A denúncia quanto ao despojo da terra e à exploração do trabalho dos indígenas
tzeltales, realizada em 1972 pelos jesuítas de Bacharón, cuja paróquia apresentava características político-teológicas bem mais moderadas do que as da paróquia de Ocosingo – onde nasceu a catequese do Êxodo 282 – foi o estopim para o início de fortes mobilizações da população tzeltal, tanto na região de Los Altos, quanto na Selva Lacandona. 283
Neste contexto, em 1973, o então governador de Chiapas, Doutor Manuel Velasco Suárez – cuja política de governo se inseria no bojo das características “populistas”
282 Conferir páginas 88 a 92.
283 Uma possível explicação para a tolerância ao trabalho realizado – por exemplo, pelas paróquias de Bacharón
e Ocosingo – com as comunidades indígenas ligadas à diocese de San Cristóbal, está relacionada ao preconceito frente ao indígena e sua cultura, que tornava as autoridades “cegas” à capacidade de organização e resistência impulsionadas pelo trabalho de revalorização étnica e conscientização política empreendido, sobretudo, pelos catequistas indígenas. Capacidade esta que foi prontamente percebida e combatida – como apresentaremos mais adiante – pelos poderes governamentais após o Congresso Indígena de 1974.
apresentadas pelo presidente da república Luis Echeverría Alvarez 284 – propôs a realização de um congresso para comemorar os 150 anos da “mexicanidade” de Chiapas, 285 focando na figura do Frei Bartolomé de las Casas. 286 O evento ocorreu como um ato acadêmico de especialistas “lascasianos”, dividindo-se em um encontro de direito internacional, outro de antropólogos e um terceiro, realizado pela diocese de San Cristóbal, que tratou da história da Igreja na América Latina, onde um indígena discursou em tzeltal, sendo traduzido pelo próprio bispo Samuel Ruiz. 287
Após esse evento, surgiu a idéia da realização de outro encontro, um congresso indígena como parte dos festejos para comemorar o quinto centenário do nascimento do Frei Bartolomé de Las Casas. Para a efetivação desse congresso foi chamado o bispo da diocese de
San Cristobál de las Casas, Samuel Ruiz García, devido a sua grande capacidade convocatória entre as comunidades indígenas chiapanecas.
A análise que seguirá dos preparativos, do próprio Congresso Indígena, de seus resultados e conseqüências, se embasará, sobretudo, em duas fontes. A primeira fonte primária que servirá como base para este capítulo consiste na ata do Congresso Indígena de 1974. Nela encontram-se: os Antecedentes e o Nacimiento de la idea: un congreso de
indígenas y para indígenas, que tratam do surgimento da idéia do congresso e de como ele
foi organizado até tomar as características que possuía em 1974; a Inauguración del
congreso indígena, ou seja, o discurso de abertura do congresso em 13 de outubro de 1974;
um Discurso sobre Fray Bartolomé de las Casas; as exposições de cada etnia sobre os temas do congresso, começando com Ponencia Tzotzil - La tierra, Ponencia Ts’eltal - La tierra,
Ponencia Tojolab’al - La tierra, Ponecia Ch’ol - La tierra e Acuerdos sobre la tierra,
seguindo a mesma estrutura com El comercio, Educación e Salud respectivamente e de modo que as “ponencias” são as exposições de cada etnia e os “acuerdos” são as demandas e propostas em conjunto de mais de uma das etnias; e o texto termina com o discurso de encerramento Continuadores de la lucha de Zapata en el Congreso.
284 Conferir página 37.
285 Conferir páginas 31-32.
286 Para conhecer mais acerca da história do “defensor dos indígenas” e primeiro bispo de Chiapas, Frei
Bartolomé de Las Casas, sugere-se conferir: BRUIT, Héctor Hernán. Derrota e Simulação. Os índios e conquista da América. In: Resgate: Revista de Cultura. Campinas, n. 2, p. 09-19, 1991 e, sobretudo, FREITAS NETO, José Alves de. Bartolomé de Las Casas: a narrativa trágica, o amor cristão e a memória americana. São Paulo: Annablume. 2003.
A versão deste documento aqui empregada é uma tradução para o espanhol realizada pelo “Centro Nacional de Comunicación Social” (CENCOS) 288 e disponibilizada pelo
“Centro de Investigaciones Económicas y Políticas de Acción Comunitária” (CIEPAC). Segundo o CENCOS, a tradução foi feita respeitando os textos originais, uma vez que neles as exposições encontram-se nas línguas em que foram faladas, ou seja, na língua de cada etnia que participou do congresso.
A segunda fonte consiste em um artigo que se propõe a fornecer um testemunho ocular e apresenta também, ao final, uma avaliação do Congresso de 1974 construída a
posteriori, ou seja, apontamentos construídos a partir do distanciamento atual – o artigo foi publicado originalmente em 1991, isto é, dezoito anos após o inicio dos preparativos para o Congresso – acerca dos erros e acertos, da importância e dos resultados, de acordo com o ponto de vista do autor, o filósofo e teólogo Jesús Morales Bermúdez, que foi um dos organizadores do Congresso.
De acordo com os itens que antecedem a transcrição das falas na ata supracitada, o bispo Samuel Ruiz García respondeu ao comitê organizador que somente aceitaria o convite para realizar o congresso se este fosse “[...] un Congreso de Indígenas y para Indígenas; de ninguna manera um congreso de tipo turístico, folklórico ni mucho menos com tintes demagógicos”. 289
Apostando que poderia permitir a participação de alguns setores progressistas e a livre expressão das comunidades indígenas, uma vez que assim obteria apoio consensual para o seu governo e poderia controlar o congresso, o comitê organizador deu “carta branca” para o bispo Samuel Ruiz García realizar o mesmo, aceitando as condições impostas.
Estas afirmações são confirmadas pelo testemunho apresentado por Jesús Morales:
288 De acordo com informações fornecidas pelo próprio CENCOS, este centro nasceu em 22 de junho de 1964 e
constituiu-se como Associação Civil em 23 de abril de 1965. Surgiu no contexto em que se iniciava a massificação dos meios de comunicação no México. Sua principal preocupação é funcionar como um instrumento para que setores organizados, mas sem espaço nos grandes meios de comunicação, consigam tornar visíveis suas reivindicações de justiça social e, sobretudo, denunciar os atentados contra os Direitos Humanos. Inicialmente estava intimamente ligado a setores da Igreja católica. A partir da década de 1970, seu foco passou a ser a divulgação de campanhas contra a tortura e em prol da libertação de vitimas dos cárceres controlados pelas ditaduras latino-americanas. Na década de 1980 sua ênfase recaiu no espaço fornecido a movimentos populares da sociedade civil, o que é continuado a partir da década de 1990, quando se agregou também a denúncia e articulação frente ao novo contexto internacional, no qual o México se fazia participante com a assinatura do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN). Nesse período o CENCOS participou de uma convenção que visava encontrar uma saída pacífica para o conflito entre os insurgentes neozapatistas de
Chiapas e o governo mexicano.
289 CIEPAC. Primer congreso indígena 1974. Disponível em <http://www.ciepac.org/analysis/index. html>.
Esta primera reunión de la que se deriva la Idea de no llevar a cabo un congreso folclórico sino una congragación de indígenas en la que sean ellos mismos quienes digan su palabra, la llevó a cabo el obispo de San Cristóbal con los promotores diocesanos que más se significaban ante sus ojos por su práctica pastoral de encarnación en pueblos indios […] Partiendo del principio del respeto cultural como premisa sine qua non, proponían un Congreso en el que de manera completa los indígenas fueran los protagonistas, y se comprometían a trabajar para lograrlo. 290