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I. BÖLÜM

1. GİRİŞ

As informantes revelaram pormenores que ocorriam no dia-a-dia e detalhes mais pontuais, designadamente alguns relativos a épocas festivas. Contaram-nos que bordavam muitas vezes com familiares e amigas, mas que, em certos dias, trabalharam sozinhas, em silêncio. Actualmente, é, aliás, o que mais se verifica. Há uma tendência para as bordadeiras (de casa) trabalharem individualmente, nos seus lares. Os tempos mudaram e elas mudaram os seus hábitos, colocando em risco tradições e saberes que são património. As bordadeiras (de casa) preocupam-se com o valor que auferem, mas também com o futuro do bordado. Há, claramente, uma perda de aspectos tradicionais e uma perda de informação devido aos jovens não manifestarem grande interesse por esta profissão. Apesar de essa perda ser prejudicial para a comunidade, consideramos positivo o progresso que foi acontecendo, comparando o discurso das informantes mais idosas com o das mais jovens. A bordadeira de casa é vista como uma trabalhadora sofredora. Em notícias, reportagens, decretos, é, na maior parte das vezes, referida a situação precária destas profissionais. Contudo, é na voz de quem sente e vive a profissão, e da profissão, que escutamos os lamentos e as preocupações.

Através do relato das vivências, entendemos melhor o que era a vida das informantes mais idosas e da condição das mulheres rurais, nas últimas décadas: “Bordava só mais Deus. Eu não era de ir assim às casas alheias bordar. Bem, às vezes, se tivesse uma pessoa doente, p’a morrer, eu levava o meu bordadinho, e eu bordava lá um bocadinho p’a eu acompanhar (…)” (C_AR_1). Ouvimos as bordadeiras falar com alegria das brincadeiras e das gargalhadas que deram no passado, enquanto bordavam acompanhas: “(…) eu ia mai’lhas outras pessoas, mais outras raparigas. Era-se cinco ou seis, assentava-se tudo dum monte, dum cantinho e as vacas a comer. (…) e todas a bordar. Era uma festa qu’a gente se fazia. Cantava-se e ria-se. Era o nosso tempo!” (C_MS_1). Falaram-nos de momentos menos felizes, das dificuldades que passaram, da infância que não tiveram. Não havia tempo para as crianças brincarem: “Era uma foice na mão – logo que abria os olhos – p’a ajudar a trazer aquele maranhinho às costas. Quando começava a dar uns passinhos, vamos embora. Ah, aquilo era uma vida triste. A gente fala, mas era uma vida cansativa (…) porque também não havio escolas. Os pais tinho que ensinar alguma coisa a eles a fazer.” (R_AS_1). Contam alguns momentos que as marcaram e que, ainda, guardam na memória. Deixam sempre presente que aprenderam, sofreram e que se esforçaram muito: “Eu comprei uns sapatos, nunca me

esquece, eu comprei uma vez uns sapatos (…). Eu fui a pé e vim a pé, à Lombada. Comprei os sapatos e uma saia c’o dinheiro do bordado, mas esforcei-me bastante p’a ter esse dinheiro p’a eu poder comprar a minha roupa p’a vestir (…). A mãe também bordava e não podia dar porque o que ganhava era p’a compar um quilinho de massa, pãozinho, essas coisas assim (…). O comer era contadinho, um quilinho de massa podia dar p’a duas três vezes com bastante mistura que era-se nove dentro de casa.” (R_MM_2). Descrevem episódios que ficaram por resolver ou que podiam ter tido um final melhor: “Numa altura, a gente queria-se inscrever no fundo de desemprego qu’eles veram por o sindicato. Só que a senhora Rosa não quis qu’a gente se inscrevesse. Se a gente tinha-se inscrevido, se a gente não tivesse bordado, a gente ficava com qualquer coisa, mas ela, na altura, disse assim. Disse p’a gente não se inscrever. A gente não se inscreveu e, depois, teve uma altura que eles davo no Natal. Davo um subsídio.” (S_OF_2); “A senhora que dava bordados [devia] (...) cinquenta e tal contos e nunca me pagou (…). Ela recebia e nunca me pagou. Eu fui à casa de bordados, mas eles já tinho pago a ela (…). Eu fui lá umas três, quatro vezes. Uma hora não tava. Outra hora não tinha dinheiro. Nunca mais fui (…). Já não bordava, mas ia lá procurar p’a ela me pagar” (T_CF_1). Explicam algumas alterações associadas à profissão pelas quais passaram (cf. capítulo I, ponto 1.3): “(…) tínhamos que pagar as linhas no fim do trabalho. Tínhamos que pagar as linhas. Hoje, não! Hoje, já vem descontado no trabalho. Já vem descontado as linhas. A gente paga, mas, no preço do trabalho, já [está] directamente o desconto das linhas” (R_AS_1). Expõem situações mais familiares: “Uma vez uma senhora foi a casa da minha mãe me chamar p’a eu ir bordar p’a casa dela, mas a minha mãe não me queria deixar andar de noite. Que acho que era alparda. Era logo à noite, mas eu disse à mãe, deixe-me eu ir p’ra lá. Ora, levei os tais (…) sacos, qu’era, parece, fronhas. Eu ia p’ra lá e essa rapariga, às vezes, queria brincar, assim, um bocado e eu dizia não. Não que, depois, eu chego a minha casa e minha mãe vai dizer que eu (…) não bordei. E era de noite. (…) No outro dia, a minha mãe dizia: amostra o trabalho que tu fizestes. Eu amostrava e a minha mãe já via que eu (…) que tinha bordado” (S_MD_2); “Eu tenho em casa um pedaço de linho. Foi feito por a minha mãe (…), quando ela era adolescente. Tem muitos, muitos anos e esse linho foi feito p’los pais dela que semearam o linho; recolheram e, depois, ela própria é que teceu (…). Eu guardo isso como recordação.” (T_VG_2).

que vão ouvindo. Muitas delas contactam com este labor apenas visualmente. Falam do que sabem porque lhes contaram: “Só sei que a avó saía de manhã. Saía de casa; levava bordado e levava, na mão, o desenho que ela tinha p’a fazer durante o dia. Tinha que chegar a casa com aquele bocadinho feito e também tinha que tratar da vaca, que ela ia c’a vaca e bordava.” (C_SS_3); “Pelas histórias que a minha mãe conta e qu’a minha avó também contava, o antigamente era muito pior. Por exemplo, à noite, era (…), bordavam à volta de uma luz de petróleo. Agora, não há essa necessidade. É a televisão, com luz acesa. Eu acho que mudaram bastante os tempos e mudou a vida da bordadeira.” (R_HR_3).

Aquando do relato das vivências, conseguimos recolher algum material de carácter patrimonial, embora em número reduzido. Em duas freguesias distintas, ouvimos o que podemos considerar ser “ditado popular”, algo que todas as bordadeiras (de casa) sabiam ou pelo menos poderiam comprovar: “minha mãe dizia qu’a agulha era levezinha, mas q’era pior q’uma enxada” (T_CF_1); “Um home não morre c’a enxada, mas uã mulher morre c’a agulha. Porque morreu muita gente de trebeculosa, (…) de puxar pela agulha (…). Naquele tempo, não havia estes comeres. Comio pouco. Trabalhavo noites inteiras e não tinham aquele comerzinho que desse p’a sustentar. E muita gente, mesmo por aqui perto, meus vizinhos, morrero de trebeculosa. Vizinhas minhas, porque não tinham aquilho que comesse e s’a matar em trabalhar.” (C_AR_1). Descobrimos o que eram os “pregões”15. Três semanas antes do casamento, na porta da

igreja, colocavam um anúncio (um pregão) e quem tivesse algum impedimento para que isso acontecesse tinha de se manifestar.

As memórias relatadas pelas informantes, alusivas ao bordar em conjunto, espelham momentos de alegria, embora as dificuldades do trabalho permanecessem. Falarem umas com as outras alegrava os serões e ajudava a afastar o sono. Uma das temáticas frequentes nas conversas entre bordadeiras (de casa) era o amor. Os tópicos do namoro e do casamento reaparecem nas conversas. São as informantes mais idosas que testemunham as mudanças socias e de costumes que houve neste âmbito: “os que iam se casar não podiam dar bom dia nem boa tarde, já viu o que era naquele tempo? Agora!” (C_AR_1). A temática amorosa servia também de inspiração para as canções que entoavam enquanto trabalhavam.

15 O termo “pregões” é utilizado no sentido de “apregoar”: de dar a conhecer determinada informação, sendo, na situação da informante, a anunciação de um casamento. “Apregoar” é “dizer em voz alta”. Todavia, nos pregões a comunicação era feita através de uma folha de papel colada à porta da igreja. Todos ficavam a saber quem ia casar e podiam manifestar-se, em caso de conhecerem alguma oposição.

Benzer Belgeler