A ideia de observação da prática pedagógica, da realidade cotidiana do ambiente de uma sala de aula, ou um profissional observando suas atitudes e atividades com alunos poderiam ser tidas como negativa no senso comum. Quando me deparei com a forma como fui recebida nas escolas trouxeram outra realidade à tona, em que aloco a categoria de análise Prática Formativa32.
Vejamos o relato da observação do sujeito SE3:
Chego na escola uns 20 minutos antes de iniciar o horário, procuro pela egressa SE3, e a mesma logo vem me atender, já estava nas dependências da escola. Sou recepcionada de forma positiva, e a egressa SE3 diz que será um prazer receber alguém que está fazendo doutorado e que poderá
32 É mister ressaltar, como já mencionado anteriormente que aqui não se pretende discutir se as
mostrar realidade da sala de aula, e que ela também tem este sonho, mas
diz que é uma ação difícil, já que não tem tempo e dinheiro. (SE3, grifo
nosso)
A escolha do registro da recepção da egressa SE3, resguarda o ideário proposto por pesquisadores como Pesce (2009) que solicitam que antes do desenvolvimento de programas para formação inicial de professores deveria ser consultado as bases para reconhecer sua atuação futura e a realidade da escola.
Em outros termos, a egressa SE3, expressa a preocupação com a realidade atual e o distanciamento entre o que foi proposto no seu curso na modalidade à distância e a realidade que encontrou no cotidiano escolar.
O diagnóstico do aluno que discursamos enquanto professores, por vezes é apenas realizado de forma macro, a partir de números do Censo Escolar e da realidade encontradas nas pesquisas de massa, como podemos verificar que foi realizado no próprio Projeto Político Pedagógico do curso, como consequência do item avaliativo no instrumento de avaliação de curso superior presencial e à Distância. Ou ainda, como havia apontado anteriormente fica restrito nas primeiras aulas, numa conversa entre professor e aluno, e em cursos à distância fica mais difícil quando desenvolvido programas de cursos que atendem à legislação nacional, mas que se esquece da grandiosidade do país, do nosso multiculturalismo, da realidade socioeconômica e tantos outros fatores que estão presentes nos vários recônditos brasileiros, onde os cursos são ofertados e ajudam a formar os novos professores para este tempo moderno.
Isso evidencia o quanto os alunos - egressos estão ávidos para reconhecer em suas aulas durante o período de formação, práticas pedagógicas e, por consequência, teorias que os conecte com a realidade.
De modo semelhante, a escolha das egressas SE1, SE4, respectivamente, demonstra que os profissionais da educação almejam ver a realidade atual durante seu processo de formação, constatamos nos depoimentos da SE1 e SE4 que elas não conseguem relacionar sua formação com o ambiente de trabalho. Vejamos os depoimentos extraídos das entrevistas:
Eu acho que é isto mesmo, quando a gente vê os professores falando de inclusão, de fazer coisas diferentes, de respeito é uma coisa, quando começamos dar aula percebemos que é outra. (SE1)
Eu acho que é isto mesmo, muitas vezes é fácil um professor ficar falando lá no vídeo, mas quando chega no dia a dia é diferente, temos uma sala lotada, crianças carentes de carinho e muitas outras coisas. (SE4)
A partir dos relatos percebemos que existe um distanciamento da instituição formadora e das necessidades dos profissionais. E, quando tratamos de distanciamento, estamos subtraindo do egresso há possibilidade imediata de sucesso no mercado de trabalho, e estamos incluindo em sua projeção a necessidade de formação continuada, ou ainda, o desenvolvimento da autonomia e aprofundamento no cenário em que está disposto a atuar futuramente. Como menciona Fava (2014, p. 106), “o objetivo do aluno ingressante é a empregabilidade”.
Entretanto, como se pode perceber por meio da leitura dos capítulos anteriores desta pesquisa, de que apesar de existir uma cultura instituída do distanciamento, as instituições de ensino estão num movimento de fazer com que o aluno se aproxime da realidade das escolas. Este fato também pode ser comprovado na legislação brasileira, por meio da Resolução nº 2, de 19 de fevereiro de 2002, do Conselho Nacional de Educação (CNE), a qual relembra desta necessidade da aproximação da teoria e prática. É mister salientar, ainda, de que existem instituições que venceram o modelo reducionista na forma de fazer este estreitamento entre teoria e prática, possibilitando ao egresso perceber a correlação do conteúdo estudado na instituição formadora com a realidade da escola.
Enquanto SE1 e SE4, não percebem de forma geral, que a sua prática estava amparada na teoria, já a egressa SE2, expõe no primeiro dia de observação da sua prática em sala de aula com os alunos da Educação Básica, na sua fala “que fica muito feliz por estarem pesquisando EAD, que nos últimos anos tem aprendido muito pelo livro e aulas na educação à distância” (relato de observação SE2).
Ao tratarmos da prática formativa realizada nas videoaulas – teleaulas, percebemos que pela forma em que acontecia a transmissão, existia uma predominância de passividade frente ao conteúdo estudado, conforme responderam ao serem perguntados de como acontecia aprendizagem de práticas pedagógicas no seu curso de EaD.
Eu só assistia os professores fazendo. (SE1) Durante as aulas os professores mostravam. (SE2)
Vendo os professores. (SE4)
Quando nos deparamos com depoimentos da forma aqui exposta, o controle recai sobre o professor, enquanto o aluno assumiu posicionamento de passividade, neste formato a aula é unidirecional, de aprendizagem transitória, sem provocar no aluno o movimento da construção do conhecimento.
Acreditamos que a construção do conhecimento ultrapassa metodologias reprodutivistas, em que o aluno escuta, lê, decora e repita, para futuramente realizar sua avaliação e obter o êxito com suas notas e de que a videoaula – teleaula deve procurar evitar os caminhos já percorridos e viciosos ainda presentes na escola tradicional, pois se as tecnologias disponíveis permitem a interação, porque usar como se fosse apenas uma ferramenta que envia informações.
Silveira (2002, p. 65), alerta de que
o risco do ensino por videoconferência, devido às suas características televisivas, é a provável passividade do aluno resultante de sua falta de participação e prática. Ver e ouvir são atividades que devem ser trabalhadas para levar à percepção, ao pensamento, uso de símbolos, à abstração, dedução, generalização e conclusão.
Frente ao exposto, acreditamos que a videoaula – teleaula, no formato posto pela instituição pesquisada, pode ser aperfeiçoada.
De acordo com Silveira (2002) cabe a instituição formadora:
a) motivação do aluno: que antes de elaborar as aulas, o professor deveria pesquisar como iria realizar a comunicação com os alunos e se esta comunicação provocaria alguma reação nos alunos;
b) fator pessoal: é necessário definir se os conteúdos são relevantes para profissão daquele aluno;
c) habilidade no uso de recursos: que o professor deve ter capacidade técnica para trabalhar com todos os recursos;
d) técnicas de comunicação: que o professor deve dominar o uso das expressões faciais, do tom de voz e etc;
e) tipos de linguagens: que a linguagem deve ser acessível e de fácil compreensão;
g) participação e prática: que deve-se escolher atividades em que os alunos realizam e apresentam resultados;
h) repetição e vários estímulos: nada aprende-se de uma única vez, vários estímulos ajudam os alunos aplicar aqueles conceitos;
i) clareza na apresentação de material: deve-se pautar a produção do material técnico a partir da qualidade visual;
j) transferência de conteúdo: quando trata de transferência fala de contextualização, da adaptação do aprendido para realidade do aluno; k) conhecimento imediato da realidade: deve-se guiar o aluno de como
aprender em cursos que usam tal recurso.
Essas formulações propostas por Silveira (2002), possibilitariam romper com o vislumbrado durante as entrevistas com os egressos do curso de Pedagogia EaD. Assim, os professores e a instituição formadora poderiam responder aos desafios de construir uma prática formativa televisiva, que provoque aprendizagem duradoura e por consequência reflexiva.
Espera-se que a luz de formulações como esta proposta por Silveira (2002), a instituição de ensino de EaD e os professores aceitem o desafio, por recusarem a passividade no processo de aprendizagem, e apenas transferência do espaço da sala de aula para um estúdio de televisão. Sabemos, porém, que essas formulações não se constituem como fórmula para a aprendizagem em videoaulas – teleaulas, mas, podem ser um caminho para transformação do que encontramos durante nossa pesquisa com os egressos.
Quando nos deparamos com as práticas formativas propostas no encontro presencial, que estão postas no Projeto Político Pedagógico do curso de Pedagogia, na modalidade EaD e, apontadas anteriormente, menciona que os momentos presenciais, nos polos de apoio, o alunos discutem com seus pares, tiram dúvidas com professor – tutor, além de desenvolverem o sentimento de pertencimento.
Entretanto, ao analisar as respostas de como acontecia aprendizagem de práticas pedagógicas no curso de Pedagogia EaD e que atividades aconteciam no encontro presencial no polo de apoio, percebemos que as atividades realizadas neste ambiente, não atendiam, na totalidade, ao preconizado no Projeto Político Pedagógico, haja vista que novamente reaparece a passividade frente ao conteúdo e a tarefas propostas para realização no polo de apoio presencial. Vejamos:
Eu só assistia os professores fazendo. (SE1) Assistíamos as aulas. (SE3)
Durante a entrevista o que nos chamou a atenção é que a atividade no polo não foi caracterizada como uma atividade com envolvimento do professor-tutor local. Apenas um dos quatro egressos pesquisados, falou que fazia atividades em grupo.
De forma, empírica entendemos que esta atividade era direcionada pelo professor-tutor local, mas fica evidente com a fala de outro sujeito, que os colegas de turma eram fontes de conhecimento, como podemos verificar nas respostas a seguir:
Assistíamos as aulas e algumas vezes fazíamos atividades em grupo. (SE1)
Assistia as aulas e tirava dúvidas com meus colegas. (SE4).
Compreendemos desta forma, que o encontro presencial realizado com os alunos, não alcança o proposto nos documentos oficiais da instituição pesquisada, e apenas cumpre com o proposto na legislação nacional de se ter um espaço para realização da prova presencial.
Eis a ideia central da categoria práticas formativas, haja vista que elas devem ser estruturadas para tenham base teórica e que os sujeitos da aprendizagem percebam que o conhecimento não é dado, não é construído, pronto, acabado, é sim que a instituição de ensino deve e precisa assumir seu papel além dos documentos oficiais, e envolver-se numa busca por avaliar e reavaliar suas práticas formativas, e tendo a coragem de escutar as vozes dos alunos, além de perguntas rápidas, respondidas de forma instrucional no ambiente virtual de aprendizagem.
Percebemos, nas respostas dos egressos, que há a necessidade de mudança nas práticas formativas do curso de Pedagogia EaD pesquisado, pois apesar da instituição proporcionar livros, videoaulas e encontro presencial, devidamente regulamentado, constatou-se que elas – as práticas formativas – devem passar pelo movimento de transformação, que exige uma interferência na prática do aprender do aluno.
Este fato podemos constatar em três dos quatro entrevistados ao responderem ao questionamento: qual é a melhor forma de aprender novos assuntos: praticando ou lendo?
Fazendo. (SE1)
Gosto de ler e depois fazer. (SE2) Praticando e lendo nos livros. (SE3) Praticando. (SE4)
Constata-se que existe uma predominância na necessidade da realização das atividades, o que pode estar relacionado ao tipo de inteligência dos alunos, ou ao estilo de aprendizagem de cada ser. A psicologia busca desde o início do século passado explicar os processos da aquisição do conhecimento, e não adentraremos neste campo de conhecimento, mas o que fica evidente é que os sujeitos pesquisados preferem realizar atividades do que ficar lendo ou assistindo os conceitos de determinado assunto.
Acreditamos que esta ação de realizar atividades práticas referenciando ao teórico, não é um movimento que deve ser feito apenas pelos cursos na modalidade EaD, mais por todos os professores e instituições que tem como missão formar estas sociedades ainda sem nome, em prol de um pais mais justo e igualitário, onde o processo de aprendizagem não passe apenas pelos bancos escolares, e que atinjam os indicadores impostos pelos órgãos reguladores, mas que tenhamos profissionais que reconheçam os conteúdos no contexto da vida.
Que a teoria e prática na formação de professores possam avançar a perspectiva pragmática esperada pelos alunos durante os anos de realização do curso, e que o conhecimento esteja centrado na experiência futura dos profissionais e na experiência passada das pessoas.
Que esta aproximação da teoria e prática encontre nos diversos estudos produzidos pela academia, onde reside os saberes elegidos, consistência para o romper este antigo paradigma de ausência de imbricação, ou de distanciamento do mundo real do posto nos livros.