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Desde o surgimento da educação escolar e de sua difusão pelo mundo, espera-se que a educação pública salve a sociedade. As escolas e seus professores devem resgatar as crianças da pobreza e da destituição, reconstruir o sentimento de nação nos períodos pós-guerrra, gerar trabgalhadores especializados mesmo quando poucos empregos adequados os esperam e desenvolver tolerância entre as crianças.

(Andy Hargreaves)

As décadas de 1920 e 1930 foram férteis em discussões sobre educação e pedagogia e, nesse período, começam a despontar os ideais escolanovistas com cidadãos imbuídos da esperança de democratizar e de transformar a sociedade por meio da escola. De acordo com Saviani (2006), as críticas ao ensino tradicional constituíram o ideário renovador instituído na década de 1930 dando origem a uma nova teoria da educação. Tal teoria acreditava no poder da escola enquanto equalizadora social, ou seja, havia a esperança de que fosse possível corrigir a marginalidade, não sob o ponto de vista da ignorância, mas o marginal como “desajustado”, por meio da escola que teria por função adaptar o indivíduo à sociedade. Saviani (2006, p. 9), analisa que

Figura 5: Colégio Sion de Petrópolis em 1930 Café história: história feita em cliques

Compreende-se, então, que essa maneira de entender a educação, por referência à pedagogia tradicional tenha deslocado o eixo da questão pedagógica do intelecto para o sentimento; do aspecto lógico para o psicológico; dos conteúdos cognitivos para os métodos ou processos pedagógicos; do professor para o aluno; do esforço para o interesse; da disciplina para a espontaneidade; do diretivismo para o não-diretivismo; da quantidade para a qualidade; de uma pedagogia de inspiração filosófica centrada na ciência da lógica para uma pedagogia de inspiração experimental baseada principalmente nas contribuições da biologia e da psicologia. Em suma, trata-se de uma teoria pedagógica que considera que o importante não é aprender, mas aprender a aprender.

Para contemplar tal concepção, caberia ao professor agir como estimulador e orientador de toda a aprendizagem e ao aluno a iniciativa em aprender. Assim, a aprendizagem seria uma decorrência de todo o ambiente instigante e da relação que se estabeleceria entre os pares envolvidos na educação. Como esse tipo de escola requeria bibliotecas com acervo vasto, materiais didáticos visualmente ricos, tecnologias até então existentes, ambiente instigante, alegre e multicolorido, acabou por se tornar inexequível, visto que, implicava despesas muito mais altas do que as demandadas por uma escola tradicional. Desse modo, a “Escola Nova” se estabeleceu fundamentalmente na forma de escolas experimentais bem providas de todo o tipo de tecnologia e limitadas a poucos grupos de elite.

Vê-se, pois, que paradoxalmente, em lugar de resolver o problema da marginalidade, a “Escola Nova” o agravou. Com efeito, ao enfatizar a “qualidade do “ensino”, ela deslocou o eixo de preocupação do âmbito político (relativo à sociedade em seu conjunto) para o âmbito técnico- pedagógico (relativo ao interior da escola), cumprindo ao mesmo tempo uma dupla função; manter a expansão da escola em limites suportáveis pelos interesses dominantes e desenvolver um tipo de ensino adequado a esses interesses. É a esse fenômeno que denominei de “mecanismo de recomposição da hegemonia da classe dominante”. (SAVIANI, 2006, p. 11).

Observa-se com isso que os resultados atingidos foram mais negativos que positivos, pois suscitava o afrouxamento da disciplina e a despreocupação com a construção do conhecimento, rebaixando o nível do ensino proposto às camadas menos favorecidas as quais acabam tendo na escola a única forma de acesso ao conhecimento mais elaborado. Por outro lado, a “Escola Nova” aperfeiçoou a qualidade do ensino destinado às elites.

Apesar de algum avanço, podem ser feitas críticas ao total descaso pela educação fundamental, o que representou um empecilho para a real democratização do ensino. Além disso, a formação de professores não se concretizou de fato. (...) A falta de articulação entre os cursos secundário e comercial evidenciava a rigidez do sistema, enquanto o enciclopedismo dos programas de estudo, ao lado de uma rigorosa avaliação, tornou o ensino altamente seletivo e elitizante. (ARANHA, 2006, p. 305).

Dessa forma, tornava-se perceptível que a escola pública brasileira dessas primeiras décadas do século XX tinha por objetivo teórico a escolarização das camadas populares, porém, na prática, só foram inclusos os alunos pertencentes às esferas ligadas ao trabalho urbano, excluindo tanto as pessoas com menor poder aquisitivo quanto os negros, ou seja, “privação de liberdade” a esse público, para usar uma expressão de Sen.

No ano de 1932, foi divulgado o “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”, firmado por vinte e seis educadores, entre eles Fernando de Azevedo, Roquette Pinto e Anísio Teixeira. Tal documento defendia que era dever do Estado a educação obrigatória, pública, gratuita e laica e que essa deveria ser implantada em programa de âmbito nacional.

Um dos objetivos fundamentais expressos no Manifesto – que certamente fora inspiração de Anísio Teixeira – era a superação do caráter discriminatório e antidemocrático do ensino brasileiro, que destinava a escola profissional para os pobres e o ensino acadêmico para a elite. (ARANHA, 2006, p. 303).

Tal Manifesto sugeria uma escola secundária unitária, com um currículo que abrangesse uma base comum de cultura geral universal, em três anos, e só posteriormente, entre os quinze e dezoito anos, o adolescente seria conduzido para a formação acadêmica e profissional. “O Manifesto pretendia ser um divisor de águas reiterando a necessidade de o Estado assumir a responsabilidade da educação, que se achava em defasagem com as exigências do desenvolvimento” (ARANHA, 2006, p. 304). Torna-se evidente a preocupação dos escolanovistas ao fato de que, sobrevindas quatro décadas da Proclamação da República, não havia ainda uma escola republicana aberta para todos.

Até aqui foi possível observar como a educação pública se desenvolveu no Brasil durante aquele período. Salienta-se a importância de compreender como a televisão se organizava naquela fase histórica.

Benzer Belgeler