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Hıristiyan Teolojisinde Meryem

BÖLÜM 1: HIRĐSTĐYANLIKTA HAC OLGUSU

1.2. Hıristiyanlıkta Meryem

1.2.2. Hıristiyan Teolojisinde Meryem

Paradigmas em crise

“Todas as minhas idéias se entrelaçam, mas não posso expô-las ao mesmo tempo”.

Jean-Jacques Rousseau

(Do contrato social)

s duas superpotências concorrentes da Guerra Fria combinaram ações de sedução e coerção para conservar e consolidar a unidade de seus blocos de influência. Nenhuma delas hesitou em usar a força nos territórios de aliados, indiferentes aos virtuais prejuízos à imagem de domínio benigno que procuravam construir. No caso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o desgaste decorrente de duas intervenções militares – uma aparentemente bem sucedida na Hungria, em 19564, e a outra, mal recebida no mundo, contra a onda

reformista da Tchecoslováquia, em 19685 – não chegou a abalar o controle do

aparato interno do Partido Comunista (PC) sobre as instituições e o conjunto da sociedade. Mas a prolongada intervenção militar de nove anos na guerra civil do Afeganistão (1979-1989)6 acarretou um custo, social e financeiro, maior do que a sociedade soviética tinha meios para bancar, levando o Estado dos sovietes a afrouxar os laços econômicos e a enrijecer os mecanismos de controle de movimentação da população na Europa Oriental, o que agravou ainda mais sua instabilidade. A queda do Muro de Berlim, em 1989, foi o sintoma mais eloquente da irreversível tendência à corrosão do bloco socialista, cujos Estados foram caindo um a um, culminando com a própria desagregação da URSS dois anos depois, em dezembro de 1991, 74 anos depois da Revolução de Outubro de 1917.

4 Levada a cabo, surpreendentemente, sob a direção de Nikita Kruchev (no poder entre 1953 e 1964), logo depois da denúncia dos chamados crimes de Stálin, por ocasião do 20º Congresso do Partido Comunista.

5 No quarto ano no poder do secretário-geral Leonid Brejnev (1964-1982). Sob sua direção começou a se tornar evidente a burocratização da URSS e sua crescente incapacidade de manter o ritmo de desenvolvimento do período anterior à Segunda Guerra.

6 Iniciada sob Brejnev e encerrada quatro anos depois da posse de Mikhail Gorbachev (1985-1991), o último secretário-geral do PC soviético.

No caso dos Estados Unidos (EUA), a retirada do Vietnã, em 1975, ao fim de doze anos de intervenção (1963-1975), com um total de 2,3 milhões de homens mobilizados, 46.370 mortos e 300 mil feridos, não provocou alterações significativas no comportamento externo da potência-líder – nem na sua forma de ver o mundo –7,

ao contrário das intervenções pós-ataques de 11 de setembro, desde outubro de 2001, no Afeganistão, com 707 baixas até julho de 2009, e desde março de 2003 no Iraque, com 4.321 baixas8. Uma potência que toma a iniciativa mas perde o controle de uma guerra e se revela incapaz de terminá-la deve ser considerada politicamente superada, segundo o mais clausewitziano dos modernos pensadores da guerra, Liddel Hart, pois quem não consegue produzir um acordo satisfatório e durável para a cessação da violência se desgasta ao ponto de comprometer seu próprio futuro.

É essencial conduzir a guerra considerando-se a paz que se deseja. Esta é a verdade fundamental da definição de guerra de Clausewitz: „é uma continuação da política por outros meios‟, o desdobramento da mesma política através da guerra deve ser realizado sob o pensamento de que sua finalidade é a paz subseqüente. Um Estado que consome suas forças até o desgaste quebra sua própria política e seu futuro. (LIDDEL HART, 1973, p. 377)9

Embora as perdas em vidas humanas no Iraque e Afeganistão sejam inferiores às ocorridas no Vietnã, a segunda intervenção no Golfo Pérsico, doze anos depois da primeira, tornou-se insustentável, apontando para a primeira grande derrota dos EUA no século XXI, sob o açoite implacável da opinião pública mundial e americana, denunciando as mentiras a respeito dos motivos da invasão -, os crimes nos campos de batalha – a exemplo da prática de torturas contra prisioneiros em espaços militares como o quartel de Abu Ghraib –, e as prisões extraterritoriais à margem da legalidade mantidas pelo Departamento de Defesa e a Agência Central de Inteligência (CIA) ao redor do mundo – como a de Guantânamo. A segurança dos

7 Dados da Military Power Review. O governo do Vietnã do Sul contava com um efetivo total de 1,048 milhão de homens e sofreu 184 mil baixas. Os vitoriosos República Democrática do Vietnã (do Norte) e Vietcong, com cerca de 2 milhões de combatentes, perderam em torno de 900 mil. Dados disponíveis em http://www.militarypower.com.br/frame4-warVietna.htm.

8 Segundo o i.casualities, ocorreram, até julho de 2009, 4.639 mortes de combatentes estrangeiros no Iraque, 4.321 deles americanos. Os feridos chegam a 21.156. Dados disponíveis em: http://icasualities.org/iraq/index.rspx. Segundo o Iraq Body Count, o número de civis iraquianos mortos oscila entre o mínimo de 92.485 e um máximo de 100.964. http://iraqbodycount.org/. No Afeganistão, desde 2001, as baixas aliadas somam 1.204, 707 das quais americanas. Dados em: http://icasualities.org/oef.

9 Tradução do autor desta, do espanhol para o português. A partir deste, todos os textos em língua estrangeira serão traduzidos pelo autor que, assim, é o responsável por eles.

interesses americanos no Oriente Médio tornou-se mais precária após os dois ataques, pois gerou, em ambos os países, Estados frágeis, incapazes de controlar a crescente violência interna; no caso do Iraque, ao deslocar o controle das minorias sunitas para representantes da maioria xiita, os EUA, com suas próprias mãos, ampliaram a influência de seu maior adversário na região, o Irã. O ápice desse quadro de derrota estratégica, apesar das incontáveis vitórias operacionais, foi a eleição para a Presidência americana de um negro democrata, Barack Obama, fato impensável fora do quadro de derrota e humilhação no plano internacional, a partir de quando se iniciaram os esforços extremamente complicados e contraditórios de alteração da política externa dos EUA, sobretudo para a Ásia Central e o Oriente Médio.

Os responsáveis pelas políticas externas das duas superpotências formularam políticas malsucedidas, evidentemente mais equivocadas no caso soviético. A desagregação da URSS e o desfecho da Guerra Fria, em 1989-1991, pegaram de surpresa os especialistas dos dois lados das linhas ideológicas. Não foram previstos pelos pesquisadores nem figuravam entre os cenários desenhados pelos estrategistas. Apesar da crise sem precedentes, que desde a metade da década de 1970 provocava convulsões na estrutura da Europa de economia planificada, nenhum estrategista ou acadêmico de qualquer dos blocos ousou diagnosticar que se tratava de uma crise terminal.

O domínio, em regime de monopólio, do marxismo pelos especialistas da Academia de Ciências soviética e do Partido Comunista da URSS não os levou a intuirque a crise prolongada não decorria apenas de desacertos na área econômica ou da subjetividade de suas lideranças. Eles não foram capazes sequer de suspeitar que era o próprio modelo daquele tipo de sociedade que estava agonizante. A rigor foram impedidos de entender os sinais emitidos pela realidade pela própria teoria, no caso, a sua versão do marxismo. O paradigma conforme o qual organizavam suas informações sobre a conjuntura, a rigor, os cegava para a realidade. Mesmo a esquerda marxista da Europa Ocidental, cujo discurso moderno e democratizante perdia credibilidade face ao dirigismo autoritário soviético, jamais conseguiu ir além da crítica de um ponto de vista democrático. Desavisado do risco da marcha a ré da história e do retorno ao capitalismo, o marxismo ocidental também não formulou uma análise propriamente política do Estado leno-stalinista, ou seja, não submeteu à

crítica a própria natureza das instituições soviéticas, limitando-se a classificá-las como resultados de um desvio ou deformação em relação ao comunismo, o qual, no fundamental, preservaria intacta a sua validade.

As críticas à experiência soviética podem ser organizadas em três vertentes marxistas principais: o economicismo, o historicismo e o ideologismo. As três têm em comum o determinismo econômico e o privilégio heurístico da luta de classes para a busca do sentido para as anomalias que, aparentemente, colocavam a URSS na contramão doutrinária. Exemplo de uma das formas mais engenhosas de crítica economicista, Charles Bettelheim atribuiu os “desvios” soviéticos à permanência de antigas e à formação de novas classes dominantes, o que teria feito com que o carro da evolução histórica reenveredasse pelas desigualdades sociais. Sua tentativa de entendimento dos “desvios” teria o objetivo de “evitar que outras revoluções proletárias sigam a mesma via e cheguem, não ao socialismo, mas a uma forma específica de capitalismo tão opressiva e agressiva quanto suas formas clássicas” (BETTELHEIM, 1976, p. 26). Rudolf Bahro e Mlovan Djilas, historicistas, buscaram as raízes do autoritarismo e da burocratização soviéticos no passado, o modo de produção asiático, ou despotismo oriental, o qual teria permanecido incrustado na nova formação social e explicaria o surgimento de uma nova classe social de burocratas privilegiados, conhecida como Nomenklatura10. A crítica ideologista foi realizada sobretudo por intelectuais italianos inspirados em Antonio Gramsci, como Maria-Antonietta Macchiocchi11, com conceitos como o de hegemonia e bloco

histórico, em que um novo bloco, ou nova fase efetiva da história, seria produto da ascensão de uma outra maneira de interpretar o mundo, construída pela classe ascendente – no passado, a burguesia, no momento, o proletariado – que, dessa forma, se proporia não apenas a dominar as demais classes sociais (impondo-lhes uma ditadura, como a do proletariado, na proposta de Lênin), mas ofereceria a elas uma direção (moral e intelectual, edificada com base num novo consenso).

Independentemente da sagacidade e sedução das três modalidades de crítica de esquerda ao regime soviético, nenhuma delas conseguiu abordar a questão propriamente política e, menos ainda, a questão da política internacional leninista, não gerando, em consequência, um entendimento claro da natureza dos processos

10 Ver Rudolph Bahro, A alternativa

– Para uma crítica do socialismo real [1977]. Rio de Janeiro: Paz

e Terra, 1980, e Milovan Djilas, A nova classe [1956]. 2. ed. São Paulo: Agir, 1958.

que corroíam a União Soviética. Enquanto Bettelheim afirmava a existência de luta de classes após quase três quartos de século da vitória bolchevique na URSS e definia que a pátria do socialismo só teria uma saída revolucionária, Bahro, Djilas e Macchiocchi não foram além do relato de seu desencanto e das queixas contra o oficialismo comunista. Nenhum deles, da mesma forma que os teóricos oficiais do leno-stalinismo, chegou a diagnosticar a crise soviética como do próprio sistema. E nenhum deles também suspeitou que a desagregação da URSS seria acompanhada pela perda de importância dos partidos comunistas ao redor do mundo e pela onda crítica mais efetiva à própria teoria marxista.

Do lado da ciência política ocidental, entre os pensadores lastreados nos paradigmas liberal e realista, também não houve quem desnudasse a lógica interna dos regimes sob o monopólio de partidos comunistas e previsse o esboroamento do chamado bloco socialista e da URSS, pondo fim ao período traumático da ordem da Guerra Fria. Embora um pensador geopolítico, Zbigniew Brzezinski12, tenha diagnosticado a inconveniência de uma guerra direta do ponto de vista dos dois contendores, em virtude da capacidade de ambos em aniquilar o oponente, o que chamou de “empate estratégico”, e recomendado a paciência, pois o tempo trabalharia em favor da potência multidimensional, os EUA, contra a unidimensional, a URSS, levando a primeira a prevalecer estrategicamente, ele também não fez uma análise abrangente do esgotamento do ciclo soviético.

Dado que uma vitória no sentido tradicional se tornou anacrônica pelo surgimento da era nuclear, e dado que é irreal pensar-se numa acomodação compreensiva, os Estados Unidos deveriam seguir a meta de prevalecer historicamente sobre Moscou. (BRZEZINSKI, 1989, p. 285)

Vista com a perspectiva dos eventos da queda do Muro de Berlim e da posterior desintegração da União Soviética, a política de contenção nuclear, a deténte, política implantada por Henry Kissinger durante a presidência de Richard Nixon (1969-1974) e aprofundada quando Brzezinski era conselheiro de Segurança Nacional durante o governo Jimmy Carter (1977-1981), parece uma antecipação genial da tendência histórica, mas não chegou a se converter em doutrina da política externa americana, tendo sido abandonada no início do governo seguinte, de Ronald

Reagan (1981-1989). Nenhum dos Estados a Oeste da chamada Cortina de Ferro operou efetivamente, e de forma continuada, portanto, com a probabilidade desse cenário. Todos foram surpreendidos pela derrubada do Muro de Berlim e, mais ainda, pelo desfecho da vaga que percorreu a Europa Oriental, fechando o cerco em torno da URSS e levando o partido comunista à perda de controle interno.

Um lado acabou derrotado sem consciência de que estava sendo superado e sem saber por quê perdia a corrida pelo poder mundial. E o outro venceu sem se dar conta de que prevalecia graças ao desmoronamento do rival, sem saber, portanto, como e por quê adquiria uma supremacia singularizada. Em decorrência disso, não foi capaz de dimensionar os riscos, os eventuais benefícios, os custos e as tarefas da nova preponderância. O fato de o conflito sistêmico da Guerra Fria ter terminado friamente, tanto do ponto de vista bélico, pois não foi encerrado pela imposição de um modus vivendi ao outro, quanto do jurídico, já que não foi sacramentado por tratados internacionais, e teórico, dado que não foi entendido, em grande parte explica os paradoxos que se seguiram, decorrentes da sobrevivência simultânea de apenas uma superpotência ao lado de uma ordem jurídica internacional de caráter multilateral.

Apesar de emergirem unilateralmente como campeões da disputa bipolar de quase meio século, com os maiores arsenais nucleares, mas sem jamais os terem empregado contra o oponente direto, os EUA não chegaram a propor novas instituições internacionais ou a reforma das existentes. Devido a uma decisão estratégica, ou o seu contrário, devido à ausência de uma decisão clara, as organizações superestatais criadas ao final da Segunda Guerra Mundial foram mantidas e, no Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU), a URSS foi automaticamente substituída pela Federação Russa como membro permanente e com poder de veto. Como a extinta ordenação bipolar havia funcionado perfeitamente bem sob as duas capas de multipolaridade – a Assembleia Geral e o CS, com os outros três membros com poder de veto e estoques nucleares interagindo como amortecedores-legitimadores da correlação de forças determinante –, a superpotência remanescente continuou a agir, no fundamental, conforme o figurino, ou seja, acatando, mesmo sem as levar completamente a sério, as instituições e práticas superestatais. Passou a comportar-se como se sua assimetria em relação às demais potências fosse evidente por si só, um fator

imediatamente dissuasor, que lhe garantiria o direito de escolher as normas internacionais a que se subordinaria, o momento e a forma de fazê-lo, tal qual herdeira privilegiada das instituições das estruturas formalmente multilaterais da Guerra Fria. Sua ação mais ousada de coação passou a ser o atraso de repasses financeiros à ONU, uma maneira dissimulada de expressar seu desagrado com as medidas excessivamente multilateralistas.

A ordem bipolar da Guerra Fria terminou, mas os vencedores não arrecada- ram os frutos políticos da sua supremacia, pois não houve a transição para uma Pax Americana. Na melhor das hipóteses, conforme a leitura de Samuel Huntington, houve um breve período de unipolaridade, no ano de 1991, no qual, aparentemente, só restara uma superpotência e havia uma concordância generalizada a respeito disso, a ponto de a própria União Soviética sob Mikhail Gorbatchev (1985-1991) ter apoiado a aliança militar dirigida pelos EUA para desalojar o Iraque do Kwait, duran- te a Primeira Guerra do Golfo. Neste momento, caso os EUA desafiassem o manda- to da ONU, mantendo a rápida marcha e as manobras de cerco a Bagdá, teria sido possível derrubar o governo de Saddam Hussein, pondo fim ao regime do Partido Baath, prorrogando a fase internacional unipolar. O fim desse curto período unipolar pode ser simbolizado pela interrupção das operações por terra no Iraque13, quando o

presidente George Bush (1989-1993) acatou a aceitação pela ONU da rendição de Saddam, conferindo legitimidade às instituições multilaterais.

A política global abandonou o sistema bipolar da Guerra Fria, passou por um momento unipolar – cujo ápice foi a Guerra do Golfo – e agora entrou em uma ou duas décadas unimultipolares antes de se tornar um sistema verdadeiramente multipolar no século XXI. (HUNTINGTON, 1988, p. 24)

Não há consenso acerca da ordem internacional vigente, pois a descrição historicista “ordem pós-Guerra Fria” é negativa, informa o que ela deixou de ser, mas não aquilo em que se transformou. Embora alguns autores e policy makers acreditem que a bipolaridade foi substituída pela multipolaridade, Huntington descreveu um sistema unimultipolar (unipolar no plano militar e, simultaneamente, multipolar no plano econômico), enquanto outros continuavam empenhados, pelo menos até o final do governo George Walker Bush (2001-2009), na instituição de

13

Ver “A superpotência solitária”, publicado pela Foreign Affairs, edição brasileira, n. 30. São Paulo: Gazeta Mercantil, 12/3/1888, p. 23-27.

uma ordem unipolar descrita como benevolente, mas, na prática, coercitiva. Ao longo desse período de ordem não-consensual ou contraditória – simultaneamente uni e multipolar – teria havido alterações na orientação da política externa americana, mas mais de estilo (ou forma) do que de conteúdo. Em síntese, seus aliados preferenciais desde 1991 continuaram os mesmos – Inglaterra na Europa, Israel no Oriente Médio, Paquistão no Sudoeste da Ásia, e Japão no Extremo Oriente –, assim como seu modus operandi – no fundamental uma combinação de pressões e estímulos econômicos com ameaças e uso efetivo da força para remover obstáculos. A relação de subordinação e independência, mediante o contorno da ONU, foi mantida mesmo nos anos seguintes, quando o multilateralismo de fato voltou a ganhar força, em virtude de a União Europeia (UE) caminhar para sua unificação política e seu Produto Interno Bruto (PIB) ter ultrapassado o dos Estados Unidos, em que a China começou a se firmar como a virtual grande concorrente do século14 e a própria Rússia, superados os traumas da fase pós-soviética, ter voltado a pressionar pela retomada de sua influência no denominado “estrangeiro próximo”.

Em virtude do quase meio século de previsibilidade do período da Guerra Fria e do surgimento de uma burocracia estável para a produção de respostas externas, as oscilações da política americana passaram a ser mais de discursos do que de práticas, em função da alternância no poder entre os partidos republicano e demo- crata. As grandes estratégias continuaram sendo formuladas fundamentalmente por um corpo profissional não-partidário, constituído por quadros de carreira e burocra- tas “anônimos” e estáveis – sobretudo nos setores encarregados pelas Forças Ar- madas (Departamento de Defesa), serviços diplomáticos (Departamento de Estado) e os diversos setores de inteligência e controle da segurança interna –, que adquiriu considerável autonomia em relação aos virtuais ocupantes da Casa Branca e o pri- meiro escalão. Dentre os formuladores estratégicos, devem-se destacar os intelec- tuais-militantes da Academia americana, notadamente nas áreas de Política Interna- cional e Segurança, afinados com os dois principais partidos e que fornecem qua- dros a think tanks e a máquina estatal. Assim, as mudanças de intenções declaradas não se fazem mais acompanhar por mudanças práticas de orientação. Por isso novi-

14 O PIB americano de 2009, de US$ 14,256 trilhões, representaria 24,42% do Produto Mundial Bruto (PMB), contra 33,46% das Europas somadas e 29,58% da Ásia.

dades radicais são raras na política externa dos EUA, uma vez que ela segue no fundamental semelhante, apesar da alternância dos ocupantes da Casa Branca.

Comparada à gestão de George Bush, a de Bill Clinton (1993-2001) continuou a priorizar a reforma do núcleo incandescente do Oriente Médio e a contenção do crescimento do desafio chinês. Não organizou novas e desastradas aventuras aé- reas como durante a administração democrata de Jimmy Carter (1977-1981), para desestabilizar o Conselho Supremo da Revolução e derrubar os aiatolás Ruhollah Khomeini e Ali Khamenei, mas manteve a condenação ideológica ao regime iraniano e o isolamento político e econômico de Teerã. Não preparou uma nova investida por terra no Golfo, ao contrário do republicano Bush, mas manteve o bloqueio econômi- co e os bombardeios aéreos periódicos contra o Iraque, para intimidar e constranger o regime baathista. Dessa forma, ao chegarem ao poder com George Walker Bush em 2001, capitaneados pelo vice-presidente Dick Chenney e o secretário de Defesa Donald Rumsfeld, com projetos de reforma ou superação da ONU e a imposição de uma ordem unipolar, supostamente autorizada pela vitória na Guerra Fria, os neo-