Os depósitos correlativos são utilizados como testemunho de processos responsáveis pela gênese e elaboração do relevo. Esses estudos são de suma importância para a interpretação de como esses processos influenciaram e, influênciam na estruturação da paisagem atual. Esses depósitos podem ser classificados conforme a localização no globo, ligado a sua situação climática e eventos tectônicos que podem tê-los originado. Partindo desse contexto mais amplo ao mais particular, buscar-se-á apresentar os mais representativos trabalhos sobre os depósitos correlativos de origens climáticas sub-úmidas.
Os estudos dos depósitos correlativos no Brasil têm como principal marco o trabalho de BIGARELLA, MARQUES FILHO & AB´SABER (1961), em que descreveram formas de relevo e depósitos de materiais rudáceos na Serra do Mar entre Santa Catarina e Paraná, que seriam testemunhos de superfícies de erosão e seus respectivos depósitos correlatos de idades Plio-Pleistocênica.
Em 1962, tem-se o trabalho de AB´SABER sobre os horizontes subsuperficiais de cascalhos inhumados do Brasil Oriental. Para o autor op.cit., essas linhas de pedras nas terras úmidas florestadas tratam-se de paleopavimentos detríticos ou chãos pedregosos com origem por volta de 13000e 18000 anos A.P. Em 1977, AB´SABER amplia essas considerações, dizendo que, em climas secos semi-áridos com vegetação rala, havia um favorecimento à reativação da morfogênese mecânica (período de resistasia). Enquanto, que os materiais coluvionares que soterraram esses pavimentos, seriam depositados durante uma transição para climas mais úmidos, porém, anteriores à expansão das florestas, a partir de posições topográficas mais elevadas.
BIGARELLA, MOUSINHO & SILVA (1965) no trabalho “Pediplanos, pedimentos e depósitos correlativos no Brasil” propõem um modelo cíclico em que, as modificações do relevo seriam dadas pelas oscilações climáticas entre períodos úmidos e áridos e semi-áridos com eventual ação tectônica, mas essa não sendo decisiva.
No modelo, descrito as fases úmidas seriam responsáveis pelo desenvolvimento e aprofundamento da rede de drenagem, enquanto que, nas fases áridas ocorreriam processos de desagregação mecânica com plainação lateral, formando-se superfícies de extensões variadas. Os pediplanos teriam origem no final do Terciário, com vastas e sucessivas superfícies de erosão elaboradas em climas secos. Enquanto, no Quaternário a alternância de fases secas originariam os pedimentos e seus depósitos correlativos em forma de terraços, que posteriormente, em fases úmidas, seriam entalhados pela rede de drenagem. Essas oscilações seriam dadas pelos períodos interglaciais pleistocênicos. TRICART (1968) mostra a relação do balanço entre pedogênese e morfogênese relacionadas respectivamente a biostasia e resistasia.
BIGARELLA & MOUSINHO (1965) propõem os estudos dos elementos onde ocorrem os depósitos correlativos no contexto paisagístico brasileiro. Seriam eles, as rampas de colúvio, terraços fluviais e várzeas. Assim, esses componentes da paisagem seriam estudados de forma conjugada, de maneira a interpretar os depósitos correlativos e a evolução das formas de relevo.
CHRISTOFOLETTI (1968), em seu trabalho sobre o significado das cascalheiras nas regiões quentes e úmidas, correlaciona as cascalheiras e paleopavimentos às condições climáticas semi-áridas. O autor op.cit. chama a atenção para a importância da ação periglaciária nos estudos de variações paleoclimáticas. Nesse contexto, o autor op.cit. esclarece que, as fases de clima semi-árido do Brasil coincidem com as glaciais no hemisfério norte, período em que ocorreu o abaixamento das temperaturas em torno de 6 ºC. Nestas condições semi-áridas a vegetação é escassa e o solo está em sua maior parte descoberto, provocando grande aquecimento diurno e, intenso resfriamento noturno. Após os processos interglaciais, certamente ocorreu o aumento da temperatura e da umidade, intensificando os processos morfogenéticos no decorrer do ciclo atual, aumentando assim, a espessura do manto decomposto.
AB’SÁBER (1969) em relação às características sedimentológicas dos depósitos de cobertura, esclarece que, as diferentes espessuras e granulometria dos sedimentos relacionam-se ao processo de transição de um estágio de clima seco a um clima mais úmido.
PENALVA (1971), analisando os depósitos na região de Atibaia, Bragança Paulista e Jundiaí, comprovou a existência de sedimentos Pleistocênicos. Na referida área, o autor caracteriza os poucos sedimentos, como sendo de origem clástica e, em algumas exceções, como restos orgânicos carbonosos. Os componentes das seqüências sedimentares apresentam em sua maioria, textura argilo-siltosos, com um pavimento de cascalhos em sua base, precisamente no contato entre a seqüência sedimentar e o embasamento cristalino.
PENALVA (op. cit.) ressalta que ainda não foram observadas deformações nos sedimentos, sendo que, os alinhamentos estruturais a NE não influenciaram a origem dos depósitos. Mas reconhece a presença de sedimentos espalhados espacialmente, e em níveis altimétricos diferenciados. A análise realizada pelo autor sobre a mineralogia dos sedimentos, como as características dos depósitos dos mesmos, levantou a hipótese dos sedimentos estarem vinculadas ao Pleistoceno, e não ao Plioceno, como as pesquisas da época afirmavam.
RANZANI et. al., (1972) utilizaram os depósitos correlativos, assim como o material que compunha o mesmo, para inferir hipóteses sobre a evolução morfológica do Planalto Ocidental Paulista, no município de Itirapina-SP.
Neste caso, as concreções ferruginosas teriam importante papel para a análise cronológica daquela área, já que, no caso analisado, os autores identificaram correlação com as concreções do Brasil Central, consideradas por AB’SÁBER 1965 apud RANZANI et. al, (1972) como depósitos residuais do terciário antigo. Os autores afirmam que, a análise das características físicas e mineralógicas podem indicar se houve remobilização ou não, portanto, inferindo a litologia que sofreu esta ação; ou também, qual evento climático atuava na paisagem. Sobre o processo coluvionar, afirmam que esta fase corresponde a uma transição semi-úmida da fase mais seca dos paleopavimentos para o clima úmido atual, do qual, é testemunho o nível superficial. Para os autores, as evidências mais importantes das alterações climáticas estão nas superfícies erosivas, separando colúvios e nos paleossolos superpostos que constituem o pedimento detrítico.
No que se refere especificamente aos paleossolos RANZANI et. al., (1972) identificaram que os mesmos eram apenas formados pelos restos de horizontes B ou C, sendo desenvolvido em uma fase úmida e, posteriormente “decapitado”. Já a fase de coluviação apresenta-se como a transição semi-úmida da fase mais seca dos paleopavimentos para o clima úmido atual, do qual, o nível pedológico superficial é testemunho.
Deste modo, segundo os autores (op. cit.), os colúvios do Planalto de Itaqueri possuem suas idades relativas ao Pleistoceno médio e Holoceno, porém ou, entretanto, apresentam-se com pouca espessura, devido incompetência dos processos de transporte num bloco submetido à relativa calma durante esse período, e com rede de drenagem muito débil. No caso das carapaças ferruginosas, os autores (op. cit.) atribuem no caso analisado como sendo elaborada entre o Plioceno e o Pleistoceno Inferior.
CASTRO (1979) em seu trabalho sobre a evolução do relevo do nordeste e seus depósitos correlativos, faz um apanhado geral sobre a importância das técnicas de sedimentologia e estratigrafia e sua utilização como ferramenta para o estudo dos depósitos associados. Também mostra a evolução de um tipo paisagístico diferenciado daquele encontrado na Região Sudeste, mas que passou pelos mesmos eventos que influenciaram a elaboração do relevo no Sudeste.
MOUSINHO DE MEIS & MOURA (1984) reconhecem na bacia do Rio Doce a presença de três gerações de rampas, prolongadas por cones aluviais, relacionadas a níveis de terraços fluviais. As descrições de campo foram acompanhadas de estudos de sedimentologia e datação por C14, permitindo caracterizar uma condição de resistasia
onde a morfogênese era atuante no final do Pleistoceno, atenuada no início do Holoceno com a instalação de um período de biostasia com maior estabilidade morfodinâmica.
MOURA et al. (1991) apresentam uma tipologia de complexo de rampa, representado pela articulação geométrica entre a superfície e as unidades deposicionais que recobrem os substratos rochosos. Esse complexo de rampas, baseado principalmente na forma topográfica das cabeceiras de drenagem, apresentam
superposição de colúvios e alúvios de texturas variadas, com horizontes orgânicos enterrados e datados por C14 em 10000 AP, marcando a transição Pleistoceno/Holoceno.
Muitos outros relatos sobre esse assunto foram realizados nos últimos anos sobre os depósitos correlativos e sua dinâmica, dentre eles, podem-se citar os realizados por MODENESI (1980, 1983,1988a, 1988b, 1989, 1992,1996) e MODENESI et. al. (1986,1992,1993,1996,1997,1998,2000,2002) MELO(1995,1996,1999a, 1999b, 1999c) que serão de grande valia como elemento de comparação para os dados obtidos nesse trabalho, dentre muitos outros, que buscam elucidar os processos relacionados ao modelado dos depósitos correlativos. Os dados apresentados nesses trabalhos foram de grande valia para a comparação com os dados obtidos neste trabalho.