2. KAVRAMSAL ÇERÇEVEDE MERKEZ BANKASI BAĞIMSIZLIĞI
2.5. Merkez Bankası Bağımsızlığının Ölçülmesinde Kullanılan Yaklaşımlar
2.5.2. Grilli, Masciandaro ve Tabellini (GMT) Merkez Bankası Bağımsızlık
Emília, ao perceber que ficou, de repente, quarenta vezes menor ao desligar a chave do tamanho, pergunta-se e responde a si mesma:
“(...) Eu fiquei pequenininha. Por quê? E pôs-se a pensar mais forte ainda.
-Só pode ser uma coisa: por causa da descida da chave. Logo, aquela chave é a que regula o meu tamanho. Regula só o meu tamanho, ou regula o tamanho de todas as criaturas vivas? Regula o tamanho de todas as criaturas vivas, ou só o das criaturas humanas? Quantos problemas, meu Deus! ( LOBATO, 1997, p. 11)
Ela está diante de um fato novo e o relaciona a uma causa plausível.
Levanta, em seguida, diferentes hipóteses para o alcance desse fenômeno. Pensando, pensando, encontra o indício de que aquela chave controla apenas o tamanho dos seres vivos: a caixa de fósforos não diminuíra de tamanho: “[...] –Hum! Já sei. Isto é a caixa de fósforos que eu trouxe e está do tamanho que sempre foi”. Continuando seu raciocínio vinculativo, constata: “Eu é que diminuí. Fiquei pequeníssima; e, como estou pequeníssima, todas as coisas me parecem tremendamente grandes [...]” ( id. ibid. ).
O episódio mostra a aplicação de um pensamento hipotético, numa situação de experiência pessoal, e que tem a ver com o estabelecimento de uma questão de pesquisa, ficando evidente a pertinência relacional ( verossimilhança ) entre o problema que se apresenta e a possibilidade de explicação que ela levanta: a descida da chave. É Apolo agindo, mas submetido à dionicisidade do ficcional.
O que chamamos de pertinência relacional corresponde ao que Peirce ( 1977 ) trata como abdução31. Este tipo de raciocínio caracteriza-se por se constituir como “a adoção provisória de uma hipótese” ( op. cit., p. 6 ), uma vez que resta examinar se há acordo ou desacordo com os fatos. A abdução, ainda como expõe o autor de
Semiótica, “advém-nos como um lampejo. É um ato de introvisão ( insight ) ( op. cit., p. 226 ), e é assim que se inicia a construção do conhecimento científico: “cada um dos itens singulares da teoria científica que estão hoje formados deve-se à Abdução” ( op. cit., p. 220 ). Ora, um insight é uma probabilidade, uma confiança que pode afiançar um resultado condizente com a expectativa. Esta pesquisa, por exemplo, partiu do insight de que Emília corresponderia a uma pedagogia performática, pelo tanto de fantasia e racionalidade que parecia caracterizá-la.
Uma introvisão leva o ser humano a estar, “na esmagadora maioria das vezes, com mais freqüência certo do que errado” ( op. cit., p. 221 ). Emília tem um
insight, uma introvisão: a descida da chave terá causado o seu apequenamento. Ela está certa, embora pudesse ter levantado outras alternativas. Se não levantou, é que o fenômeno foi concomitante ao gesto de desligar a chave e isso colaborou para a interpretação. Mas restam a ela as outras hipóteses:
Hipótese A: A chave regula só o seu tamanho;
Hipótese B: A chave regula o tamanho de todas as criaturas vivas;
31 O autor explica que, além da Dedução e da Indução, Aristóteles menciona um terceiro tipo de raciocínio
lógico: a Retrodução, palavra que foi “mal interpretada em virtude de uma deturpação em seu texto e geralmente traduzida, nesta forma errônea, por abdução” ( PEIRCE, 1977, p. 5 )
Hipótese C: A chave regula só o tamanho das criaturas humanas.
E logo tem “a primeira prova provada de que o apequenamento também havia alcançado outras criaturas [humanas]” ( LOBATO, 1997, p. 23 ), pois ao continuar sua viagem de volta ao Sítio, encontra uns seres também minúsculos, que ela, no primeiro momento, confunde com insetos, mas que são os pais de Juquinha e Candoca, estes e a cozinheira, como já dissemos. “Era de fato gente – gentinha como ela – os donos da casa com certeza” ( id. ibid. ).
Ela desenvolve um raciocínio indutivo que pode ser assim formalizado: Premissa A: Eu sou humana e fiquei minúscula;
Premissa B: Juquinha, Candoca, seus pais e a cozinheira são humanos e ficaram minúsculos;
Logo, todos os humanos ficaram minúsculos.
Ao conjeturar, depois, sobre o circunstancial desaparecimento das duas crianças que ficam aos seus cuidados após o fenômeno do apequenamento, Emília constrói “todas as hipóteses imagináveis. O certo era estarem mortos, reduzidos a lama ou afogados nas lagoas que a chuva fizera no tijuco” ( LOBATO, op. cit., p. 47 ). Mas ela desiste, agora, dessa certeza que não a convence, que não chega a ser uma introvisão, porque mais forte, neste caso, era “o incerto - e era no incerto que Emília levantava suas hipóteses” ( id. ibid. ), diz o narrador. Um incerto com gradações, percebemos.
Essas passagens sediam, de modo privilegiado, um encontro conciliante, uma aliança entre ficção e razão; entre pensamento lógico, aristotélico, friamente cerebral, e o vulcânico da fantasia na obra em referência – A chave do tamanho. Através de Emília, um ser imaginário, Lobato ensina, sempre por sugestão, o que é pesquisar, raciocinar logicamente, explicar um fato, um fenômeno. Mais: ele
antecipou, aí, a segunda questão do que Moles ( 1995 ) chama de “ciência estabelecida” e “ciência em vias de se fazer” ( op. cit., p.35 ), noções úteis a uma iniciação no campo do conhecimento científico. A noção de ciência estabelecida abarca o que esse autor chama de “muralha dos livros” e que “é totalmente acessível a todos” ( id. ibid. ): são as publicações, os livros, a “biblioteca universal”, possuidora de “uma coerência total com relação às regras da lógica” ( op. cit., p. 34 ). A ciência em vias de se fazer longe está da ciência estabelecida. É a própria ciência da boneca Emília, campo de possibilidades, onde “o verdadeiro e o falso [...] são subjetivos: eles são a ilusão, a cada instante, de cada pesquisador” ( op. cit., p. 35 ). É a ciência em ato, percebendo-se o pesquisador “como um ponto – o rato dentro do labirinto dos trajetos imagináveis – em uma atitude de exploração dos canais do possível” ( id. ibid. ). É o que faz a boneca lobatiana, tão logo ocorre o fenômeno do apequenamento: ela erra pelos caminhos - “fiquei pequenininha e ando em exploração pelo mundo” ( LOBATO, 1997, p. 23 ) -, tentando retornar ao Sítio do Picapau Amarelo. Nessa errância, equivoca-se com a aparência das coisas, faz identificações, conceitua. É cientista - performaticamente.