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1. KAVRAMSAL ÇERÇEVEDE MERKEZ BANKACILIĞI

1.5. Merkez Bankacılığı Para Politikası ve Para Politikası Araçları

1.5.1. Dolaylı Para Politikası Araçları

Lobato deplorava os estilos literários ornamentais, adocicados, anêmicos. Admirava os autores que conseguiam produzir ebriedade no leitor, os que escreviam visceralmente, “com sangue”, também à maneira de Nietzsche, que diz: “De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que sangue é espírito” ( NIETZSCHE, 1967, p. 47 ), enquanto o criador de Emília assim se expressa: “[...] Em todas as literaturas eu procuro sempre o carnívoro [...] e ponho os alfenins de banda [...].O fim em vista é mineralizar o Verbo para ver se não morro da mesentérica do ‘estilo brasileiro’, para o qual devo ter predisposição congenial [...]”. ( LOBATO, 1961-b, p. 162 )

Sente-se arrebatado pelos artigos e discursos de Rui Barbosa e por sua atuação crítica na política, nos governos de Afonso Pena, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca. Como um conhecedor também da Bíblia, diz: “Aquele Rui combativo, cruel como Jeová, feroz como Ezequiel, foi a culminância do ‘fenômeno Rui’, [...] refletor de todas as ânsias, queixas e desejos da nação”. ( op. cit., p. 156-157 )

Suas palavras demonstram a identificação que tinha com as idéias e o estilo do jurista baiano. Seduzia-o também o modo de escrever de Euclides da Cunha, que tinha por sóbrio e vigorosamente belo, o que devia resultar do fato de ter escapado “dos cancros do estilo de toda gente – estilo que o jornalismo apurou até ao ponto- de-bala acadêmico, tornando-o untuoso, arredondado e impessoal”. ( LOBATO, 1961-a, p. 312 )

Na carta de 8-7-1917, mostra-se decepcionado com o poeta Olavo Bilac (1865-1918): “[...] E Bilac, que era a salvação, deu agora para rimar filosofia alheia e fazer patriotismo fardado”. ( LOBATO, 1961-b, p. 144 ). De fato, o autor do soneto O

Nietzsche – O crepúsculo dos ídolos -, e daí, provavelmente, a pilhéria de Lobato - é visto por Bosi ( 1997, p. 256 ) como “o poeta que melhor exprimiu as tendências conservadoras vigentes depois do interregno florianista”. Assumindo seu espírito cívico, fez, no final da vida, campanha a favor do serviço militar obrigatório, como forma de estimular o espírito nacionalista, no que foi uma figura importante. Juntamente com Pedro Lessa e Miguel Calmon, Bilac funda, em 1916, a Liga de

Defesa Nacional, que tinha, entre seus objetivos, “desenvolver o civismo, o culto do heroísmo, [...]promover o ensino da língua pátria nas escolas estrangeiras existentes no País; [...]combater o analfabetismo.” ( NAGLE, 1976, p. 45 )

2. 10. A criança e a literatura

O que pensava o pai de Emília acerca do ser criança? Por que terá decidido escrever para elas? Que representações tinha da infância?

Na carta de 7-5-1926, queixa-se do calor e da monotonia do verde no Rio de Janeiro, de onde escreve: “[...] Tudo verde, como o Menino Verde, um álbum colorido com que me diverti em criança, companheiro do João Felpudo. Lembra-te disso? Pobres crianças daquele tempo! Nada tinham para ler”. ( LOBATO, 1961-b, p.292 )

Embora não dê mais detalhes sobre essas obras e seus autores, percebemos claramente que Lobato tinha critérios de julgamento quanto ao que fosse literatura para criança. Ele se diz, no mesmo texto, enjoado “de escrever para marmanjos [...]. Bichos sem graça. Mas para as crianças, um livro é todo um mundo”. ( id. ibid.) E recorda ter vivido dentro do Robinson Crusoé, para concluir: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar”. ( id. ibid.)

Livro para se morar nele -com essa pedagogia da leitura, Lobato sugere que a literatura infantil desejável é aquela capaz de atrair não apenas os olhos do pequeno leitor, mas todo o seu corpo: emoções e imaginação. “[...] Que é uma criança? Imaginação e fisiologia; nada mais” ( op. cit., p. 322 ), define na carta de 26-6-1930, quando se encontrava em Nova York. E defende a tese de que o ser criança é o mesmo, sejam quais forem os tempos e os lugares em que viva.

O lugar que o autor confere às primeiras leituras é de particular importância. Entende que o cérebro das crianças, estando menos ocupado pelas impressões do mundo - o que equivale a dizer, em parte: pelas representações que lhes são transmitidas -, está, por isso mesmo, sensivelmente mais apto a recebê-las. E estabelece uma relação entre, por exemplo, primeiras leituras na infância e posição política, depois. Mais claramente, refere-se à II Guerra Mundial: “[...] A destruição em curso vai ser a maior da história, porque os soldados de Hitler leram em criança os venenos cientificamente bem dosados do hitlerismo - leram - como eu li o Robinson.” ( op. cit., p. 346 ).

Sem que mencione a palavra, Lobato fala aí de representações, de valores, de ideologias que podem ser veiculadas em textos para crianças. Tal como ocorreu no Brasil durante o Estado Novo ( 1937-1945 ), cujo aparelho propagandístico não se limitou a criar dias nacionais - Dia da Pátria, Dia do Trabalho, Dia da Raça, Semana da Independência, etc. – e a encadernar a juventude em uniformes preparados para celebrações cívicas, mas produziu também, via imprensa oficial, e para serem distribuídas às bibliotecas, muitas “’histórias de Getúlio para crianças’” ( D’ARAÚJO, 2000, p. 36 ). Vargas seria veiculado junto aos jovens e às crianças como um ser superior – “estratégia usada pelas políticas de culto à personalidade”. ( id. ibid.)

Lobato estava atento também à questão da moralidade que circulava nas fábulas clássicas, e assim lhe vem a idéia de dar alma nacional às fábulas de Esopo e La Fontaine, alterando-lhes os conteúdos moralísticos, dando-lhes uma narratividade adequada ao interesse infantil. Seu laboratório de observação eram os próprios filhos, a quem Purezinha - sua mulher e mãe deles - contava fábulas que eles recontavam aos amigos, desdenhando, entretanto, os detalhes de cunho moral.

O criador de Emília reconhece, assim, a peculiaridade da infância. E no seu entender, a ausência dessa percepção, nos escritores que produziam para crianças, justificava-lhes o insucesso, enquanto um autor como Andersen23 permanecia despertando interesse.

Não só o que escrever, mas como escrever – outra questão importante para ele. E a solução, só aparentemente contraditória: “o certo em literatura é escrever com o mínimo possível de literatura!” ( LOBATO, 1961-b, p. 339) E afirma ter aprendido esse segredo com a Sra. Dupré24: “[...] Como nos envenenou aquela gente que andamos a ler na mocidade! [...] A Dupré mostrou-me que se pode escrever com zero de “literatura” e 100% de vida” ( op. cit., p. 340 ), diz na carta de 1-2-1943.

Refere-se a adiposidades literárias, a excessos de adjetivação, que tirariam a transparência do texto, do mesmo modo como o empastamento de tintas tira-a à aquarela. E isto ele aprende com outro artista a quem chama de Marques Campão, “um pintor excelente e inteligente ( coisa rara ) [...]” ( op. cit, p. 339 ).

São outras configurações intelectuais, literárias. Técnicas, dir-se-ia. E elas se somam ao que ele, na verdade, já compreendia aos 23 anos, pois em carta de 1905 refere-se à sobriedade literária de Montaigne, Renan, Gorki, Shakespeare.

23 Hans Christian Andersen (1805-1875), dinamarquês, tornou-se conhecido por seus Contos para crianças. 24 Maria José Fleury Monteiro, chamada Sra. Leandro Dupré (1905-1984), romancista brasileira (Botucatu-SP),

Seja como for, temos um Lobato sempre aberto à aprendizagem. Aos 61 anos, busca ainda o aperfeiçoamento na aventura de escrever para o público infanto-juvenil. O contato com a Sra. Dupré leva-o, inclusive, a fazer a revisão do livro Fábulas, de que retirou os excessos literários. Confessa: “Como o achei pedante e requintado! Dele raspei quase um quilo de ‘literatura’ e mesmo assim ficou alguma coisa.” ( op. cit, p. 340 )

E, resultado também de tantas aprendizagens, as edições de suas obras, em 1941, chegavam a 1.200.000 exemplares.

Aprender, afinal, fazia parte da procura por si mesmo, de seu trabalho de se atingir e de se superar, como se percebe na análise que faz da própria vida e da vida do amigo, na “conversa carteada” de 17-9-1941, com que abrimos esta penúltima janela para o pai de Emília: “Nós nos procurávamos, Rangel. E tanto nos procuramos que nos achamos. Nós nos construímos lentamente, não nascemos feitos”. ( op. cit, p. 337 )