As informações de que dispomos acerca desta figura são muito escassas e chegam-nos, na sua maioria, por via das biografias e das obras do seu marido Manuel de Carvalho e do seu pai Tomé Carvalho. Na realidade, é em Maria Coutinha que se unem as duas famílias de apelido Carvalho que exerceram o ofício da impressão na cidade do Mondego; porém, é interessante salientar que Tomé Carvalho, como vimos, tratando-se de uma única personagem, só inicia a sua actividade de impressor um ano antes da morte do genro e já com uma idade avançada114.
Ignoramos a data de nascimento de Maria Coutinha, mas é certo que casou com Manuel de Carvalho a 5 de Janeiro de 1636115, de cuja união resultaram, pelo menos, dois filhos:
113 Coimbra, Arquivo Distrital, Registos Paroquiais, Livro de óbitos da freguesia de São Cristóvão (Sé
Velha) (1651-1732), fl. 21.
114 Recordemos que, a 19 de Fevereiro de 1655, Tomé Carvalho é tomado como testemunha no processo
de habilitação do seu vizinho Manuel Dias a familiar do Santo Ofício, sendo já mais de setenta anos de idade (Cf. Lisboa, ANTT, Habilitações do Santo Ofício, «Manuel», maço 11, diligência 320).
115 Cf. Coimbra, Arquivo Distrital, Registos Paroquiais, Livro Misto da Freguesia de S. Cristóvão 1614-
1.º Juliana, baptizada a 24 de Junho de 1637116;
2.º Valentim Carvalho, falecido a 12 de Março de 1650117.
O seu percurso de formação como impressora apresenta-se-nos como um mistério, objecto de meras hipóteses cuja confirmação se torna quase impossível devido à escassa documentação existente; já anteriormente aludimos à dificuldade de estabelecer dados irrefutáveis sobre a formação da maior parte dos tipógrafos que conhecemos para o século XVII e a dificuldade aumenta quando tratamos de um personagem feminino cujo estatuto o remete, à partida, para um plano secundário: o estatuto de viúva de um impressor, visto que, tradicionalmente, se desenvolveu a tese, quase sempre verdadeira, de que a viúva imprimia somente para cumprir as obrigações adquiridas pela oficina do marido.
O caso de Maria Coutinha é substancialmente diferente, o que a torna um caso raro, senão único, no panorama das mulheres impressoras ao longo do Portugal dos primeiros séculos de tipografia118. Maria Coutinha consegue o privilégio de Impressora da Universidade poucos meses após a morte do marido, a 5 de Novembro de 1652, mas não conhecemos qualquer obra por ela impressa anterior a 1664. Qual a razão deste hiato de doze anos? A escassez de dados sobre a impressora coimbrã não nos permite responder com absoluta certeza, mas é possível que Maria Coutinha trabalhasse associada a outro tipógrafo, talvez Tomé Carvalho, que se manteve activo em Coimbra até 1672; como veremos adiante, a análise do parque tipográfico permite-nos concluir que um conjunto de tipógrafos, activos em Coimbra nas décadas de sessenta e setenta, mantinha laços de solidariedade corporativa muito fortes, chegando a imprimir com um parque muito semelhante, que evidencia uma origem comum e um gosto muito definido em relação à decoração dos livros119.
Voltando à questão da formação de Maria Coutinha, parece-nos pertinente considerar duas hipóteses relativas ao local onde ela teria sido realizada: na oficina de
116 Coimbra, Arquivo Distrital, Registos Paroquiais, Livro Misto da Freguesia de São Cristóvão (1614-
1652), fl. 40.
117 Coimbra, Arquivo Distrital, Registos Paroquiais, Livro Misto da Freguesia de São Cristóvão (1614-
1652), fl. 132v.º.
118 Na realidade, como vimos anteriormente, Maria Flores tinha recebido o privilégio de impressora da
Universidade de Coimbra juntamente com o filho, Manuel de Carvalho, no seguimento da morte do impressor Nicolau de Carvalho; porém, deve ter sido Manuel de Carvalho a assumir a direcção da oficina.
119 Como veremos, temos uma predilecção pelos motivos vegetalistas na decoração das capitulares, nos
frisos e nas vinhetas tipográficas, por vezes conjugados com outros elementos, colocando-se de lado os motivos geométricos ou as figuras do fantástico, ou ainda as capitulares falantes, utilizadas por alguns impressores conimbricenses de quinhentos e que ainda aparecem no início do século XVII, por exemplo, na obra tipográfica de Manuel de Araújo.
Manuel de Carvalho, o seu falecido marido ou, em alternativa, a oficina do pai, Tomé Carvalho. O hiato de doze anos que referimos poderia levar a pensar que a sua formação como impressora tivesse ocorrido nesse espaço de tempo; porém, é necessário considerarmos que Maria Coutinha adquiriu o privilégio de Impressora da Universidade de Coimbra logo em Novembro de 1652. Deste modo, parece-nos que o contrato entre a viúva de Manuel de Carvalho e a Universidade revela que ela teria já sido aceite como apta a cumprir as exigências do ofício. Por outro lado, se recordarmos o caso de Maria Flores, a viúva de Nicolau de Carvalho, também ela herdeira de uma oficina de impressão, encontramos uma enorme diferença: é que Maria Flores, na realidade, parece nunca ter estado à frente da oficina (talvez porque comprovadamente não sabia ler nem escrever120), já que foi o seu filho Manuel de Carvalho que acabou por deter a sua direcção.
Não sabemos se Maria Coutinha trabalhou em alguma oficina tipográfica durante o período que decorreu entre a morte de Manuel de Carvalho e a fundação da sua própria oficina; não obstante, ela terá permanecido muito próxima da actividade tipográfica e certamente que os doze anos que decorreram entre o encerramento da actividade da oficina da sua viúva não implicaram que Maria Coutinho perdesse a sua arte: ela reapareceu, em 1664, a imprimir várias obras, entre as quais uma nova edição do Thesouro de Prudentes [...], de Gaspar Cardoso de Sequeira. Sucesso editorial na sua época, esta edição é hoje rara nas nossas bibliotecas e arquivos públicos; conhecemos um único exemplar da obra, conservada na secção de reservados da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra121. A análise da obra revela que se trata de uma edição profusamente ilustrada com tabelas e gravuras destinadas à demonstração de diversos cálculos122, o que demonstra que Maria Coutinha estaria habilitada para iniciar a sua actividade com uma obra de impressão tão difícil e dispendiosa; além disso, a obtenção
120 Cf. Coimbra, Arquivo Distrital, Escrituras, Tomo XIX, Livro III, fls. 93-96; pub. por M. Lopes de
Almeida, Livros Livreiros Impressores em Documentos da Universidade 1600-1649, Coimbra, 1964, pág. 50.
121 Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Reservados, R-13-10.
122 Ensina, por exemplo, a calcular os meses terminados no dia 31 através dos nós dos dedos da mão;
outros cálculos pertinentes a este género de obra estão relacionados com a altura dos astros ou as fases da lua. Todos estes cálculos são apresentados em gravuras, esquemas e tabelas e talvez por isso o livro era tão procurado na Coimbra de seiscentos, merecendo diversas edições: recordamos que uma das primeiras obras saídas dos prelos de Nicolau de Carvalho foi precisamente o Thesouro de Prudentes [...], que seria, pelo elevado índice de procura por parte do público consumidor, um sucesso garantido e uma forma de obter lucros rápidos e substanciais, necessários ao arranque da oficina, não obstante o investimento necessário para a sua impressão.
do privilégio de impressora da Universidade dependia dessa habilitação, o que prova que ela já estaria preparada pouco depois do falecimento do marido.
A fundação da oficina, após doze anos de ausência, pode ter-se devido ao aumento das necessidades editoriais da Universidade de Coimbra; Maria Coutinho, efectivamente, imprime diversos trabalhos preparados por universitários no âmbito do seu percurso académico. Mas, por outro lado, a sua imprensa é frequentemente solicitada por encomendas de mercadores de livros, que financiam a sua impressão, indubitavelmente por saberem da existência de um público consumidor certo e fiável; de um ponto de vista mais geral, estes comerciantes de grosso trato financiam livros impressos em diversas oficinas, todas elas próximas entre si, como veremos adiante.
Deste modo, o lançamento de mais uma oficina na cidade de Coimbra, invocando o nome de um antigo impressor conceituado – Manuel de Carvalho – e afirmando-se sucessora de uma tradição por ele criada não passou de uma mera ilusão. A casa tipográfica que surgia sob o nome da viúva de Manuel de Carvalho não era a continuação de uma casa estabelecida, mas a criação de uma nova imprensa, imposta por factores que, possivelmente, teriam a ver com as necessidades do mercado.
Assim, em 1664, a oficina da viúva de Manuel de Carvalho inicia a sua actividade com a já referida edição do Thesouro de Prudentes [...], de Gaspar Cardoso de Sequeira e de um conjunto de três sermões: o Sermão da Soledade de Nossa Senhora [...], de Frei Francisco de Agostinho de Macedo e, do Doutor Jerónimo Peixoto da Silva, o Sermão na festa que se fez na collocação da Senhora da Graça em o muro da
Cidade de Lisboa [...] e o Sermão de Quarta Feira de Cinza [...]. As obras de parenética constituem, efectivamente, um pilar da produção da oficina da viúva de Manuel de Carvalho, e logo no ano seguinte se imprime, a par da primeira parte dos Infortunios
tragicos da constante Florinda [...], de Gaspar Pires de Sequeira, o Sermão no dia em
que Sua Magestade fez annos em 21 de Agosto de 1653 [...], de António de Sá, duas edições que se encontram desaparecidas. Ainda em 1665, a oficina de Maria Coutinha dá à estampa a Segunda parte de S. Antonio e verdadeira historia dos cinco martyres de
Marrocos [...], de Francisco Lopes.
Em 1666, a produção da oficina limitou-se ao Methodus Medendi [...], uma obra de medicina da autoria de Francisco Valles, médico de Filipe II de Espanha, oferecida a D. António Mourão Toscano. Já em 1667, imprimem-se três obras: um projecto de tese universitária dirigido a D. Aloísio de Sousa Gama cujo único exemplar de que conhecemos a existência se encontra na Biblioteca Nacional brasileira, no Rio de
Janeiro; o Sermão da Purificasam da Virgem Senhora Nossa [...], de Álvaro de Escobar Roubão, da qual conhecemos duas variantes; e a obra de José Vaz Pinto de Sousa,
Thesaurus Musae Virgilianae [...], da qual não encontrámos qualquer exemplar.
Do ano seguinte é uma obra do irmão de José Vaz Pinto de Sousa: os
Commentarij in P. Virgilium Maronem [...], de Gaspar Pinto Correia. A esta obra acrescem duas de teologia moral, a Isagoge Moral, em a materia dos Sacramentos [...], de Lourenço Garro, e as Questiones Practicas de Casos Morales [...], do agostinho espanhol Juan Henriques, também conhecido entre nós por João Henriques.
Em 1669, Manuel Rodrigues de Almeida, então mercador de livros, financia a impressão da Orassam Pathetica do Descendimento da Cruz [...], de Frei Cristóvão de Fóios, que foi, aliás, a única obra que saiu da oficina da viúva de Manuel de Carvalho nesse ano. Em 1670, há uma situação análoga, imprimindo-se somente o Sermão [...] na
festa que celebrou o Conuento das Religiosas do Patriarcha Sam Bento, da Cidade do Porto, em 11. de Iulho dia da Tresladaçaõ dos Ossos do mesmo Sancto [...], da autoria de Álvaro de Escobar Roubão.
No ano de 1671, a produção tipográfica aumenta, sobretudo a nível do número de títulos impressos: da oficina saem três sermões (o Sermão da Gloriosa Virgem, e
Martyr S. Comba [...], de Jerónimo Baía; o Sermão nas Honras do Serenissimo
Princepe de Portugal D. Theodosio [...], de Jerónimo Ribeiro de Carvalho; e o Sermão
das Chagas de Christo [...], de Paulo de Santa Catarina), uma obra poética de que apenas conhecemos a existência pela notícia que nos legou Diogo Barbosa Machado e os seguidores do seu trabalho123 - a segunda parte dos Infortunios tragicos da constante
Florinda, de Gaspar Pires de Rebelo, e um projecto de tese académica (as Pontificias
conclusiones [...], de Manuel Pimentel).
No entanto, é em 1672 que a produção da oficina dispara no que respeita ao número de título impressos, principalmente por via da edição de parenética, verificando- se a impressão de seis sermões, alguns deles com variantes, e dois projectos de teses universitárias.
Assim, encontramos, para esse ano, uma edição do Sermão [...] na Festa de
Nossa Senhora da Purificaçam [...], de Jerónimo Ribeiro de Carvalho, com duas variantes dadas por diferenças nas respectivas folhas de rosto; temos, também, de
123 Cf. Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana [...], vol. II, pág. 337; Inocêncio Francisco da Silva,
Diccionario Bibliographico Portuguez [...], vol. IX, pág. 134; Ricardo Pinto de Matos, Manual [...], pág. 463; João Arouca, Bibliografia [...], vol. III, R17.
Francisco de Escobar, a Oraçam grattulatoria pella saude milagroza que Deos foy
seruido conceder a ElRey N. Senhor D. Ioaõ o IV. [...], e dois sermões de Jerónimo Peixoto da Silva: o Sermam das lagrimas da Madalena [...] e o Sermam do Santissimo
Sacramento [...]. Finalmente, imprimiu-se o Sermão [...] Pregado a Iustiça de António de Sá e o Sermão [...] em a festa que se fez a S. Antonio, aos 14. de Setembro deste anno
de 1642 [...] de António Vieira.
Em relação às obras académicas, a oficina imprimiu as Pontificias conclusiones [...], de José da Guarda Fregoso e as Caesareas conclusiones [...], de Manuel de Sousa Brandão.
A realidade da oficina mantém-se nos anos seguintes, nomeadamente em 1673, em que a produção livresca se limita ao mesmo tipo de obras: três sermões e outros tantos projectos de teses. Em relação aos primeiros, podemos apontar o Sermam do
glorioso Sam Ioseph [...], de Cristóvão de Almeida, as duas variantes do Sermam quinto
e ultimo, Em a celebridade da Trasladaçam dos Ossos do Patriarcha Sam Bento [...], e o Sermam em o Outauario [...] Na festa da canonizaçam de S. Francisco de Borja [...], de José da Purificação. No que diz respeito ao segundo tipo de livros, temos as
Disputationes Pontificiae [...], de Pedro Hasse de Belém, as Resolutiones pontificias [...], de Manuel Almeida dos Santos e as Conclusiones ex uniuersa philosophia naturali [...], de António Frazão Furtado.
O mesmo poderíamos dizer do ano de 1674, não fora a impressão no Manuale
Missalis Romani [...] da reforma litúrgica de Clemente VIII e a edição desaparecida das
Annotações aos generos e preteritos da arte noua [...], de João Nunes Freire. Além disso, só se imprime um sermão (o Sermam da Conceiçam de Nossa Senhora [...], de Jerónimo Peixoto da Silva); todas as restantes obras são projectos de teses académicas: as conclusiones ex naturali philosophia [...] de Domingos Gomes, a Iurgia pontificia [...] de João Eduardo Ribeiro, as Pontificias conclusiones [...] de Manuel Tavares de Carvalho e a Theoremata canonica [...] de Vitoriano Costa.
Não sabemos, porém, se este último é o mesmo Vitoriano Costa que, no ano seguinte, publica El mayor entre los grandes [...], uma hagiografia do padroeiro de Aragão, o abade beneditino São Vitoriano. O que parece ser certo é que os anos de 1675 e 1676 foram particularmente activos, nomeadamente na edição de parenética; na verdade, além da citada obra de Vitoriano Costa, no ano de 1675, se excluirmos os sermões, a viúva de Manuel de Carvalho imprime somente o Promptuario moral de
Noydens, uma obra que parece ter conhecido duas edições diferentes, ambas impressas pela mesma impressora em Coimbra, no referido ano. Toda a restante produção refere- se a sermões, alguns deles desaparecidos, como a Oraçam funebre [...] nas exequias
annuaes do Serenissimo Rey de Portugal D. Manoel [...], da qual se conhece uma outra edição impressa em Lisboa, por João da Costa, em 1672.
Da autoria de Jerónimo Ribeiro de Carvalho é o Sermam na profissam de Soror
Maria do Saluador [...], um dos sete títulos de parenética impressos pela viúva de Manuel de Carvalho em 1676; é, aliás, o único sermão desse autor que saiu da oficina da impressora. António Correia, por seu turno, é autor do Sermão funebre nas exequias
do Doutor Manoel Pereira de Mello [...], do qual existem duas variantes diferenciadas pela composição do título na folha de rosto. Manuel da Graça, no entanto, publicou dois sermões recorrendo à mesma oficina, o Sermão de S. Ioam Euangelista [...] e o Sermam
que na Festa de Nossa Senhora das Neues pregou o Doutor Fr. Manoel da Graça [...], ambos impressos no mesmo volume, opção que foi utilizada por diversas vezes por Maria Coutinha para edição de sermões; condição essencial para a realização dessas edições duplas era o facto de terem um autor comum. Tal como no caso de Frei Manuel da Graça, a viúva de Manuel de Carvalho publicou a Soledade de Maria Sanctissima [...] e o Sermam da marauilhosa inuençam da Crus [...], ambos do doutor Francisco de Macedo, num único volume; o mesmo sucede com o Sermão da Senhora da Lus [...] e com o Sermam das Soledades da Mãy de Deos [...], da autoria de Gonçalo da Madre de Deus Semblano.
Um pormenor que importa referir está relacionado com o facto de Maria Coutinha não imprimir este tipo de edições de sermões senão em 1675; na verdade, não vimos qualquer edição desse tipo anterior a esse ano, como não vemos nos anos posteriores. Em 1676, com efeito, imprimem-se diversos sermões, mas sempre em edições em que cada volume corresponde a um título. É o caso do Sermam da Soledade
da Virgem Santissima [...], de Cristóvão de Almeida, que conheceu duas edições diferentes nesse ano; é, também, o caso do sermão com um título similar, mas da autoria de D. Luís da Ascensão, do qual não conhecemos nenhum exemplar. Temos, ainda, outro Sermão da Soledade da Virgem Santissima [...], da autoria de Luís Lobo, e
Sermão do dia do Iuizo [...] nas mesmas condições. O Padre Lourenço Guedes é contemplado com a edição de dois dos sermões que pregou, o Sermam das Lagrimas de
S. Maria Magdalena [...] e o Sermam [...] Sobre o Euangelho da Dominga quinta post
Deste ano data, também, a maior parte das edições de obras de João Nunes Freire impressas pela viúva de Manuel de Carvalho; encontramos, então, uma edição das Anotaçoens ad rudimenta gramaticae […], quatro edições diferentes da segunda impressão das Annotaçoens ao genero, e preteritos, da arte noua […] e uma edição da
terceira impressão da mesma obra. Na verdade, não sabemos a razão pela qual se imprimiu tantas edições da mesma obra num único ano, mas as diferenças são indubitáveis: a terceira impressão é distinguida pela clareza da inscrição do seu rosto, onde se indica que as Annotaçoens […] foram nesta terceyra Impressaõ emendadas, e accrescentadas […]; as restantes edições desse ano indicam que foram na segunda Impressaõ emmendadas […].
O grande problema de tudo isto é que, a acreditarmos nas informações que nos são dadas por Diogo Barbosa Machado e por Inocêncio Francisco da Silva124, todas estas edições pertencem, efectivamente, a uma terceira impressão da obra, com cinco edições, distinguidas da seguinte forma:
Imp Foliação Assinaturas Moldura do rosto Erros Licenças
A 2.ª [4], 104 pp. [ ]2, A-E8, F-H4 Moldura composta por vinhetas tipográficas Assinaturas: [ ] (=G2); [ ] (=H2) Paginação: 3 impresso no lado esquerdo da página Gralha na penúltima licença 1679 (=1676) B 2.ª [4], 104 pp. [ ]2, A-F8, G4 Moldura composta por vinhetas tipográficas Gralha na penúltima licença 1679 (=1676) C 2.ª [4], 104 pp. [ ]2, A-F8, G4 Moldura composta por vinhetas tipográficas Sem gralha Penúltima licença 1676 D 2.ª 100 pp. A-F8, G2 Sem moldura no
rosto Assinaturas: [ ] (=F2) Sem licenças E 3.ª [4], 83,
[1br.] pp. [ ]
2, A-E8, F2 Sem moldura no
rosto Paginação: 8 (=3) Sem gralha Penúltima licença 1676
De acordo com o quadro apresentado, verificamos a existência de três edições diferentes nesse ano, a primeira delas correspondente às três primeiras variantes, resultando de sucessivas correcções. Assim, na edição A, composta por quatro páginas
124 Ambos os autores referem que a primeira edição da obra foi impressa pela primeira vez no Porto, por
Manuel Cardoso, em 1635; a segunda edição seria de José Ferreira, impressa em Coimbra em 1673. A edição da Viúva de Manuel de Carvalho seria, portanto, a terceira (Cf. Barbosa Machado, op. cit., vol. II, pág. 714; Inocêncio Francisco da Silva, op. cit., vol. IV, pág. 429).
sem numeração, correspondentes ao primeiro caderno, e por cento e quatro páginas impressas, apresenta os três últimos cadernos com quatro folhas; nas outras duas variantes, o antepenúltimo (assinatura F) e o penúltimo cadernos (assinatura G) são substituídos por um único de oito folhas (assinatura F), mantendo-se um de quatro folhas no final (assinatura G). De igual modo, os erros de assinaturas e de paginação são corrigidos, mas persistiu a gralha na data da penúltima assinatura, onde se lê o ano de 1679, quando a edição é de 1676, erro que só é corrigido numa terceira variante (edição C).
As edições D e E são distintas das anteriores pela ausência de filete no rosto e autonomizam-se uma em relação à outra pelo diferente número de páginas e pela organização dos cadernos.
Em resumo, num mesmo ano, encontramos três edições diferentes da obra, tendo a primeira delas três variantes. Não obstante, há que não esquecer o facto de a impressora ter colocado, no rosto de duas dessas edições, a indicação de se tratar da segunda impressão, o que não era verdade, como vimos; não sabemos se de um erro se tratou, corrigido só numa terceira edição; não podemos, no entanto, descartar a hipótese de ter existido contrafacção, provavelmente operada pela própria viúva de Manuel de