De posse do terreno, a Comissão Pró Monumento de Fundação de São Paulo começou a tomar as primeiras iniciativas para concretizar a sua nova/velha configuração. Tudo o que nele constava passaria aos cuidados da nova proprietária, como o trecho remanescente da parede de taipa, “objetos como pregos, tijolos, madeiras e outras relíquias e valores que forem encontrados nas pesquisas e escavações”109. Além do torreão, mantido por ser considerado o
mesmo que outrora figurou na antiga Igreja, reformulado por Ramos de Azevedo que lhe havia atribuído os ornatos ecléticos a serem removidos [figura 2]. Antes do início das obras de reconstrução, porém, o torreão [figura 3] remanescente passaria a ser a nova sede da Comissão, onde, inclusive, se daria, três anos depois, a assinatura das plantas de reconstrução do “monumento da Fundação de São Paulo”110.
109 DIA 25 o lançamento da pedra fundamental da construção do novo colégio São Paulo. Folha da Noite, São
Paulo, 22 jan.1954.
110 O Estado de São Paulo, São Paulo, p. 13, 03 jan. 1957. De acordo com a nota: “em agosto, no torreão do
Pátio do Colégio foram assinadas as plantas do Monumento da Fundação de São Paulo, a ser edificado naquele local que compreendera diversos prédios: a Igreja e o Colégio primitivos, o Museu Colonial (Casa de Anchieta) e o Cruzeiro, de 120 metros de altura, no interior do qual ficará o modelo exato da primitiva cabana”.
Figura 2 - Demolição do antigo Palácio do Governo e torreão resultante da reforma da antiga torre da igreja Fonte: Estado de São Paulo (1953).
Figura 3 – O torreão remanescente ao lado da reconstrução hipotéticae temporária da “cabana” Fonte: Diário Popular (1959, p. 24)
O primeiro ato rememorativo da história pregressa do local comprometeu-se, radicalmente, com a sua feição mais antiga; com a consultoria de Carlos Alberto Gomes Cardim Filho, e bastante fetiche historicista, a Comissão erigiu o que se considerava ser a antiga cabana [figura 4], exatamente da mesma maneira, segundo seus artífices, como a construiu Tibiriçá111.
111 PÁTIO do Colégio. O Estado de São Paulo, São Paulo, p. 5, 03 abril 1954. Em entrevista ao jornal, José
Nunes Vilhena afirmou: “inicialmente, a Comissão está procedendo a construção da cabana histórica, evocando a que fora feita por Tibiriçá, e na qual foi escrita a epigrafe do primeiro capítulo de nossa história”.
Figura 4 – Visão frontal da Cabana Fonte: O Estado de São Paulo.
A urgência de ressignificar o local como o ponto de partida da história da cidade foi facilitada pela simplicidade da cabana de sape e madeira. Mais problemática e dispendiosa seria, no entanto, a feitura dos edifícios jesuíticos supostamente primitivos. Ainda mais depois do compromisso assumido publicamente pelo secretário da Comissão de não contar com verbas públicas para tal, pois, como foi demonstrado, havia críticas à participação do Estado nas obras.
Um opúsculo que foi distribuído aos visitantes da cabana, escrito pelo padre jesuíta Fernando Pedreira de Castro, divulgou o problema do custeio: “donde provirá o vultoso capital imprescindível para execução de monumental projeto?”. Para o religioso, os recursos financeiros adviriam do “Povo” – “não é possível que o povo paulistano [...] deixe de concorrer com alguns cruzeiros que sejam, para reerguer o Monumento mais sagrado, mais saudoso, mais emocionante de suas glórias e tradições”112.
Para a resolução do problema de verba, os requerentes das obras lançaram, no dia 9 de setembro de 1955, a extensa Campanha de Gratidão aos Fundadores de São Paulo113,
amplamente divulgada nos jornais entre os meses de agosto e setembro daquele ano. O mote ou o chamamento para adesão à campanha foi “vamos dar um pouco aos que nos deram tanto”. Os atuais “discípulos” dos jesuítas ou mesmo “simpatizantes”, deviam reaver os prejuízos causados aos missionários de outrora. Defendiam as obras como uma espécie de reparo histórico:
112 CASTRO, Fernando Pedreira de. Op. Cit. pp. 46-47
113 CAMPANHA de gratidão aos fundadores de São Paulo. Folha da Manhã, São Paulo, p. 1, 24 set. 1955.
Além de fundos para a reconstrução dos edifícios do Pátio do Colégio, a Campanha era também para “a construção do novo Colégio São Luiz no Morumbi e ampliação das obras do Aprendizado de Itaici”.
[...] duas vezes injustamente expulsos de Piratininga, por motivos políticos, os jesuítas se viram violentamente apartados da empresa maravilhosa que vinham realizando no Planalto. Tudo perderam: bens morais inestimáveis, fruto da catequese, e bens materiais – escolas, igrejas, casas, fazendas. Tudo lhes foi arbitrariamente expropriado. Um dia voltaram em definitivo. E recomeçaram a tarefa, com a mesma fé, o mesmo devotamento, o mesmo ideal: servir São Paulo! Quatro séculos após a missa inaugural do Padre Manuel de Paiva, quando ainda não morriam os ecos festivos do IV Centenário da Cidade, lembraram-se alguns paulistas de que temos uma dívida a saldar. Vamos dar um pouco aos que no deram tanto!114
Acompanhar cada nota publicada sobre o desenrolar da campanha e os resultados obtidos revelou uma infinidade de nomes, impossível de ser aqui arrolada, até mesmo por não ser possível aferir o quanto cada um deles foi efetivamente engajado nas obras. Citemos primeiramente aqueles clérigos que figuraram na Comissão de Honra da Campanha: d. Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, d. Paulo de Tarso Campos, d. Antonio Ferreira Macedo, d. Antonio Maria Alves de Siqueira, d. Paulo Rolim Loureiro, d. Vicente Zioni, pe. João Bosco Rocha, pe. Luis Gonzaga D‟Elboux. Além deles, nomes leigos de imenso destaque na cidade manifestaram-se: o historiador, professor da USP e ex-diretor do Museu Paulista Afonso E. Taunay, Erasmo Teixeira de Assunção, Candido Fontoura, o ex-prefeito Fabio da Silva Prado, o empresário conde Francisco Matarazzo, o “rei do café” Geremia Lunardelli, José Carlos de Macedo Morais, o ex-diretor do Banco do Brasil e ex-Ministro da Fazenda José Maria Whitaker, Luis de Anhaia Melo, Roberto Meira, Valter Belian e o então governador Lucas Nogueira Garcez; o orador oficial dos eventos promovidos foi Altino Arantes115. Novamente preponderou a mescla de religiosos e antigos sobrenomes de figuras preocupadas com a manutenção das tradições paulistas, com a, em princípio destoante, inclusão de empresários de origem imigrante como Francisco Matarazzo e Geremia Lunardelli e um inusitado Taunay, que, quando diretor do Museu Paulista, jamais dera destaque à obra e presença dos jesuítas na narrativa que criara para narrar a história de São Paulo e do próprio país116.
Uma matéria publicada pela Folha da Manhã em fins de 1956, que informava que “dentro de um mês será iniciada a construção da igreja e escola de Anchieta no Pátio do Colégio”, deu a entender que o montante arrecadado com a campanha não fora suficiente aos objetivos da Comissão, a qual lançava mão de outros meios, perante os “materiais e
114 SALGADO, José Augusto César. Op. Cit. p. 138.
115 CAMPANHA de gratidão aos fundadores de São Paulo. O Correio Paulistano, São Paulo, p. 5, 09 set.1955. 116 MONTEIRO, Michelli Cristine Scapol. Fundação de São Paulo, de Oscar Pereira da Silva: trajetórias de
uma imagem urbana. Dissertação (mestrado em Arquitetura e Urbanismo). Universidade de São Paulo – FAU, São Paulo, 2012.
determinados pormenores de custo elevado” das obras117. Alegava-se que a reconstrução se
mostrava complexa e dispendiosa justamente pelo rigor técnico pretendido118. De modo que a sempre solícita Assembléia Legislativa aprovou – três anos depois de conceder a área aos jesuítas – o repasse de verba de auxílio para a reconstrução119.
Assim, a retomada da feição jesuítica do Pátio do Colégio, anunciada durante os festejos do IV Centenário da cidade, foi, de fato, iniciada no seu muito menos pomposo 403° aniversário e seu fim foi inúmeras vezes protelado. O prazo inicial de “dez meses” então estipulado pelos seus artífices se mostrou infactível e estendeu-se até o início da década seguinte. Em janeiro de 1959, por exemplo, era noticiado o adiamento da “inauguração parcial do monumento”120, por falta de acabamentos.
Somente três anos mais tarde, anunciava-se a retirada dos tapumes que revelaram o Colégio reconstruído121 [figura 5], motivo de alarde para Comissão Pró Monumento da
Fundação e também oportunidade para reforçar seus ânimos para pleitear a área correspondente a Igreja, que se encontrava “dentro da rua”, e completar o refazimento do complexo jesuítico.
117 DENTRO de um mês será iniciada a construção da igreja e escola de Anchieta no Pátio do Colégio. Folha da
Manhã, São Paulo, 19 nov. 1956. De acordo com a matéria, “graças ao aluguel de parte do terreno do Pátio do Colégio onde serão desenvolvidos os trabalhos, cedido para estacionamento de automóveis particulares, mensalmente entram para os cofres da Comissão Pró Monumento da Fundação de São Paulo 15 mil cruzeiros. Assim, em menos de ano e meio para reforçar as suas verbas, a entidade já conseguiu arrecadar 250 mil cruzeiros”.
118 Ibidem.
119 INICIAR-SE-Á dia 25 de janeiro de 1957 a construção da „Igreja de Anchieta‟. Folha da Manhã, São Paulo,
27 dez. 1956. “Até o momento, a Comissão Pró Monumento já conseguiu arrecadar, através de contribuições diversas da população em geral, cerca de 4 milhões de cruzeiros. A Assembléia Legislativa já aprovou uma verba de auxílio de 3 milhões. Quanto ao Município, até agora não se manifestou em qualquer sentido”.
120 ADIADA a inauguração parcial do monumento a São Paulo. Folha da Manhã, São Paulo, p. 1, 17 jan. 1959. 121 SERÁ inaugurada em futuro próximo a „Casa de Anchieta‟ reconstruída. O Correio Paulistano, São Paulo,
Figura 5 – Notícia da inauguração do Colégio Fonte: Correio Paulistano (19/08/1962)