B- MÜFESSİRLERE GÖRE 18/60-82 ÂYETLERİNİN TEFSİR VE
V- HAMDİ YAZIR’A GÖRE KEHF 18/60-82 ÂYETLERİNİN TEFSİR VE
A partir dos atendimentos, é visível o “baralhamento” entre o público e o privado, na medida em que as assistentes sociais, com o objetivo de auxiliar, entram na vida privada de algumas famílias, principalmente daquelas em situação de extrema pobreza, que são frequentemente acompanhadas pelas assistentes sociais. O mesmo ocorre no sentido oposto: as famílias expõem seus problemas privados e suas condições de vida para receberem o benefício ou a ajuda social. Há, assim, uma fluidez das fronteiras entre o que é público e privado e as formas como estas são articuladas pelos agentes sociais envolvidos, assim como para estabelecer as
regras que determinam se uma família é ou não beneficiária:
É complicado, tem a necessidade das famílias e o dinheiro é importante. Por outro lado, tem regras e o controle sobre as famílias é cobrado pelo governo, tem dinheiro público, e para isso acabamos entrando na vida particular. Elas vêm aqui [beneficiárias], têm companheiro, mas ele não ajuda, não trabalha, problemas com filhos adolescentes, doença [...] elas contam toda a vida e algumas dizem: “pode ir lá em casa e perguntar para os vizinhos”. Para receberem o dinheiro é preciso “abrir” toda a sua vida. Às vezes, é difícil, somos uma espécie de salvação para muita gente, nos tornamos “íntimas” (Assistente Social).
Segundo Lyra (1999, p. 3), a fronteira entre o público e o privado é instigante no Brasil, porque sugere enfoques e questionamentos diversos dependendo da forma como essas dimensões são interpretadas. Para a autora, estes podem ser “concebidos como campos de atuação do poder do Estado e dos grupos sociais de dominação político-econômica, assim o enfoque é dado à problemática da ordem privada escravista em confronto, ou complementar, com a ordem pública estabelecida” (LYRA, 1999, p. 3). No entanto, “quando concebidas como esferas de atuação dos indivíduos em sociedade e manifestações de intimidade da vida cotidiana, o enfoque é dado ao processo de transformação das relações sociais e políticas levando-se em conta o caráter privado e cultural dos indivíduos na definição do espaço público” (LYRA, 1999, p. 3-4). No Brasil, conforme Botelho (2011, p. 420), o “baralhamento” entre o público e o privado é visto como uma marca desde a colonização portuguesa e por isso constitui uma das “construções intelectuais mais recorrentes no seu pensamento social”. Ainda de acordo com Botelho (2011, p. 421), o privado no pensamento social brasileiro tem sido geralmente associado “aos círculos primários, sobretudo a família de matriz patriarcal” e aponta esta como “a agência principal de coordenação da vida social”, por meio da qual o privado foi se estendendo ao público.
O mesmo já havido sido referido nas obras de Gilberto Freyre. Em “Sobrados & Mucambos” (2002), o autor descreve a família “sob a forma patriarcal, ou tutelar” como uma das grandes forças permanentes no Brasil. Em torno da família, segundo o autor, os principais acontecimentos brasileiros giraram durante quatro séculos, de modo que permaneceu apesar das mudanças ocorridas na vida social quando esta passa do meio rural para o meio urbano. Botelho (2011, p. 422) faz referência à obra de Gilberto Freyre ao mencionar que a decadência do patriarcado rural não implicou o desaparecimento total do seu poder nem o rompimento da interpenetração entre o público e privado, ainda que “as relações entre esses domínios tenha se alterado mediante ao peso relativo que as instituições públicas passaram a assumir”. Sergio Buarque de Hollanda (2002) afirma que o brasileiro se criou dentro de um núcleo familiar acentuadamente patriarcal e trouxe para o meio público esses traços que o fizeram indivíduo. Nesse contexto, destaca-se sua dificuldade de desvincular-se dos laços familiares a partir do momento em que se torna um cidadão: ele leva consigo essa forma de tratamento “cordial”, em que precisa criar uma intimidade com aqueles que se relaciona. Tal elemento era observado no CRAS durante a atualização dos dados do cadastro por parte dos beneficiários − quando a renda per
capita da família ultrapassava o limite estabelecido pelo programa e era originada do
trabalho formal (carteira assinada), a assistente social orientava os beneficiários, em alguns casos particulares, a não realizarem a atualização das informações. Ou seja, os beneficiários eram orientados a deixar o cadastro desatualizado até que o próprio sistema do CadÚnico bloqueasse ou excluísse o benefício, um processo que, segundo a assistente, poderia levar alguns meses, de modo que a família continuaria a receber o dinheiro. Luíza, uma das beneficiárias, trouxe a carteira de trabalho do marido para atualização do cadastro. Este havia conseguido um
emprego formal que fazia com que renda per capita familiar ultrapassasse o limite do PBF em R$ 30 (o valor do benefício da família era de R$ 104). Nessa ocasião, a beneficiária foi orientada pela assistente social a não atualizar os dados. Segundo Luíza, o dinheiro do Bolsa Família pagava a creche de sua filha: “Sem este dinheiro não dá, como eles [referindo-se ao Governo Federal] acham que eu não sou pobre, mas ela (assistente) me conhece, sabe que preciso”.
Para as famílias que vivem do trabalho informal (sem carteira assinada), o cálculo da renda é feito pela renda declarada100, caso em que o titular do programa
declara a renda da família e assina um documento afirmando a veracidade de tal informação. Novamente, em alguns casos, a assistente aconselhava a informar um valor menor que o recebido. Lúcia, mãe de dois filhos, que era separada e morava com a mãe, por exemplo, tinha uma renda familiar que provinha do seu trabalho como faxineira e da venda de bolos e doces que sua mãe realizava na porta de casa. A renda per capita da família ultrapassava o limite, motivo pelo qual a assistente orientou Lúcia a informar um valor menor para continuar a receber o benefício de R$ 147. Antes de encaminhá-la para a atualização do cadastro, a assistente reforçou a orientação e perguntou: “Qual a renda da família?”. Lúcia respondeu o valor correto, e a assistente corrigiu: “Não, a sua renda é o valor que você escreveu na declaração. É isso que você deve dizer se não quer perder o benefício”.
As assistentes que por vezes auxiliavam nessa prática justificavam a ação pela falta que o dinheiro faria no orçamento da família, mesmo com o aumento da renda, baseando-se na história de vida daquelas pessoas. Segundo uma das
100 O titular do programa deve escrever e assinar um documento informando qual é o rendimento da família. Este documento é anexado ao prontuário da família.
assistentes, embora os valores sejam pequenos, quando as famílias deixam de receber o benefício, isso pode implicar, por exemplo, uma luz que não será paga: “Somos nós que tratamos todos os dias com quem precisa, é difícil ter que excluir gente que necessita. Vão viver de quê? Mas isso não é “legal”, por isso tem que
ter confiança”. Em nenhum momento, os procedimentos dos atendimentos foram
informados ou “denunciados” pelos beneficiários. Ao contrário, as assistentes sociais que mais “auxiliavam” eram as “preferidas” dos beneficiários para o atendimento, porque “elas sabem quem precisa”.
Eu gosto muito da [...] ela é educada, gentil e entende os nossos problemas, sabe que a gente precisa. Se não fosse ela, minha família teria mais dificuldades. Eu digo para ela “você é um anjo”. Já aquela outra [...] não suporto, tem muita má vontade de ajudar (Liliane).
Gosto de duas assistentes, elas são atenciosas e ajudam a gente que precisa. Eu ligo para saber quem está atendendo no dia, conforme eu vou (Maria).
Em toda a relação construída na “ponta” do PBF entre assistentes sociais e beneficiários, há uma dinâmica que somente é compreensível ao observarmos o cotidiano do CRAS. O programa, como foi exposto, desde a sua criação e execução, busca formas de controle sobre quem trabalha na “ponta” e quem recebe o benefício. Entretanto, os beneficiários e as assistentes sociais estabelecem suas próprias percepções sobre as regras e os critérios, criando um universo “paralelo” que fica no limiar entre o “formal” (regras do programa) e o “informal”.
3 O BOLSA FAMÍLIA: FAMÍLIAS, POBREZA, DINHEIRO E CONSUMO
Nos capítulos anteriores, apresentaram-se a trajetória de pesquisa e o início do PBF até a sua execução na “ponta” (gestão municipal), analisando a relação entre as assistentes sociais e os beneficiários. Neste capítulo, a pretensão é descrever e analisar o cotidiano de três beneficiárias e suas famílias a partir do consumo e dos significados do dinheiro oriundo do PBF.