No discurso da Selecta Catholica a imagem da fragilidade da razão é a dos povos antigos. Principalmente os gregos são utilizados como a maior evidência para demonstrar a impossibilidade de se chegar a Deus e conseqüentemente à Verdade, se não por meio da
Revelação e da mediação da Igreja, pois mesmo com a sua genialidade filosófica e sua capacidade de criação de um método racional para a busca da verdade, sentiam a necessidade de uma autoridade que os ensinasse sobre a verdadeira religião:
O homem necessita pois de outro archote, que esclareça e dirija melhor a sua razão. Huma rápida consideração dos povos policiados que não conhecião a revelação, nos bastará para mostrar o que pode a razão para regular o culto religioso e os costumes. As nações mais ilustradas e mais judiciosas, diz o grande Bossuet, os Chaldeos, os Egypcios, os Phenicios, os Gregos, os Romanos erão os mais ignorantes, e os mais cegos em matéria de religião: prova bastante de que necessita o homem de huma graça particular, e de huma sabedoria mais que humana para chegar á verdadeira religião.
No meio de nossas incertezas, diz Platão, o partido que devemos tomar, he esperar pacientemente que algum nos venha instruir do modo, porque devemos proceder com os deoses, e para com os homens. Aquelle que vos ensinar taes cousas, se interessa verdadeiramente por vós... Oh! Se elle viesse já, respondeo Alcibiades: estou disposto a fazer tudo o que me prescrever; e espero que elle me fará melhor.(p. 05, in Alcibiad. Dialog. 02) (Selecta Catholica, 1 de julho de 1846, p. 3)
Embora esse fragmento fosse assinado por Jamin, a citação também se relaciona a Lamennais, pois a mesma argumentação é encontrada nas Oeuvres complétes de F. de la
Mennais, 1836 – 1837, no tomo relativo ao Essai sur l′′′′indifférence em matière de réligion. Lamennais procura mostrar que embora Platão tivesse um enorme amor pela
verdade e a buscasse incessantemente, ele tinha a consciência de que apenas a sua razão era insuficiente para alcançar a verdade sobre os deuses e sobre o próprio homem e que seria necessário alguém que viesse instruí-los. Assim não há uma contraposição direta ao sistema platônico. Pelo contrário, os autores da Selecta sustentam-se na autoridade platônica para afirmar a necessidade da Revelação em apoio da razão, que é de fato o grande tema do jornal mineiro.
É muito interessante o papel de autoridade e de prova das verdades cristãs atribuído, na Selecta Catholica, aos filósofos gregos e aos povos antigos. No periódico de 15 de julho de 1846 há o seguinte fragmento sobre a relação entre o sistema filosófico dos pagãos e a sociedade:
Supunham Deus multiplice, divisível, este erro foi a origem de muitos outros, por consequencia natural negaram igualmente a unidade da inteligência social e da inteligência individual e caíram por uma parte no materialismo e por outra na multiplicidade de hordas vagabundas. Entretanto como reconheciam uma verdade ou ser supremo e se enganaram só sobre sua natureza, sobre a verdade, o ser, a inteligência ou a vida, porquanto todas essas expressões são sinônimos, não foi
totalmente extinta a sociedade ou os indivíduos, houve fraqueza, perturbação, desordem em uma palavra, diminuição do ser, mas não a destruição. (Selecta
Catholica, 15 de julho de 1846, p. 46)
Os povos pagãos reconheciam a existência de uma verdade que coincidia com a idéia de um Ser supremo, porém eles não entendiam a natureza desse ser e supunham que Deus fosse múltiplo. De fato, como afirma Gilson (1944), havendo semelhança entre Deus e o homem, pois assim Deus o criou, Deus não é totalmente estranho ao intelecto. Pelo contrário, a razão pode reconhecer a existência de Deus, mas sozinha não pode imaginar a sua natureza.
Para os autores da Selecta, um dos erros dos gregos ao imaginar a divindade foi acreditar que ela fosse múltipla. O Deus revelado aos cristãos é único, a Trindade é uma unidade, a Encarnação de Cristo e a Igreja são o princípio de união entre Deus e os homens e o corpo social cristão é uma unidade. Quer dizer que a idéia de Deus está fundamentada na idéia de unidade ou de união, como já vimos anteriormente, porque não pode haver separação ou diferença entre a inteligência de cada um dos homens e a inteligência social.
A idéia de unidade é muito importante para aSelecta Catholica. Homem, sociedade e Deus são unidos, formam uma unidade. Imbuídos de toda uma tradição filosófica clássica, a verdade está na unidade, na união perfeita entre as coisas, daí a expressão “é uma só a idéia, ou não é idéa”, daí a noção de que tudo que separa é erro. Assim, a religião, ou teoria, que opera uma separação entre Deus e o homem, concebendo-o autônomo de Deus é falsa:
A Religião sendo a expressão das relações que nascem da natureza de Deos, segue-se: 1° que só pode existir huma, porque aquellas relações são sempre as mesmas; 2°, que toda Religião falsa he opposta a natureza de Deos e a do homem; ella os separa; em lugar de uni-los, os destroe em lugar de conserva-los: assim, o erro na fé separa o homem de Deos considerado como suprema verdade; o erro nas acções ou o crime, separa-o de Deos considerado como author da ordem. (Selecta Catholica, 15 de agotso de 1846, 89 )
Os povos antigos, entretanto não conhecendo ainda Cristo nem a Igreja, mantiveram sua sociedade viva por causa do sincero reconhecimento de que havia uma verdade que eles deveriam buscar e que essa verdade coincidia com algo perfeito e absoluto. Não havia indiferença religiosa, pelo contrário havia uma verdadeira intuição de um bem supremo, tanto que Platão afirma na República que a primeira coisa que deve haver em uma república bem governada é sua religião.
Havia portanto, nos povos antigos, uma valorização da busca da verdade como uma certa intuição da necessidade de alguém mais que humano para instruí-los naquilo que a razão não conseguia penetrar, como afirmava Bossuet no trecho anteriormente citado. Esse mesmo tipo de concepção encontra-se na Divina Comédia de Dante Alighieri que coloca os diversos autores da antigüidade, como os filósofos gregos Sócrates, Platão e Aristóteles e o próprio Virgílio no limbo, o vestíbulo do Inferno.
O limbo era um lugar aparentemente confortável, não havia castigo, mas também não havia salvação. O sofrimento ali era a impossibilidade do acesso à verdade advinda do desconhecimento de Cristo e da Igreja. Estavam no limbo as crianças mortas antes do batismo e aqueles que, de algum modo, buscavam a verdade, queriam conhecê-la, mas sem a Revelação de Cristo e da Igreja não poderiam ter o conhecimento da verdadeira religião. São claros esses versos em que Virgílio descreve sua própria condição:
e os que tenham vivido antes de Cristo não adoraram Deus devidamente, e eu dessa condição também consisto.
Somos por essa causa, essa somente, perdidos, mas nossa pena é só esta: sem esperança ansiar eternamente. (ALIGHIERI, 2001, p. 44 )
Essa fala de Virgílio na Divina Comédia é exatamente a imagem que existe na
Selecta Catholica sobre os povos antigos, ou seja, a de que eles tinham sede de verdade,
mas como não conseguiam chegar até ela, ansiavam eternamente sem conseguir resposta que os satisfizesse. Assim para os autores da Selecta como para Dante Alighieri, os povos antigos não tinham realmente culpa pelas suas faltas ou pelos problemas da sociedade. Pelo contrário, a fidelidade deles na busca da verdade conseguiu fazer com que a sua sociedade se mantivesse viva. Por isso, o trecho do periódico anteriormente citado afirma que, apesar das crenças materialistas e das hordas vagabundas, houve diminuição do ser, mas não destruição da sociedade.
Ao contrário da posição dos povos antigos, a atual sociedade corria perigo de extinção, já que os sistemas filosóficos dos séculos XVII, XVIII e XIX conheciam Cristo e
a Igreja, mas os negavam. E, negando a Deus, proferiam idéias erradas sobre a natureza humana.
Para D. Viçoso e seu grupo, a filosofia dos pagãos da antigüidade era bem mais inteligente do que as filosfias modernas, pois eles, não possuindo nenhuma Revelação, buscavam a verdade por meio da razão, com a consciência da falta que carregavam e de seus limites. Desse modo, os antigos tinham mais amor pela verdade do que o filosofismo dos últimos séculos.
O filosofismo originado no século XVIII, ao contrário, levava os homens para longe da verdade e para a destruição da sociedade:
Em fim a obra que se propunha ao povo, como uma nova arvore da sciencia do bem e do mal, a arvore da vida deitou as suas duas primeiras folhas; apparecêrão dous volumes da Encyclopedia, que forão declarados o mais admiravel parto da erudição e do talento.
Desde aquelle momento ergueo a impiedade ufana a cabeça. Voltaire foi infeccionar a Prussia com o veneno que havia espalhado em França. Condillac deo á luz a Origem dos conhecimentos humanos; Helvecio começou a trabalhar no seu Espirito; veio depois o Contrato Social de Jean Jacques-Rousseau, que havia abjurado o christianismo em Genebra.
Começárão a circular, e a passar de mão em mão varios opusculos pseudonymos; a impiedade havia já invadido o sanctuario da Sorbona. (LORGUES, 1856, p. 13)
Lorgues, o autor de Jesus Cristo perante o Século, vê o filosofismo como uma infecção que espalha seu veneno pelos países, trazendo a impiedade até mesmo para as Universidades.