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Para DANIEL-ROPS (2000), Jean Jacques Rousseau é um dos únicos pensadores de seu tempo cuja obra não se reduz a um conjunto de idéias prontas ou um estaleiro de

demolicação (DANIEL-ROPS, 2000, p. 59) contra a fé e a religião, e se traduz em um

esforço de construção de um sistema de pensamento coerente que tenta explicar as questões de seu tempo.

Sem dúvida, Rousseau é o filósofo iluminista mais respeitado pelos padres que organizavam a Selecta Catholica e é também o mais citado no jornal marianense. Sendo considerado o pai dos deístas na Selecta Catholica, as idéias do filósofo deveriam ser combatidas. No entanto, a relação dos autores do periódico com Rousseau é de uma certa “cordial inimizade”, pois embora critiquem duramente sua concepção de religião e de homem natural, existem diversos trechos em que as idéias de Rousseau são utilizadas corroborando as idéias da Selecta.

A propósito da respeitabilidade de Rousseau, REALE e ANTISERI (1990) escrevem:

Considerado com razão como o maior pensador do século XVIII, ele se impôs por motivos constrastantes. Para alguns, é o teórico do sentimento interior como único guia da vida, para outros é o defensor da absorção total do indivíduo

na vida social, contra as renascentes fraturas entre interesses privados e interesses

coletivos; para alguns, é liberal, para outros é o primeiro teórico do socialismo; para alguns, é iluminista, para outros é antiiluminista; para todos, é o primeiro

grande teórico da pedagogia moderna. (REALE; ANTISERI, 1990, p. 755)

Talvez por suas querelas com os enciclopedistas ou com alguns filósofos de seu tempo, como David Hume, talvez pelo seu autêntico esforço em propôr idéias que pudessem ser mais justas para a sociedade, Rousseau parece, para quem lê as páginas da

Selecta Catholica, um simpático inimigo. Principalmente porque de todos os filosófos

combatidos, Rousseau é o único que comparece no jornal com sua humanidade. Pode-se dizer que os autores que compõem os fragmentos da Selecta Catholica fazem uma interpretação própria do filósofo genebrino, aparecendo no jornal um Jean-Jacques Rousseau arrependido de sua vida vazia e com grandes intuições de que o cristianismo é de fato, a verdadeira e única religião possível.

Assim, os organizadores do periódico marianense utilizam as palavras de Rousseau como que dizendo aos leitores que os mesmos iluministas em quem eles acreditavam, sentiam a falta de Deus, sentiam-se sozinhos e estavam sendo levados à derrocada de si

mesmos e que isso poderia ser provado pelos seus próprios escritos. Ou seja, uma das estratégias encontradas na Selecta Catholica para o combate das doutrinas enganosas é a utilização dos autores iluministas para contradizer as próprias luzes.

Rousseau é citado na Selecta de 1 de julho de 1846, afirmando sua admiração em relação ao Evangelho:

Façamos oposição aos clamores dos deístas contra a verdade da revelação evangélica, não com a autoridade de um apóstolo, de um padre da Igreja ou de um teólogo, apresentamos um dos principais chefes dos mesmos deístas, o muito célebre João Jacques Rousseau. Eu vos confesso, diz ele, que a magestade das Escrituras me espanta, a santidade do Evangelho fala ao meu coração. Vede os livros dos filósofos com toda a sua pompa, quanto são pequenos em comparação daquele. (Selecta Catholica, 1 de julho de 1846, p. 09)

O trecho prossegue com a narração de Rousseau a respeito de sua admiração por Cristo, sendo o Emílio (1763) citado como referência. Assim, o jornal expõe a contradição existente na obra de Rousseau, que é deísta, mas que reconhece a santidade do Evangelho. Aqui, para os autores do jornal, existe uma afirmação de Rousseau a favor das verdades reveladas da Igreja, pois o filósofo reconhece o caráter sagrado e misterioso das Escrituras que não podem ser comparadas aos livros dos filósofos. Em suma, aqui, Rousseau coloca a infinita distância entre as obras realizadas pela Razão divina e as realizadas pela razão humana.

Na Selecta de 15 de outubro de 1846, Rousseau também é utilizado falando a favor da autoridade da Igreja Católica. A citação, de acordo com o periódico, é de Lettre ecrite

de la Montagne:

Prove-se me hoje, diz este cabo de gente incrédula, que em matéria de fé eu sou obrigado a submeter minhas decisões de alguma, desde a manhã eu me faço católico. E todo homem consequente e verdadeiro obrará como eu. (Selecta

Catholica, 15 de outubro de 1846, p. 231)

No jornal de 15 de novembro de 1846, há outra utilização de Rousseau falando a favor de Cristo:

Deixemos falar um filósofo, que certo ninguém o arguirá de fanatismo, J.J. Rousseau. Depois da morte de Jesus Christo doze pobres pescadores e artífices empreenderam instruir e converter o mundo. O método que seguiram era mui simples pregavam sem arte, mas com o coração penetrado e de todos os milagres com que Deus premiava a fé que nele tinham, o mais evidente foi a santa vida que fizeram. (Selecta Catholica, 15 de novembro de 1846, p. 293)

Apesar da simpatia nutrida pelo filósofo genebrino, D. Viçoso e seu grupo se contrapõem enérgicamente aos ideias de homem natural e Religião natural. A primeira crítica ao deísmo era sua afirmação de um Deus que não realizava nenhuma ação sobre o mundo e o cotidiano dos homens.

He pois o Deos destes filosofos hum Deos ocioso, o qual collocado sobre o seo throno, não tem olhos, se não para si mesmo, sem que possa jamais distrahir-se desta contemplação, para se occupar no cuidado das cousas do mundo, a respeito das quaes já nada tem que fazer. O universo he hum relogio, a que deo corda, quando o creou, e que agora deixa mover-se per si mesmo. (Selecta Catholica, manuscrito,1836, p. 415)

Para Voltaire, a suposição da existência de Deus vinha justamente do fato de que o mundo sendo um grande mecanismo, como um relógio, provava que existia um relojoeiro. Para o deísmo esse Ser era absolutamente perfeito e portanto não poderia ser mau. O mundo porém, é lugar de imperfeições, onde existe o mal. Mas como poderia o Ser perfeito coexistir com o mal? Não poderia, portanto, embora existisse um Ser criador, ele nada tinha a ver com os males humanos (REALE, ANTISERI, 1990). Nesse sentido, Deus não poderia incindir na história e nem no cotidiano dos homens o que contradiz violentamente as perspectivas históricas de Bossuet e Lamennais que já foram comentadas anteriormente. Para os deístas, sem dúvida “Deus criou a ordem do universo, mas a história é uma questão dos homens” (REALE; ANTISERI, 1990, p.734).

O problema do deísmo é que ele tira toda a fundamentaçào da idéia de sociedade preconizada pela Selecta Catholica. Ora, se a sociedade é tida como corpo místico, como já discutimos, como pode ser possível um Deus que não se coloca no cotidiano dos homens? Pelo contrário, no corpo místico cristão há uma intensa atividade da Vontade divina que é o fundamento de toda as relações sociais, que se faz presente nos sacramentos, na liturgia, nos milagres que a Providência coloca todo os dias diante dos homens. No corpo místico cristão, é Deus que confere o ser ao homem e à sociedade. Nem a Igreja, nem a sociedade civil, nem as famílias ou os indivíduos têm sentido sem a atualizaçào cotidiana do divino que se faz presença.

Entretanto, para Rousseau, o conceito de Deus que está em toda a parte é apenas uma crendice que as pessoas falam sem entender, porque assim foram ensinadas:

Confesso que nos ensinam a dizer que Deus está em toda parte: mas acreditamos também que o ar está em toda parte, pelo menos em nossa atmosfera; e a palavra

espírito, em sua origem só significa mesmo sopro e vento. Desde que acostumemos as pessoas a dizerem palavras sem as entender, torna-se fácil fazermos com que digam o que bem quisermos. (ROUSSEAU, 1995, p. 292)

Na religião natural existe um Ser substância, mas que só pode ser ensinado supersticiosamente as crianças e ao povo ou que pode ser sentido pelas pessoas instruídas, que trilhando seu caminho educativo chegam à capacidade de abstração suficiente para imaginar uma causa primeira.

Então, o primeiro aspecto problemático do deísmo, na perspectiva da Religião Natural de Jean-Jacques Rousseau é a maneira como o autor acredita que a humanidade chegou à idéia de Deus.

Do mesmo modo que o homem instruído chega à idéia de Deus, os povos fazendo uma analogia entre ações humanas sobre os objetos e a ação sofrida pelos homens, chegam à conclusão de Deus:

O sentimento de nossa ação sobre os outros corpos deve ter-nos levado a crer primeiramente que quando agiam sobre nós era do mesmo modo que agíamos sobre eles. Por isso o homem começou por animar todos os seres cuja açào ação sentia. Sentindo-se menos forte do que a maioria desses seres, por desconhecer os limites do poder deles, ele o imaginou ilimitada e deles fez deuses logo que deles fez corpos. [ .... ]Só puderam reconhecer um Deus único quando, generalizando sempre mais suas idéias, chegaram a poder remontar a uma causa primeira, a reunir o sistema total dos seres numa só idéia, e dar um sentido à palavra

substância, que é no fundo a maior das abstrações. (ROUSSEAU, 1995, p. 293)

Assim, a idéia de Deus vem do conhecimento que nossos sentidos têm do mundo e como todos os seres tem um corpo, pensamos em um Deus como corpo, ou seja, como pessoa, por isso usamos palavras como Trindade, Espírito e Pessoa para designar a divindade.

Contra estes philosophos, a história nos diz, que o homem não foi tão estúpido no seo principio, nem tão esclarecido ao depois como suppõem aquelles philosophos. Acrescentemos que se o genero humano tivesse sido creado no estado de brutalidade e barbaria, em que se tem achado alguns indivíduos abandonados, teria permanecido nelle por longa serie de séculos, e talvez ainda hoje se conservaria nesse estado. (Selecta Catholica, 15 de julho de 1846, p. 34)

Além da crítica ao deísmo, D. Viçoso contrapõe-se ao modelo educacional de Rousseau, acusando-o de elitista porque só poderia ser desfrutado por uma pequena parte

da população. No manuscrito escrito por D. Viçoso para a publicação da Selecta Catholica de 1836, encontramos o seguinte comentário intitulado Contradições de Rousseau1

Ultimamente todos os escritos destes filósofos estão cheios de semelhantes contradições e de incriveis absurdos. Elle segura, que a religião natural he mais facil de conhecer do que a revelada, ao mesmo tempo que no seo sistema, só para mostrar a existência de Deos, he necessario que tenhão precedido longas disposições e que o discipulos possua talentos pouco communs. Não se deve fallar em Deos nem em religião a hum rapaz antes dos dezoito annos, ou vinte. Este rapaz deve ter sido educado com o maior desvelo, deve ter sido preservado das paixões, dos vicios, e dos prejuizos, e dirigido de tal modo que possa comprehender muitas demonstrações subtilissimas e abstractas, que se lhe hão de propôr, e que possa comparar o sistema que seo mestre lhe quer persuadir com oo dos atheos, dos Espinosistas, dos materialistas, dos scepticos, dos pirronicos, e de todos os outros incredulos. Só depois disto chega o homem a ser capaz de ter huma religião, e esta he a religião natural. Por consequencia tirando todos os que morrem antes da idade de 20 annos, os que não tem a capacidade necessária para estas especulações metafísicas, e os que carecem de meios para terem mestres, e para poderem empregar na meditação do tempo, que lhes he necessario para cultivarem os campos, ou para aprenderem alguma arte, que os mantenha, segue- se que apenas a centesima parte do genero humano será capaz de ter religião, e que todos os mais viverão sobre a terra como animaes sem conhecimento de Deos, nem das obrigações que lhe devem a elle e aos seos semelhantes. (Selecta Catholica, manuscrito,1836, p. 423)

Para D. Viçoso o sistema educacional de Rousseau estaria reservado apenas áqueles que têm meios financeiros ou capacidades intelectuais específicas. Além disso, para um bispo tão fiel às recomendações tridentinas seria absurdo acreditar em um sistema em que o conhecimento de Deus estaria reservado apenas para uns poucos, aliás, para aqueles que tivessem condições financeiras de custear uma educação até a vida adulta. Se o carisma dos lazaristas era exatamente a atenção aos mais necessitados, pobres e miseráveis parece natural a reação às idéias do filósofo genebrino que o conhecimento de Deus só pudesse ser admitido no trajeto final do percurso educativo de um jovem.

Para o cristianismo, o anúncio de Cristo deveria ser levado a todos os homens, independente de raça, idade, nível social ou gênero.

64 É importante ressaltar que as críticas da revista A Ordem eram direcionadas a alguns

autores que propunham uma renovação na ed65É importante relembrar que para Aristóteles a felicidade suprema consistia na imutabilidade, já que o que era passageiro e instável não era capaz de responder aos desejos de felicidade próprios do ser humano. É natural ao ser humano querer sempre algo que dure, que não se corrompa, que seja eterno e infinito. Sendo assim, o estagirista afirmava a correspondência entre a imutabilidade e a infinitude são características divinas, já que Deus sempre permanece o mesmo, não sendo passível de corrupção. Daí que exista na Selecta Catholica essa noção de uma razão superior, que é divina, imutável e correspondente à verdadeira felicidade.

Assim, para D. Viçoso e João Antônio dos Santos a religião natural e as hipóteses deístas não se baseavam em nenhum fato histórico ou verdade revelada, mas apenas num certo grau de “invenção” da inteligência dos filósofos dos últimos tempos. Como discutimos anteriormente a respeito da natureza, as novas concepções de Deus e de religião baseavam-se nas imagens que homens inteligentes projetavam de si mesmos no mundo, de suas crenças, de suas utopias. Esta discussão é “parente” daquela tradição mais antiga que, no barroco, encontramos denominada de engano do mundo, ou seja, a tendência humana de enganar-se sobre a realidade, que o Padre Antônio Vieira expressa muito bem quando diz em seu Sermão do Mandato de 1645, que aquele que estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes estima e não vidros.

Assim seriam os filósofos que de tanto se estimarem, quando olhavam para a realidade viam apenas a si mesmos e não a realidade mesma das coisas. Cegos para a realidade, os filósofos também não podiam ver a presença divina em tudo o que foi criado e acabavam inventando os próprios deuses. O filosofismo era particamente uma aberração da inteligência humana. Eram religiões ou hipóteses sobre Deus, a criação e o homem criadas pelos erros de uma razão delirante:

E com tudo ella [razão] era ajudada por bellas, ainda que obscuras, e na maior parte degeneradas tradições, que os deístas fazem timbre de rejeitar, não admittindo se não aquillo que a razão deixada a si mesma, e dando o impróprio nome de religião natural a huma das maiores extravagancias, de que o espírito humano se tem lembrado em seos miseráveis delírios (Selecta Catholica, 15 de maio de 1847, pp. 296 – 298)

Mas toda doença tem a sua origem. E de onde viriam os erros e a enfermidade da inteligência humana?

O FILOSOFISMO, A INDIFERENÇA RELIGIOSA E A ENFERMIDADE DO