assunto sem pensar antes a respeito. (CARVER, Terrell. Engels A Very Short Introduction. New York: Oxford University Press Inc., 2003, p.62)

238 O comentário explícito a respeito de Hegel e Feuerbach será uma constante na obra de Engels, mesmo no chamado último Engels, como testemunha o livro sobre Feuerbach, escrito em 1886, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã.

239 Cabe notar, como Ruy Fausto destaca a respeito de Marx, mais próximo de uma ideia de movimento Aristotélica (como nascimento e perecimento, do que quanto à de causa eficiente).

De modo diverso, para Engels, o método que corrigiria tais distorções deveria ter em consideração as relações entre os fenômenos de modo dinâmico e transformador, posicionado fora dos quadros da metafísica. Esta defesa, construída a partir da defesa de um fundamento lógico para a explicação das leis gerais do movimento, se justificaria como uma resposta necessária a um entendimento que focalizasse “as coisas como se fossem estáticas e inertes, contemplando-as isoladamente, cada uma de per si, no tempo e no espaço” onde não existiria contradição e onde valeria o “método vulgar da metafísica,” o que compreendo, para o contexto de Engels como a defesa da “identidade da substância” e o “princípio do terceiro excluído,” pensados na interface entre lógica e ontologia. Contra esta forma de análise, Engels defende a necessidade de observar os fenômenos na natureza e na sociedade segundo um método próprio de interpretação onde seria necessário observar os

Objetos dinâmicamente (escrito desta maneira no original), acompanhando-os em sua mobilidade, vendo-os transformar-se, viver, e influir uns sobre os outros. Ao pisar neste terreno, cairemos imediatamente numa série de contradições. O próprio movimento, por si mesmo, é uma contradição; o deslocamento mecânico de um lugar para o outro somente pode ser realizado por estar um corpo, ao mesmo tempo, no mesmo instante, num e noutro lugar e também pelo fato de estar e não estar o corpo ao mesmo tempo no mesmo local. A sucessão contínua de contradições desse gênero, ao mesmo tempo formadas e solucionadas, é precisamente o que constitui o movimento. 240

No entendimento de Engels, movimento é contradição e a contradição só pode ser expressa enquanto dinâmica e movimento pela dialética, cuja forma lógica permite se organizar adequadamente ao objeto. A dialética se anuncia como a forma lógica de exposição própria para a compreensão dos fenômenos mundanos.

Para receber a alcunha de metafísico, algo pejorativo no vocabulário engelsiano, uma explicação rigorosa deveria possuir uma natureza diversa em sua relação com o tempo, como no sistema de Hegel em que a extensão da evolução temporal se apresentaria como fator que exerceria influência na mudança tanto na natureza quanto na história, permitindo que estes sejam narrados segundo sua sucessão.241 Deste modo, diferentemente da relação estabelecida entre a lógica do desenvolvimento das categorias no sistema hegeliano, manifesta segundo uma posição definida entre o Ser, a Natureza e o Conceito, na concepção de Engels, ocorreria uma inversão entre a manifestação do Ser e do Conceito, explicitada a partir de outra

240 ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring: filosofia, economia política, socialismo. Rio de Janeiro: paz e Terra, 1979, p. 102.

241 Pressupondo, segundo parece, o modelo da Fenomenologia do espírito, como parece fazer crer Alfred Schmidt, em seu comentário sobre Engels (SCHMIDT, Alfred. El concepto de naturaleza en Marx. Madrid: Siglo XXI editores, S.A., 1977, p.219-220).

concepção de organização como método, em que a Natureza passaria à condição de fundamento da relação entre o Ser e o Conceito.

Esta abordagem de Engels, encarada como uma mudança de perspectiva em relação à abordagem de outros textos sobre a dialética pode ser passível de diversas interpretações, entre as quais, ser comparada a uma forma específica de filosofia da história materialista em que, diferentemente de Hegel, as formas específicas em que se manifestam os fenômenos e eventos particulares poderiam ser organizados segundo princípios comuns, mesmo que de maneira “assistemática” em uma relação em que a Natureza seria responsável pela essência (onde “põe” a essência) com que o homem se relaciona, percebe e deduz. Deste modo, para um determinado homem concreto no presente, tanto a história anterior das relações entre os homens, ainda que distintas em forma (como no capítulo que questiona o conceito de igualdade em Dühring), quanto à história da natureza (desenvolvimento) seria pressuposta, não segundo um fio comum de evolução (ou um mesmo sistema), mas como “histórias” distintas ou percursos de desenvolvimento particulares que se cruzam na relação entre o homem e a natureza, especialmente através do trabalho (relacionado ao desenvolvimento das formas anteriores de trabalho como produção de utensílios e artefatos úteis socialmente e o conhecimento sobre a natureza).

Assim, a história do homem apresentaria um fio condutor que somente poderia ser sistematizado a partir da ideia de um processo constante em que, mesmo que suas formas mudem, isto não representaria uma impossibilidade de expressão ou o mero encerramento desta reflexão em uma espécie de “devir heraclitiano,” pois seria possível observar o passado segundo modos específicos de relação entre os fenômenos, como leis observadas na sociedade e na história da ciência.242

Como consequência desta forma de observar os fenômenos naturais e sociais, apresentada nos termos de um encontro entre uma lei da natureza e sua dedução, tais leis assumiriam para Engels a característica de uma “prova” 243 da dialética, interpretada por meio

242 Perspectiva que nos parece divergir, em certo sentido, de parte da crítica de Lukács que vê Engels segundo uma ótica determinista.

243 Para Alfred Schmidt, que desenvolve sua análise a partir da crítica lukacsiana, a questão se apresenta como uma ponte perigosa, que encontra seu alvo no marxismo estalinista, ao assumir um desenvolvimento, segundo o autor, que transporia a tese de Engels ao domínio soviético: “De fato – e Hyppolite tem razão ao identificar o foco principal – a historicização da natureza em Engels, e sobre todo o marxismo soviético, conduz a uma naturalização da história humana. Obviamente, não segundo o módulo do social-darwinismo, cuja função e origem social foram intuídos tanto por Marx como por Engels. Naturalização da história significa aqui que Engels degrada a história transformando-a em um âmbito especial de aplicação das leis gerais do movimento e do desenvolvimento da natureza: desta maneira aplaina o caminho à subdivisão canônica entre materialismo dialético e materialismo histórico, que é típica da ideologia estalinista, mas que carece de sentido segundo o ponto de vista de Marx”(Idem, Et. Seq.).

da manifestação de diversos fenômenos que comprovariam as supostas leis básicas de transformação derivadas tanto de mudanças “quantitativas em qualitativas,” quanto da “unidade e da luta de opostos,” e da “negação da negação” (ultrapassagem de limites). Este esquema, como veremos, é comum a outras formas da apresentação da história em Engels, pois ao mesmo tempo em que pode assumir a forma de uma apresentação temporal das manifestações da Natureza e da história humana em geral olhando o passado (como identificada posteriormente nos rascunhos que compõe a Dialética da natureza escrita entre 1872 e 1882), ele também pode passar a organizá-los enquanto pressupostos cumulativos que se transformam em outras relações e ultrapassam limites.244.

Relacionados à esta visão do que seria a lógica dialética são apresentados os exemplos da vida evolutiva, que permitiriam a passagem do mesmo ao outro, através da mutação e muitos exemplos, como a lei das proporções múltiplas na química, a ideia de limite em matemática (quando duas retas que tendem ao infinito poderem se encontrar se conceitualmente o que seria uma mera tendência é estendida infinitivamente), findando com outro exemplo de transposição de “fronteiras em limites” presentes nesta passagem ao relacionar a economia política, de forma algo esquemática, à guerra (em particular ao episódio da conquista do Egito por Napoleão aos turcos) que aparece como um primeiro exemplo sobre a guerra, uma passagem certamente original dentro do Anti-Dühring em relação ao que é presente no texto anterior que serve de esboço sobre a guerra Táticas de Infantaria derivadas

de suas causas materiais:

244 O que não impede como vemos em alguns momentos, que se atribua certos juízos no sentido de prognósticos e previsões a partir de tendências desta relação entre história natural e história humana, vista como tendência com base em pressupostos materiais (naturais ou sociais) dados sobre os quais se é possível agir, incidir de modo a poderem ser mudados. De certo modo, é este tipo de conhecimento que se anuncia em algumas passagens da Ideologia Alemã, como o saber que se anuncia como “ciência real, positiva, exposição da atividade prática, do processo prático de desenvolvimento dos homens,” que substituiria a filosofia alemã em seu momento mais recente (a crítica dos jovens hegelianos):”Em seu lugar pode aparecer, no máximo, um compêndio dos resultados mais gerais, que se deixam abstrair da observação do desenvolvimento histórico dos homens. Se separadas da história real, essas abstrações não têm nenhum valor. Elas podem servir apenas para facilitar a ordenação do material histórico, para indicar a sucessão de seus estratos singulares. Mas de forma alguma oferecem, como a filosofia o faz, uma receita ou um esquema com base no qual as épocas históricas possam ser classificadas. A dificuldade começa, ao contrário, somente quando se passa à consideração e à ordenação do material, seja de uma época passada ou do presente, quando se passa à exposição real” (MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia Alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). São Paulo: Boitempo, 2007, p. 95). As aplicações de um sentido prognóstico a partir deste tipo de saber indicado por Marx e Engels é criticado por Horkheimer em Materialismo e Metafísica: “A possibilidade de reconhecer, com o auxílio desses resultados, algumas tendências evolutivas que vão além do presente imediato não justifica transferir simplesmente aquele resumo para o futuro. Enquanto toda metafísica tenta compreender algo essencial no sentido de que neste algo se antecipa também o âmago do futuro – o que ela descobre nunca deve ser a causa apenas do passado, mas simultaneamente sempre a do futuro -, o materialismo contemporâneo, mediante a construção de conceitos abrangentes, não faz abstração da diferença das dimensões temporais” (HORKHEIMER, Max. Teoria Crítica: uma documentação. São Paulo: Perspectiva, 2006, p.42-3).

Napoleão descreve o combate travado entre a cavalaria francesa, cujos soldados eram pouco afeitos à equitação, mas que eram, no entanto, disciplinados, e os mamelucos, cuja cavalaria era a melhor do seu tempo para os combates individuais, mas que eram indisciplinados. Eis o que nos diz Napoleão: “Dois mamelucos sobrepujavam, indiscutivelmente, a três franceses; 100 mamelucos faziam frente a 100 franceses; 300 franceses venciam 300 mamelucos e 1000 franceses derrotavam, inevitavelmente, 1500 mamelucos” . Da mesma forma que, em Marx, a soma do valor de troca tinha que alcançar um limite mínimo determinado, embora variável, para se converter em capital, vemos que, na descrição napoleônica, o destacamento de cavalaria tem que alcançar um determinado limite mínimo para que a fôrça (deste modo no original) da disciplina que se encerra na ordem unida de combate, e no emprego das forças, com base num só plano, possa se manifestar e se desenvolver até o ponto de poder aniquilar massas numericamente superiores de uma cavalaria irregular, composta de melhores montarias e de soldados tão bravos pelo menos quanto os outros. Que nos diz sobre isso o sr. Dühring? Não acabou por sucumbir Napoleão na sua luta contra a Europa? Não sofreu ele derrotas sobre derrotas? Por que foi derrotado Napoleão? Pura e exclusivamente por ter desejado aplicar à tática da cavalaria a confusa e nebulosa ideia de Hegel. 245

Neste sentido, a partir deste período, será esta forma de pensamento aquilo que

Benzer Belgeler