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2. GĠRĠġĠMCĠLĠK DESTEK PROGRAMLARI

2.4. Dünyada ve Türkiye‟de GiriĢimcilik Programları

O contexto atual que envolve a construção da Nova Algodões revela uma dinâmica territorial com forma e estrutura já bem perceptível para a população atingida. Uma dinâmica relacional entre assentamentos e povoados, na qual novos territórios vão sendo construídos. Passados oito anos desde o rompimento da barragem, observa-se que as famílias começam a se reorganizar nessa lógica.

Trata-se de um processo cuja morfologia é perceptível, porém inacabada, pois é preciso um trabalho ainda mais cuidadoso e artesanal para consolidação e acabamento final. Trabalho artesanal que pode ser pensado como a construção de territórios de projeções simbólicas, uma construção cuidadosa e detalhada, alimentada por sonhos e projetos. Assim, no contexto atual, a Nova Algodões interpela a materialização e a consolidação desse fim, que indica também recomeço e retomada de um tempo anterior – “materialidade” expressa simbolicamente por meio de uma dinâmica projetada para o futuro.

Tendo como base pesquisa de campo na região, pode-se apreender, portanto, a partir de narrativas, uma relação imbricada entre assentamentos e povoados, na qual os primeiros passam a assumir o sentido de “morada”; e os segundos, o sentido de “trabalho”. Ambos articulados dentro de uma lógica que ainda se processa na região. A possibilidade de

construção da Nova Algodões e a expectativa em torno das indenizações intensificam o processo e revelam a construção de territórios de projeções simbólicas.

Seu João, natural de Recanto e que vive hoje no Assentamento Jacaré, expressa essa dinâmica territorial construída para o futuro.

[...] se eles fizerem e quiser trabalhar, fica bom! [...] fica bom, Marcos, porque muita água vai trazer fartura, e fica melhor para chuva. [...] fica melhor para o inverno [...] porque de lá pra cá, teve um inverno melhor no ano de 2011, [...] devagarzinho. Nunca mais teve inverno para dar ao menos um milho. Esta aí um, bem aí, ó! Morrendo o milho. [...] se tiver água lá e tiver uma boa encanação, [...] a gente pode trabalhar, [...] fazer um plantio, certo? Porque a gente tem muita terra lá ainda boa de trabalhar. [...] morar lá não presta mais não, eu não penso mais não [...] para morar lá não, [...] já estou com a minha casinha aqui feita, [...] no que é meu certo? Aí eu não penso em morar lá mais não, só se for assim para trabalhar [...] fazer um plantio de alguma coisa, [...] onde tem água encanada com fartura é bom, não é? [...] Se eu receber a minha indenização, o meu plano é de fazer. [...] fazer assim um lugar pra eu sempre trabalhar, [...] e sempre me movimentar por lá [Povoado Recanto]. [...] eles falam [...] se fizer [Nova Algodões] vai ter irrigação d’água [...] mas eu, [...] eu não sei não, ninguém sabe se eles fazem ou não124.

Pode-se perceber que os projetos de futuro de Seu João estão diretamente ligados à construção da Nova Algodões e ao recebimento das indenizações. A construção da barragem representa a retomada das águas, consequentemente da produção em suas terras. Nos territórios construídos por este narrador, o assentamento continua a fazer parte do desenho no qual visualiza o futuro, consolidando um sentido de pertencimento relativo à morada; o retorno para as antigas terras também é imaginado, porém a partir de uma imagem na qual o povoado atingido passa a assumir uma função exclusiva, que se refere ao trabalho e à produção. As indenizações fazem parte desse processo, como uma espécie de subsídio material, juntamente com as expectativas em torno de uma infraestrutura de produção para a população – “[...] onde tem água encanada com fartura é bom”; “[...] vai ter irrigação d’água”. Apesar das incertezas e das dificuldades vivenciadas hoje – “mas eu, [...] eu não sei não, ninguém sabe se eles fazem ou não” –, o futuro é visualizado de forma concreta.

Antônio, que vivia em Franco, também constrói, em sua narrativa, territórios com o sentido relacional, entre “trabalho” e “morada”.

Rapaz, se fizer é bom. Eu vou até trabalhar lá [suas antigas terras, no Povoado Franco], morar não, mas trabalhar eu vou. Morar lá não. Já estou estruturado aqui [Assentamento Jacaré], certo? Sofrendo desde o começo, mas já estou. Trabalhar eu vou, mas morar não. [...] Eu gosto daqui, logo aqui meu canto é tranquilo [...]. Está iniciando já, não é? I [...] construção da barragem [...], construíram só o acampamento [alojamento dos trabalhadores para obra]. [...] se Deus quiser, se construir e se eu tiver permissão de trabalhar lá dentro, [...] Tanto tenho a terra, uma

124 Informação fornecida por Seu João, do Assentamento Jacaré, em entrevista concedida ao autor em maio de 2016.

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área de terra boa, como eu tenho vontade de produzir. [...] Toda vida eu gostei de trabalhar com hortaliças, sou agricultor da roça, mas eu gosto muito de hortaliça. [...] minha terra vai ficar em torno de 1.500 metros de distância [da nova barragem], por aí assim. [...] [um possível canal para irrigação] tem até que passar ainda pelo terreno, aí boto uma bomba, não é? [...] eu sempre plantava lá em baixo [no Povoado Franco] era feijão e milho fora de época, [...] mesma coisa, que eu quero plantar. [...] lá não vou plantar hortaliças. Lá não. Vou plantar só aqui, porque não pode tá aqui e lá. Tem que tá aqui e tem que tá lá. Aí não dá não. [...] vai de acordo com as forças da gente. [...] se funcionar, [...] se funcionar mesmo, eu vou ficar plantando aqui só a metade. Vamos supor: aqui é bom para coentro. Lá já não é bom para coentro, dá um coentro mais sofrido, certo? Aqui é bom para tomate. Lá já não é bom, porque a terra tem um pouco de sal. [...] Meu serviço é esse. Não tem outro não, ou lá ou aqui, tem que trabalhar125.

A dinâmica imbricada entre assentamentos e povoados fica clara e evidente na imagem de futuro construída por esse narrador. A materialização da Nova Algodões também é o marco espaço-temporal de uma nova lógica territorial projetada para o futuro. Além das hortaliças, o cultivo tradicional de “feijão e milho” amplia o leque de possibilidades na imagem construída por Antônio. Entretanto, considerando a excepcionalidade da experiência de sucesso de Antônio no processo de retomada da produção de hortaliças no próprio Assentamento Jacaré, este assentamento assume, nas imagens de futuro, ambos os sentidos – o de morada e o de trabalho. Porém, a organização da produção e do trabalho agora é distribuída também com as antigas áreas no povoado, de acordo com as especificidades da terra para cada cultura ou cultivo.

De forma geral, são vários os relatos que indicam essa dinâmica entre assentamentos e povoados, sentidos de “trabalho” e sentidos de “morada”. Dinâmica já perceptível hoje, mas que se encaminha para consolidação, mediante imagens e projeções, individuais e coletivas.

Para morar não [antigas terras nos povoados], [...] lá da onde a gente saiu é para subir morro. [...] aquele tempo passou. Aquele tempo tudo passou [...] aqui, se a gente tirasse essa indenização, [...] eu penso em cercar o meu quintal. [...] o pessoal novo ainda vão [para as antigas áreas], eles não vão morar, mas vão trabalhar126. Eu acho que algumas pessoas aqui, tirando a indenização, [...] realmente se sair, [...] eu acho que eles vão procurar fazer poço, tentar enfrentar mesmo, [...] tem algumas pessoas que, devido a não ter espaço no quintal, aí tem dificuldade [...] a água que vem [abastecimento proveniente de poço do poder público] não é suficiente que dê para suprir as necessidades de casa, e também cuidar de horta127.

125 Informação fornecida por Antônio, do Assentamento Jacaré, em entrevista concedida ao autor em maio de 2016.

126 Informação fornecida por Seu Luís, do Assentamento Jacaré, em entrevista concedida ao autor em maio de 2016.

Na primeira narrativa, Seu Luís, um dos mais velhos da região atingida, visualiza o futuro nos povoados também como lugar de trabalho, porém restrito apenas para os mais jovens. A retomada de vida nos povoados é tida como um tempo que passou; algo inalcançável, não mais possível de repetição – “[...] aquele tempo passou”, “[...] aquele tempo tudo passou”. As indenizações assim aparecem no desenho de suas imagens apenas como instrumento que possibilite a melhoria de sua casa, “[...] cercar o meu quintal”, no assentamento. Na segunda narrativa, Lucas indica o recebimento das indenizações como uma espécie de gatilho para melhoria da infraestrutura, como “[...] fazer poço”, além de um despertar para o enfrentamento coletivo diante das dificuldades de produção vivenciadas hoje nos assentamentos.

O conceito de territórios de projeções simbólicas nos ajuda a operacionalizar essa dinâmica territorial que se processa na região. Trata-se de uma ferramenta para apreensão das imagens construídas. Imagens de um futuro com ampla carga simbólica devido às experiências de perdas com o rompimento da barragem, além do contexto de deslocamento dos atingidos, o que implicou novas experiências coletivas. Assim, o vivido no passado, juntamente com as experiências mais recentes, também passam a atuar no processo de construção desses territórios.

5.4 Territórios de projeções simbólicas: construção de imagens a partir de sonhos e