Era uma experiência inovadora: para ensinar às crianças noções sobre letras e números, valia-se das descobertas da neurologia e da psicologia. Os quadros eram lentos e tinham um quê de encenação teatral
(Revista Veja)
Em 1972, entra no ar (e para a história da televisão brasileira) o Programa Vila Sesamo, versão nacional do programa americano Sesame Street, adaptado pelo então diretor José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, da Central Globo de Produções, e por Cláudio Petraglia, diretor da TV Cultura de São Paulo na época, voltado a um público que era essencialmente formado por crianças em idade pré- escolar. Vila Sésamo completou quarenta anos na rede americana em novembro de 2009, sendo o programa infantil de educação há mais tempo no ar na TV dos EUA.
Sua fórmula mesclava educação e diversão e tinha como cenário uma vila em que conviviam adultos e crianças com bonecos, salientando-se aqui, a questão da inclusão, tendo em vista que, na mesma vila, conviviam harmoniosamente pessoas negras e brancas sem distinção de cor ou de poder aquisitivo. Os temas procuravam educar no sentido mais amplo, concebendo educação como construção de conhecimento, assim como de aprendizagem de valores. Isso incluía possibilitar às crianças que tivessem noções básicas de geografia, matemática, língua nacional e
Figura 8: Vila Sésamo Fonte: Blog do curioso
noções de saúde, higiene e respeito ao trânsito, utilizando, para isso, desenhos e músicas, além dos diálogos entre os personagens.
A partir de 1973, o programa foi totalmente nacionalizado, surgindo a versão abrasileirada de Garibaldo, interpretado por Laerte Morrone. Surge também Gugu, que morava em um barril; Funga-Funga, amigo imaginário de Garibaldo e, entre os atores principais, o programa trazia Armando Bógus, como Seu Juca, um operário que consertava qualquer coisa, e sua esposa, Gabriela, uma dona de casa interpretada por Aracy Balabanian, demonstrando um retrato de como era a família brasileira à época de transmissão de tal programa. Entre bonecos e atores, também contracenavam crianças carentes com idade entre três e dez anos.
Vila Sésamo contava com psicólogos, pedagogos, especialistas em educação e psicologia infantil. Todos os diálogos eram estruturados de modo a atender os requisitos de desenvolvimento cognitivo e motor de seu público, assim, tudo no programa era pautado por um objetivo educacional.
É importante salientar que este programa, transmitido de 1972 a 1977, volta à TV nos anos 2000, contando as aventuras de Garibaldo e de sua nova companheira Bel, trazendo conteúdos educativos e lúdicos tendo como público, tal qual antes, crianças de três a seis anos de idade. A TV Ra-Tim-Bum ganha novo site proporcionando que as crianças conheçam os personagens e a programação, além de oferecer uma área exclusiva aos pais, com informações sobre o conteúdo do canal.
Além de Vila Sésamo, a programação educativa da TV Cultura durante a década de 1970 começa a crescer surgindo os programas: Tele Escola, Curso de Auxiliar de Administração de Empresas, Auxiliar de Comércio Exterior, cursos de línguas. A duração desse tipo de programação salta de uma hora (1969) para quatro horas e vinte minutos (1975), indicando que a aceitação da programação pelo público, revelado nas mídias, induzia a TV a ampliar seu tempo de exibição na grade. O Programa Tele Escola recebeu o Prêmio Japão, concedido pela NHK (emissora pública do Japão) aos melhores programas educativos. Segundo Lima (2008, p. 102), “nessa época, ja ficava clara a posição da FPA como núcleo de experimentações que depois seriam utilizadas pelas emissoras comerciais.” Ou seja, a TV Cultura lançava ideias, formava pessoal técnico e atores e a TV comercial aproveitava as ideias que davam certo, repaginando-as e relançando-as em seus canais.
Os anos 1970 foram férteis em programação que se dispunha a aliar educação e entretenimento e, nessa época, foi lançado o programa “A Turma do Lambe-Lambe”, um grupo de personagens infantis criados pelo cartunista brasileiro Daniel Azulay, que também pretendia levar conhecimento e diversão, aos moldes de Vila Sésamo, ao seu público.
Pensado para o público infanto-juvenil, é lançado o programa “É proibido colar”, de 1981, colocando como apresentador um ator famoso, Antônio Fagundes7,
e Clarisse Abujamra8, o programa consistia numa grande competição entre escolas da rede pública do Estado de São Paulo de 1º e 2º graus e depois virou um jogo da Grow. Em 1982, é a vez de “Quem Sabe, Sabe” estrear, apresentado por Walmor Chagas9, também voltado para estudantes, com perguntas e respostas.
Outro programa de sucesso foi o “Bambalalão”, de 1980, um programa apresentado por Regina Célia Anhelli10 e Silvana Teixeira11. O programa era ambientado em um cenário parecido com um circo e contava com a participação de crianças da pré-escola e do Ensino Fundamental de escolas inscritas. As crianças eram alocadas em duas equipes que se confrontavam: a do Amarelo e a do Vermelho. Além das competições, tal programa apresentava quadros envolvendo teatros de fantoches, muitas brincadeiras, narração e encenação de histórias infantis que sempre acabavam com a frase: "Esta história entrou por uma porta e saiu pela outra. Quem souber, que conte outra".
Voltando o olhar para a educação no período que envolve as décadas de 1970 e 1980, um grupo de filósofos e pedagogos elaborou uma teoria pedagógica que recebeu, entre outras denominações, pedagogia crítico-social dos conteúdos ou, simplesmente, pedagogia histórico-crítica. Demerval Saviani, em 1973, publicou “Educação brasileira: estrutura e sistema” e nessa obra avalia que não havia um sistema educacional brasileiro, pois nas leis que o regiam prevalecia a importação de teorias e a improvisação de métodos. A missão dessa pedagogia histórico-crítica estava relacionada à tentativa de reverter a desorganização que suscitava uma _______________
7 Antônio Fagundes dois anos antes de estrear na Cultura, havia feito muito sucesso como Cacá, par romântico de Julia Matos (Sonia Braga), em Dancing Days.
8 Clarisse Abujamra anos antes havia feito sucesso em Escrava Isaura, como Lúcia Andrade. 9 Walmor Chagas fez sucesso anteriormente como Wagner, de Final Feliz.
10 Gigi Anhelli, como era conhecida, ganhou fama em Bambalalão.
11 O papel de maior destaque de Silvana Teixeira foi na minissérie Iaiá Garcia, em que interpretava a protagonista da trama.
escola excludente, com elevados índices de analfabetismo, repetência, evasão, seletividade e, consequentemente, privação de liberdade.
De acordo com Castells, nesse período da década de 1970, desencadearam- se três processos históricos autônomos que afluíram para a "gênese de um novo mundo". (1999, p. 412). O primeiro consistiu na crise do capitalismo e no enfraquecimento do Estado e sua posterior reestruturação, assinalada como "capitalismo informacional": o princípio ainda é a "produção pelo lucro e para a apropriação privada dos lucros com base nos direitos de propriedade" (p. 413), porém objetiva o desenvolvimento tecnológico, o acúmulo de conhecimento e o consequente aumento da complexidade do processo de informações, em lugar da maximização da produção de bens.
O processo seguinte, essencial para a nova conformação da sociedade atual, está relacionado à culminância dos movimentos sociais e culturais, que organizam o contexto para rupturas basilares na sociedade contemporânea, ainda sem a aspiração de assumir o poder. Castells faz alusão ao feminismo, à ecologia, à defesa dos direitos humanos, etc. Esses movimentos apareceram como reação contra a autoridade, as injustiças sociais, os valores postos pelo tradicionalismo religioso e buscava enaltecer a liberdade pessoal. As tecnologias estabeleceram os alicerces intelectuais para o novo mundo interdependente - a "sociedade em rede". (CASTELLS, 1999).
Simultaneamente a esses dois processos, ocorreu um terceiro que é o de transformação social e está intimamente relacionado à revolução das tecnologias da informação, que age restaurando os alicerces materiais da sociedade, por intermédio do informacionalismo: característica da "forma específica de organização social em que a geração, o processamento e a transmissão da informação tornam- se fontes fundamentais de produtividade e poder [...]" (CASTELLS, 2004, p.65). Surgem daí as expressões "sociedade informacional" e "economia informacional" aplicados pelo autor para distinguir de maneira mais precisa as mudanças sociais e econômicas contemporâneas e ainda enaltecer o papel da informação e do conhecimento.
3.5 A TELEVISÃO E A EDUCAÇÃO DA DÉCADA DE 1980 AO SÉCULO XXI: