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Gostaríamos de situar, ainda que brevemente, os princípios de comunicação que apoiam nosso trabalho de pesquisa, tentando dissipar as ideias de linearidade ou via de mão única e, consequentemente, a crença na manipulação, pressuposta normalmente quando se trata de analisar a comunicação de massa e o jornalismo.

A comunicação humana, incluindo a comunicação midiática, a nosso ver, está intrinsecamente ligada à ideia de relação social, de necessidade de vivermos juntos, de interação entre os sujeitos. O homem vem construindo sua história graças à sua capacidade de se relacionar, à sua experiência de ser coletivo, de ser social, de querer viver com os outros. Conviver requer dos homens o estabelecimento de um terreno comum para suas interações e o desenvolvimento da linguagem, para significar e ampliar essas interações. Este espaço de trocas comunicativas é o que Arendt (1995, p. 51-83) chama de mundo comum.

Se os homens querem trocar experiências, compartilhar projetos, ideias e fatos, eles devem torná-los aparentes. Apenas aquilo que é visível pode ser discutido, pode fazer parte de

[...] um mundo comum que articula o homem numa trama visível feita por fatos e eventos tangíveis no seu acontecimento e que se materializa na comunicação intersubjetiva, através da qual as opiniões se formam e os julgamentos se constituem. (TELLES, 1990, p. 28).

Estes elementos - aparência, visibilidade e divulgação dos fenômenos - fazem com que os homens tomem parte na mesma realidade. Viver com os outros requer referências concretas do mesmo mundo, o mesmo tempo. Compartilhar o mundo comum faz com que alguém se creia vivendo o mesmo real de seus semelhantes. Assim, a realidade da vida cotidiana já se apresenta para nós, em grande medida, numa ordem dada (BERGER; LUCKMANN, 1995, p. 35-68), e é a linguagem que fornece as objetivações e os significados para coordenarmos os elementos da vida diária.

É também por meio da linguagem que conseguimos dar sentido às ações e tornar públicos nossos projetos: “A linguagem nos permite sair de nossa subjetividade, encarnada, confusa, para uma via onde as coisas aparecem mais claramente, a via do mundo comum” (QUÉRÉ, 1991, p. 81). A linguagem é a forma de tornar visível o invisível: as palavras fazem do homem ator e autor. Por meio da comunicação, os sentidos compartilhados são continuamente modelados e mantidos como condição e resultado de ação. Nessa perspectiva, Arendt (1995, p. 51-83) e Quéré (1991, p. 81) se referem à comunicação não apenas como um indicador da ação, mas também como meio de construção da ação.

Essa estreita ligação entre a ação e o discurso é ressaltada por Herrero (1982, p. 94), que considera o surgimento da palavra fonte de todo um mundo humano que aparece com ela. “E assim, esse evento da palavra, como dizer referencial, põe em movimento o ser-com-os-outros no mundo, na aventura de uma história comum a ser feita e a ser dita” (HERRERO, 1982, p. 94).

Nomundo comum, significadopela linguagem,os homenspodem ver,ouvir e falarsobreascoisasquetodosestãovendo,ouvindoefalando.Énoespaçocomumque confirmamosoreal.Foradeletudopodeserfrutodaimaginação,umaalucinação:“A presença de outros que veem o que vemos e ouvem o que ouvimos garante-nos a realidadedomundoedenósmesmos”(ARENDT,1995,p.60).Apresençadosoutrosé oqueconfererealidadeaosacontecimentoseànossaprópriaexistência.

Assim,alinguagempermiteaedificaçãodeumasociedadeprovidadememóriae desímbolosexpansivos.Dessemodo,asinteraçõesnãopartemdonada,masiniciam- se sempre a partir dos significados já existentes. A linguagem, aqui, não se refere somenteasistemasdesignosinternosdeumalíngua,masasistemasdevaloresque acomodamousodessessignosacircunstânciasdecomunicaçãoparticulares.

A confirmação dada pelo testemunho do outro, mesmo que numa outra versão, num outro olhar, certifica-nos de que o fato aconteceu para “nós” e não só para “mim”. Nesse aspecto, o jornalismo cumpre uma de suas principais funções na sociedade contemporânea, a de fazer circular elementos para construção do senso comum de realidade.

Unidos diante de fatos que são comuns, os homens podem apresentar seus diversos entendimentos a respeito deles, elaborando, assim, uma sociedade diferente a cada instante. A convivência, a experiência, a troca, as relações seriam

impossíveis sem este mundo comum, pois é nele que as pluralidades podem se apresentar e elaborar o novo. A comunicação possibilita o surgimento sempre de algo novo, imprevisível. A imprevisibilidade, característica marcante da comunicação, deriva dessa diferença entre os parceiros do processo discursivo, desse jogo sem final decidido.

Acomunicaçãoéapossibilidadedavidasocial dohomem,paraconstruiruma sociedadeenelaviver.Aomesmotempoemqueacomunicaçãoéinvençãodohomem, elaoajudaatorná-loumsersocial.Nãohácomosersocialevivercomoutroshomens sempertenceraomundodacomunicação.Énessemundocomumdacomunicaçãoque aspessoasapresentamassuasdiferenças,osseuspontosdevista,assuasintenções.

Natureza dialógica da consciência, natureza dialógica da própria vida humana. A única forma adequada de expressão verbal da autêntica vida do homem é o diálogo inconcluso. A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar, etc. Nesse diálogo, o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra, e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana, no simpósio universal. (BAKHTIN, 2003, p. 348).

Barros, na mesma linha de pensamento de Bakhtin, completa:

o diálogo é a condição da linguagem e do discurso, mas há textos polifônicos e monofônicos, conforme variem as estratégias discursivas empregadas. Nos textos polifônicos, os diálogos entre os discursos, mostram-se, deixam-se ver ou entrever [...]. (BARROS, 2006, p. 34).

Essaideiadequeodiscursotrazàluzasdiversasvozes,osvariadossujeitose seuspontosdevistaécentralparaasatuaisteoriasdacomunicaçãoeparaaAnálisedo Discurso.Apolifonia, noçãovindada músicaeque ganhouumsignificado novocom Bakhtin,exprimeessaprofusãodesujeitos,suasvozesesentidosnumenunciado,num textojornalístico,porexemplo(CHARAUDEAU;MAINGUENEAU,2006,p.386).

Através do jogo “discurso na sociedade” e “sociedade no discurso” podemos elaborar um entendimento de como, através da comunicação de massa e do jornalismo, é possível conhecer um pouco da construção do mundo dos homens, suas diversas vozes. É o que afirma Machado:

A noção de polifonia nos permite compreender a imbricação de diferentes sujeitos no discurso, desmistificando a antiga ideia de um sujeito falante único. Assim, o texto pode tornar-se palco de encontro de diferentes vozes ou de diferentes sujeitos falantes/comunicantes/interpretantes. (MACHADO, 1998, p. 116).

É evidente que o jornalismo, assim como todos os outros campos sociais, não é neutro e tem um modo próprio de estabelecer hierarquias de pontos de vista, de notícias e de suas consequências. O jornalismo trabalha para dar mais visibilidade a algumas dimensões do social e manter na invisibilidade algumas vozes e atores sociais.

Comunicar é estar com o outro, relacionar-se, colocar-se numa interação, participar de um processo que, necessariamente, exige o reconhecimento mútuo dos parceiros de uma troca, dos sujeitos envolvidos num ato de comunicação. Ainda assim, segundo França (1998, p. 25-60), a comunicação não se explica somente pelo desejo das pessoas de estarem umas com as outras, mas também pela produção material de suas representações, construindo um tipo de ligação que é da natureza do simbólico e do real, do material e do imaginário, do objetivo e do subjetivo, do implícito e do explícito.

Essa relação entre os sujeitos, fundada num discurso e produzindo novos discursos, pode dar-se de forma presencial, em que os interlocutores compartilham o mesmo espaço (o “aqui” deles coincide) e o mesmo tempo (o “agora” de um é o mesmo que o “agora” do outro). Nessas trocas presenciais, há uma possibilidade maior dos parceiros da relação observarem o outro e regularem a cada instante o que é dito, retomarem algum ponto menos claro, enfatizarem outro ponto. Enfim, na comunicação presencial, potencialmente mais interlocutiva, os parceiros têm à sua disposição as possibilidades oferecidas pelo diálogo ao vivo.

Além da comunicação face a face, os homens desenvolveram, ao longo da história da comunicação, outras formas de interação, mediadas por tecnologias que permitem a troca não-presencial. Com o advento dos meios de comunicação, criaram-se novas formas de ação, de interação. Thompson (1999, p. 109-125) aponta três tipos: a interação face a face, a interação mediada e a quase-interação mediada. Na interação face a face, os participantes estão presentes e partilham de um mesmo sistema referencial de espaço e de tempo. Como exemplo, o autor cita o diálogo, em que as palavras trocadas pelos participantes podem vir acompanhadas de gestos, sorrisos, mudanças de entonação, entre outros.

As interações mediadas contam com o uso de um meio técnico para a transmissão do conteúdo simbólico. Os participantes podem estar em contextos espaciais ou temporais distintos. Por fim, temos a quase-interação mediada. Essa

interação se baseia nas relações sociais estabelecidas pelos meios de comunicação de massa (televisão, jornais, revistas, livros). Essas interações mediadas têm um potencial dialógico menor e tendem a ser mais monolocutivas.

Geralmente, nessas relações, o tempo e o espaço da produção são bem diferentesdaquelasdarecepção.Assim,ficamaislentaedifusaatentativadeajustedos sentidosquecirculam.Ummal-entendido,porexemplo,podedurardiasouaênfaseque sepretendiadaraumaspectopodenãoserpercebidapelosoutrosparceiros.Poroutro lado,pode-se,comastecnologias dacomunicação,ampliaroslugares dealcance,o númerodereceptoreseotempodecirculaçãodeumdiscurso.

Ao estudar a comunicação, Thompson (1998, p. 19-36) explica a expressão “comunicação de massa”. Segundo ele, o termo “massa” pode suscitar enganos, visto que induz o indivíduo a pensar em grandes audiências. Essa ideia pode servir para alguns produtos midiáticos, porém, ela não pode ser sempre reduzida ao significado de quantidade. O autor ressalta ainda: “[...] o que importa na comunicação de massa não está na quantidade de indivíduos que recebem os produtos, mas no fato de que estes produtos estão disponíveis em princípio para uma grande pluralidade de destinatários” (THOMPSON, 1998, p. 30).

Outra questão discutida é a que relaciona o termo “massa” com a passividade dos indivíduos perante as mensagens da mídia e a simples absorção de seu conteúdo. Os destinatários das mensagens midiáticas recebem os produtos da mídia de diferentes maneiras, além de interpretarem e incorporarem, cada um a seu modo, aquilo que recebem.

A mídia é heterogênea, uma vez que representa os diversos discursos dos campos da sociedade e tenta estabelecer uma relação entre eles. É necessário que a mídia crie um processo identitário com cada campo social e com os diversos grupos dentro dos campos. Por isso, ela vai desenvolver discursos e produtos específicos, a fim de contemplar os diversos subuniversos do meio social.

A própria noção de discurso leva à percepção da reflexividade4 entre o

4 Reflexividade vem do latim,

reflexus-a-um, que quer dizer voltado para trás, revertido. Aquilo que evoca a realidade de maneira imprecisa ou incompleta. Manifestação indireta de uma circunstância, de um fato. Cópia, reprodução, imitação. Relação de elementos de um conjunto. Aqui, reflexividade diz respeito à ideia de que, em nosso cotidiano, consideramos não apenas as referências próprias mas também constituídas socialmente. A reflexividade está presente nos mais diversos fenômenos sociais, como as interações, os processos de formação de identidade e a visibilidade da mídia.

discurso e a sociedade. Entendemos o discurso, aqui, como uma comunicação tomada em sua totalidade, ou seja, levando-se em consideração seus aspectos textuais e contextuais ou situacionais.

Os sentidos do discurso produzido numa troca comunicativa, seja ela presencial ou mediada pelas tecnologias, só podem ser apreendidos se conhecermos as relações sociais que ligam os sujeitos nela envolvidos. Assim, os discursos estão ancorados numa determinada situação de comunicação e é ela que confere os sentidos ao produto material do discurso.

Dessa maneira, uma construção discursiva não pode ser feita fora de um quadrodereferênciaqueaoriente,poisaspalavrasficariamsemsentido,totalmente opacasaosinterlocutores:énecessárioquehaja,entreeles,um“contrato”.

Benzer Belgeler