A região metropolitana de Belo Horizonte tem ampliado a atenção domiciliar como estratégia nos serviços de Internação Domiciliar e no Programa de Saúde da Família. Nesta perspectiva, Mota, Silva e Lopes apontam que:
Nesta perspectiva, os cuidados domiciliares trazem implicações para o ensino, para o serviço e para a reorganização das práticas de saúde e de ensino que permitam a reflexão e ação sobre essa estratégia. Assim, cabe contextualizar o cuidado domiciliar como estratégia de reversão do modelo assistencial em saúde e as demandas e necessidades advindas dessa estratégia na formação dos profissionais de saúde.
Nesse movimento, buscam-se alternativas na configuração de práticas sanitárias que superem o modelo assistencial centrado na doença e nos cuidados prestados no ambiente hospitalar para avançar na configuração de saberes e fazeres que tenham como enfoque a identificação dos problemas e necessidades de saúde contemporâneas e que sejam centrados no usuário e nas características fundamentais do cuidado em saúde.
Em conseqüência, observa-se a emergência e a ampliação de espaços de atenção não-tradicionais: Estratégia de Saúde da Família, Assistência Domiciliar nas diversas modalidades, Casa de Cuidados Paliativos, dentre outros. Esses espaços representam esforços na reconstrução de em modelo de atenção o que exige, na sua gênese, repensar o processo de trabalho e a organização das tecnologias nesses novos lóci. [...] Por outro lado, o cuidado domiciliar pode ser apenas um reforço do modelo médico hegemônico, com predomínio de uma medicina tecnológica que estimule a produção de atos e procedimentos onde os sujeitos são meros consumidores. Nessa concepção, o domicílio se torna apenas mais um espaço, sem nenhum impacto na mudança do modelo assistencial (MOTA; SILVA; LOPES, 2005).
A história da Atenção Domiciliar (AD) em instituições públicas de saúde, em Belo Horizonte, teve início na década de 1960. Em 1995, o Hospital Eduardo de Menezes da rede Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG) iniciou o seu Programa de Atenção/Assistência Domiciliar (PAD) para pacientes portadores de HIV/AIDS. Em 1999, foi implantado o PAD Estadual, para desospitalização precoce de pacientes internados no Hospital João XXIII portadores de comprometimentos físicos pós-trauma de longa permanência. No mesmo ano foi implantado o serviço de desospitalização e internação domiciliar no Hospital das Clínicas da UFMG (HC-UFMG) e em 2000 surgiu o PAD Municipal, para desospitalização de pacientes crônicos acamados no Hospital Municipal
Odilon Behrens, essencialmente voltado para pacientes com feridas crônicas. Em 2001 foi editada a Portaria n° 03 da Secretaria Municipal de Saúde/Sistema Único de Saúde de Belo Horizonte (SMSA/SUSBH) que criava o PAD oficial na rede municipal de saúde que preconizava a regionalização do PAD Municipal. Atualmente é possível identificar, na rede pública do município, cinco núcleos de modalidades de atenção domiciliar, com diferentes experiências e conformações próprias (SILVA et al. 2005; SENA et al., 2007):
I) PAD vinculados à SMSA:
1. PAD Hospital Odilon Behrens; 2. PAD Esmeralda;
3. PAD Ametista (vinculado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA)); 4. PAD Topázio (vinculado à UPA);
5. PAD Diamante (HIV/AIDS - Hospital Eduardo de Menezes e UPAs); 6. PAD Barreiro;
7. PAD Nordeste (em fase de implantação); 8. PAD Pampulha (em fase de implantação).
II) Residências Terapêuticas em Saúde Mental vinculada à SMSA – no total de 10 Residências Terapêuticas no Município, recebendo em geral 7 a 10 usuários de serviços de saúde mental sem moradia fixa.
III) Programas vinculados à rede hospitalar estadual (Rede FHEMIG): 1. PAD Hospital João XXIII;
2. PAD Centro Geral de Pediatria - além desse, tem um programa específico denominado VENTILAR (destinado a pacientes portadores de Distrofia Muscular); 3. PAD Hospital Eduardo de Menezes;
4. PAD Hospital Júlia Kubitschek - o programa destina-se exclusivamente a pacientes portadores de Distrofia Muscular.
IV) Programas vinculados a outros hospitais:
1. PID Neonatal (PID) neo do Hospital Sofia Feldman;
2. PID Hospital das Clínicas da UFMG - atende a clientela de modo geral, sendo a maior parte composta por idosos e crianças (parceria com os projetos de extensão CATHIVAR e ABRAÇARTE da FM-UFMG).
Nessa perspectiva, os projetos de iniciação científica e extensão CATHIVAR e ABRAÇARTE da FM-UFMG, criados em 2001, integram linhas de pesquisa desenvolvidas pelo Grupo de Estudos em Humanização dos Serviços de Saúde e Bioética, são destinados aos graduandos do curso médico, com atuações nas áreas de
humanização e cuidados paliativos. O CATHIVAR é um projeto institucional da FM- UFMG que integra profissionais de diferentes departamentos da instituição. O Projeto ABRAÇARTE desenvolve pesquisas e ações para melhorar o período de estado de crianças internadas no Hospital das Clínicas da UFMG. Desde o começo, o CATHIVAR faz parte do Programa de Humanização do Hospital das Clínicas da UFMG e recebe apoio do programa de bolsas do Pró-Reitoria de Extensão (PROEX) da UFMG. O Projeto CATHIVAR implementa ações sobre temáticas relativas ao paciente terminal desenvolvendo atividades de extensão e pesquisa em pacientes fora de possibilidades de cura e apoio aos seus familiares, contribuindo para aliviar o sofrimento da doença e compreender as formas de intervenção dirigidas a eles. Em 2001 e 2002, foram realizadas atividades na Clínica Nossa Senhora da Conceição, instituição filantrópica especializada em atendimentos a pacientes com câncer e a pacientes HIV, que foi recentemente (2004) fechada com o argumento de alto custo financeiro por parte da mantenedora.
V) Programas vinculados à iniciativa privada
A Unimed-BH - Cooperativa de Trabalho Médico Ltda., que presta atendimento em saúde suplementar, com cobertura a mais de 600.000 beneficiários na região metropolitana da capital oferece, dentro do Programa de Atenção Integral à Saúde, orientação, prevenção e promoção à saúde estendida a mais de 100 mil idosos e a AD a mais de 4.500 pacientes, em cinco programas diferentes: Gerenciamento de Casos Crônicos; Curativos em Domicílio; Intervenções Específicas; Cuidados Paliativos; Monitoramento Neonatal e Pediátrico. No período de fevereiro a julho de 2007, a equipe de cuidados paliativos atuou na assistência de 66 pacientes fora de possibilidades terapêuticas. Destes, 33 foram a óbito sendo que 26 (78%) ocorreram no próprio domicílio (BARROSO et al., 2007).
Em síntese, segundo Sena e colaboradores,
[...] a implantação, a ampliação e a consolidação da Atenção Domiciliar (AD) no Município de Belo Horizonte depende fortemente do gestor municipal e da incorporação dessa modalidade como estratégia da política pública municipal. Percebe-se a necessidade de se assumir a AD, tanto pelo gestor quanto pelos próprios serviços, como modalidade substitutiva de cuidado e não apenas como uma forma de desospitalização, de extensão de cobertura e de redução dos gastos hospitalares. [...] No entanto, não existe ainda um fluxo sistematizado que permita um acesso oportuno e um caminhar mais fluido dos pacientes pela linha de cuidado. A dificuldade de articulação dos PADs com outras estações da rede de cuidados deve-se a diversos fatores, mas principalmente à insuficiência da política pública que normatiza as modalidades de atenção no domicílio no Município (Portaria
SMSA/SUS-BH n° 03/2001, de 03 de abril de 2001) e à disputa de projetos entre os vários atores envolvidos no cuidado. [...] Quanto à composição e ao trabalho das equipes, notam-se a reprodução das relações e a utilização das tecnologias hospitalares no domicílio, ocorrendo a ‘transferência’ do espaço do cuidado e permanecendo a lógica do modelo de atenção hegemônico centrada nos procedimentos e nas patologias ou nas seqüelas. Nota-se também a centralidade do cuidado nas decisões dos profissionais e não nos usuários, mesmo na ausência dos primeiros, determinando a lógica do cuidado. No entanto, algumas experiências apontam para uma mudança nas relações, no compartilhamento de saberes e na elaboração conjunta do plano de cuidado. Desse modo, fica evidente a necessidade de profissionais com perfil adequado ao trabalho da AD (SENA et al., 2007, p. 8-9).
Este capítulo examina a temática da morte como uma construção histórica, contemplando sua representação cultural. Privilegia, no século XX, a constituição de movimentos sociais que estimulam a implantação de programas destinados a consolidar a prática de cuidados paliativos. Focaliza, em especial, o caso brasileiro centrado na capital mineira por meio de um levantamento de fontes documentais.
Indicativo de abertura dos movimentos sociais é a presença da bioética, instigando uma reflexão sobre a morte com dignidade, frente a uma doença terminal. Seus princípios nortearam a demarcação teórica e empírica da pesquisa com paciente sem perspectiva terapêutica convencional.