Um tema que merece atenção para identificação das “categorias de atribuição” para a imagem da “degradação” da Praia de Iracema é o lugar que os freqüentadores, denominados boêmios, ocupam nas narrativas do bairro. Com as transformações na sua arquitetura, a designação “boêmio”, associada nos discursos jornalísticos aos artistas e intelectuais que freqüentavam o bairro, ganhou um caráter desabonador entre os moradores. Ou seja, a representação simbólica da “boemia” influenciou também os conflitos na disputa pelos “lugares”, pois no processo de negociação pelos espaços de Iracema surgiram diferentes formas de classificar os seus freqüentadores, como por exemplo: público tradicional; boêmio de verdade; boemia etílica; boemia high tech; novos boêmios, entre outras. Identifiquei também uma conotação irónica ao termo, como pode ser visto em trechos de uma carta encaminhada ao Secretário de Polícia e Segurança Pública em 25 de janeiro
1989, que utiliza o termo “boêmios” para se referir a freqüentadores que causavam desordem e desrespeito aos moradores do bairro.
(…) 2. Os boêmios quando afluem para cá, vêm em carros de todos os tipos, a maioria dotada com “canos envenenados”, com sistemas de alarme que disparam na chegada e na saída, alta madrugada. (…) 6. Os referidos boêmios têm o hábito pouco salutar de fazer suas necessidades fisiológicas em plena rua e nossas calçadas amanhecem malcheirosas e freqüentemente, temos que limpar detritos mais consistentes. 7. As brigas e os desentendimentos entre os boêmios se dão na frente de nossas portas e janelas, situação que nos aflige sobremaneira. (…) (Apud Benevides, 2003: grifos meus).
O sentido pejorativo dado ao termo boêmio está presente também nos discursos dos moradores em relação às transformações na estrutura do bairro. Segundo alguns depoimentos, as mudanças espaciais e sociais acarretam um novo sentido da boemia, análoga a bebida alcoólica, ou seja, constitui-se uma “boemia etílica”. Como pode ser visto no relato abaixo, um morador defende que existiu um descaso dos antigos freqüentadores ou “boêmios” com a preservação da história do bairro Praia de Iracema.
A chegada de um comerciante que por sinal é um homem muito inteligente que é o Júlio Trindade [proprietário do Pirata], que iniciou aqui na década de 1980, uma nova visão de cultura atraindo os artistas e intelectuais. Então a prefeitura aproveitou o ensejo, já que ele era um homem que conseguia atrair um público muito grande, por que não dizer a elite intelectual, que antigamente vivia no antigo Estoril, mas depois eles aderiram à tecnologia, ao som mecânico, são
bairro de bebida, de álcool. A boemia só no sentido de bebida e não do conhecimento, de história. A boemia só para o meu prazer e não no sentido cultural. A boemia etílica (Entrevista com um morador, residente há 35 anos na Praia de Iracema, concedida em 19 de agosto de 2005).
Esse argumento está presente também em documentos organizados por moradores para denunciar a falta de respeito ao bairro por parte dos novos freqüentadores. Por meio de um movimento denominado “S.O.S Iracema”, fundado em 1989, foi desenvolvida uma campanha intitulada “Queremos um Alvará para Viver”, com severas críticas às formas de lazer vivenciadas no bairro pelos freqüentadores identificados como “novos boêmios”.
O espaço idílico e aconchegante do nosso viver passou a ser, da noite para o dia, um espaço ocupado pela nova boemia, um verdadeiro “programa de índio”, numa triste coincidência com os nomes indígenas das nossas ruas. Essa nova boemia é de gosto duvidoso, pois é a boemia do barulho, do guiché e da fila: fila para estacionar, para comprar ingresso, para entrar, para comprar bebida, para ir ao toalete e, na base da superlotação “bateau-mucheana” [comparação com o barco que afundou no revellion de 1987 do Rio da Janeiro], fila até para dançar. Uma péssima prestação de serviços para o público consumidor. Há quem chame isso de progresso. Nós discordamos (…) (Benevides, 2003: 53, grifos meus).
A análise dos discursos referentes às mudanças sociais e espaciais decorrentes dos processos de “requalificação” me fez perceber também que os antigos freqüentadores, referenciados na mídia como “boêmios de verdade” ou “público tradicional”, passaram a qualificar os recém-chegados como portadores de comportamentos que não condiziam com a representação “boêmia” do bairro, ou seja, passaram a identificá-los como outsiders, e por esse motivo foram estigmatizados, como pode ser visto nessa matéria
jornalística, reproduzindo a fala do proprietário do tradicional Cais Bar: “O público tradicional do bar já evita as noites das sextas e sábados, dando lugar aos novos freqüentadores que superlotam o espaço.” (O Povo, 3 de julho de 1991, grifos meus).
Os meios de comunicação social tornaram-se um canal importante na propagação desse fenômeno, pois algumas matérias jornalísticas apresentavam os novos usos e apropriações do bairro como uma ameaça à representação “boêmia” da Praia de Iracema. Esse trecho de uma entrevista com o garçom Baleia76 ilustra esse fenómeno ao definir os novos usos nesse bairro como invasão ao “lugar dos boêmios”.
Sinto saudade daquele tempo do Estoril, escutando aquela turma imensa de boêmios tocando violão a noite toda. O pessoal hoje se separou, vai cada um para um bar diferente, não tem mais aquele ponto de encontro certo. Agora a meninada invadiu a Praia de Iracema, só dá meninote, ninguém vê mais um boêmio de verdade. Ninguém vê mais aquelas mesas imensas, com vinte, trinta pessoas virando a noite na conversa (O Povo, 24 de setembro de 1994, grifos meus).
Em outra matéria, o jornal O Povo denuncia o protesto dos moradores contra o novo sentido da boemia que estava se constituindo no bairro: “Não à boemia high tech é o grito dos moradores da Praia de Iracema, indignados com a poluição sonora e com a má qualidade de vida causada pelos novos bares que infestam as ruas do antes bucólico e tranqüilo bairro” (O Povo, 22 de janeiro de 1989).
Tendo como modelo de análise de conteúdo a identificação de expressões conceituais para a identificação das “categorias nativas” relativas à imagem da “degradação”, apresentarei a seguir um quadro com as características da chegada de novos freqüentadores neste bairro. Esse exercício se deu a partir da identificação deste fato, o qual defino como “a chegada dos novos freqüentadores”, as suas características e as categorias de atribuição para imagem da “degradação” oriundas das expressões conceituais. Nesse caso, as palavras presente nas narrativas acima, com significados relevantes, são: boemia, nova boemia, boemia high tech, boemia etílica, bebida, brigas, barulho, bucólico, tranqüilo, indignação e invasão. As orações conceituais que identifiquei foram as seguintes:
Os referidos boêmios têm o hábito(s) pouco salutares; A Praia de Iracema tornou-se um bairro de bebida, de álcool;
Essa nova boemia é de gosto duvidoso, pois é a boemia do barulho;
Agora a meninada invadiu a Praia de Iracema, só dá meninote, ninguém vê mais um boêmio de verdade;
Não à boemia ‘high tech’ é o grito dos moradores da Praia de Iracema;
(Os moradores) indignados com a poluição sonora e com a má qualidade de vida causada pelos novos bares que infestam as ruas do antes bucólico e tranqüilo bairro;
A boemia só no sentido de bebida e não do conhecimento, de história. A boemia só para o meu prazer e não no sentido cultural.
Quadro 17: Novos freqüentadores e a imagem da “degradação” da Praia de Iracema
Evento Características “Categorias nativas
de atribuição”
Inserção de novos freqüentadores.
Freqüentadores que faziam barulho e necessidades fisiológicas nas calçadas das residências, brigavam nas ruas, bebiam, não se preocupavam com a história do bairro e superlotavam os espaços.
Boemia ‘high tech’; Nova boemia; Boemia etílica.