Os métodos de sedimentologia têm sido amplamente utilizados para a análise do relevo e, dos eventos deposicionais ligados aos depósitos correlativos. CASTRO (1979) aponta a importância dos métodos sedimentológicos para o estudo da geomorfologia como uma ferramenta de grande utilidade, que permite vários tipos de análise (e. g., tipos de ambientes, propriedades químicas e físicas dos ambientes, tipos de movimentos, direção e velocidade do movimento, discordâncias, relevo na área de deposição, composição das rochas, clima durante a elaboração do depósito, condições tectônicas, litificação, intemperismo e correlações estratigráficas).
O entendimento das relações genéticas proporcionam recursos para uma melhor compreensão de sistemas deposicionais pretéritos e contemporâneos, e de uma reconstrução paleogeográfica mais significativa.
Tomando como ponto de partida a análise sedimentológica para os estudos do relevo, a morfoestratigrafia e aloestratigrafia têm sido largamente utilizadas para estes fins, pois, buscam através da análise dos depósitos reconstruir as paleocondições de sedimentação, e os eventos que desencadearam tais processos deposicionais.
MELLO (1997) observa a relevância do intercâmbio Geomorfologia/Estratigrafia utilizando-se a perspectiva de reconhecimento morfoestratigráfico, sendo possível, abordar as superfícies deposicionais como importante instrumento para o reconhecimento e mapeamento dos depósitos quaternários.
A respeito das unidades de análise deposicionais quaternárias, ETCHEBEHERE (2000) destaca que, por estas possuírem peculiaridades (e. g. , caráter descontinuo, pequena espessura relativa, similaridade fasciológica, profunda influencia de fatores climáticos e de alteração do nível de base, depósitos mais jovem em posição topográfica inferior) tornam-nas objeto de um enfoque diferenciado da litoestratigrafia
tradicional. Busca a estratigrafia de seqüência, com ênfase na importância nas quebras de sedimentação, disponibiliza de novos elementos de identificação mais pertinentes às análises dos sedimentos cenozóicos. Assim, buscou no estudo das descontinuidades (ou discordâncias) interpretar o significados dos depósitos e, seus eventos causadores e terminais. ETCHEBEHERE (op. cit) considera uma descontinuidade como uma superfície de não-erosão ou não-deposição, discerníveis no registro geológico, que representa uma interrupção significativa nos processos de sedimentação incidentes em uma área ou região. Já para SUGUIO (2001), as descontinuidades representam planos de tempo, e as unidades estratigráficas são essencialmente diacrônicas, constituindo importante base para uma classificação cronoestratigráfica.
Descontinuidades limitantes podem incluir inconformidades, superfícies de ravinamento, superfícies de inundação e, superfícies de omissão (BHATTACHARYA E WALKER, 1991A).
Assim, a aloestratigrafia torna-se uma ferramenta para os estudos dos depósitos sedimentares do Quaternário, pois busca evidenciar a atuação ou não de determinado evento, já que, os depósitos recorrentes no quaternário apresentam grandes variações fasciológicas.
Para MELLO (1997) o modelo de análise sugerido por BIGARELLA e colaboradores para a interpretação do modelado do relevo, proporcionou respeitável melhoria nos estudos de estratigrafia do Quaternário Brasileiro, mas que, ultimamente causam problemas em sua aplicação, se levados em consideração alguns de seus aspectos (e. g., reconhecimento complicado em campo de diferentes superfícies, assim como, suas correlações como os depósitos sedimentares. Não existe uma correlação cronogeológica bem determinada, sendo que, podem estar envolvidos também sedimentos terciários; o excesso de interpretações paleoclimáticas, já que mecanismos tectônicos podem ter também atuado no escalonamento das superfícies e, restringem a análise sedimentar a um caráter secundário)
Nesse sentido, com o auxílio da análise das unidades aloestratigráficas e morfoestratigráficas, estas permitem um levantamento dos eventos e dos depósitos relacionados a esses eventos para a reconstrução do relevo. Uma unidade
morfoestratigráfica é definida por FREY e WILLMAN (1962) como unidades operacionais que determinam corpos sedimentares identificáveis, primeiramente pela forma apresentada na superfície, podendo-se distinguir ou não pela litologia e/ou unidades adjacentes.
Entretanto, MEIS e MOURA (1984) ressalvam que as unidades morfoestratigráficas subordinavam muito a estratigrafia ao relevo. E que o conceito se restringisse apenas às condições em que fosse possível obter, com base em lito - ou aloestratigrafia, uma relação genética entre depósito e forma, sugerindo assim, o estudo de formas reconhecidamente deposicionais como os colúvios e os terraços, e do reconhecimento de unidades fundamentais de evolução da paisagem como as cabeceiras de drenagem em anfiteatro e as reentrâncias topográficas (Figura 16).
Figura 16- Modelo de formas deposicionais com camadas morfoestratigráficas modelando o relevo. A mostra a área de degradação do nível de base com reafeiçoamento da paisagem, e B com reafeiçoamento parcial da encosta. Fonte MOURA (1990)
Sobre unidades aloestratigráficas NACSN (1983) as definem como um corpo sedimentar estratiforme, mapeável, definido e identificado com base em suas descontinuidades limitantes (figura 17). Esta unidade pode englobar depósitos de litologias similares ou heterogêneas, contíguos ou descontínuos geograficamente, como
pode também, envolver grandes variações fasciológicas verticais e/ou horizontais internas. A hierarquia das unidades aloestratigráficas acompanha àquela das unidades litoestratigráficas, comportando uma unidade básica - a aloformação - que pode ser subdividida em alomembros ou compor unidades maiores, os alogrupos, mesmo ocorrendo para sua denominação.
Figura – 17-O esquema ilustra quatro unidades aloestratigráficas superpostas (1 – 4), definidas por descontinuidades traçáveis lateralmente (desconformidades e paleossolos). Notar que o conjunto sedimentar pode ser separado lateralmente em formações distintas, caracterizadas por aspectos texturais. Fonte MELLO (1995), modificado de NACSN, (1983).
De acordo com SUGUIO (2001) a utilização da Aloestratigrafia é proposta para depósitos quaternários, levando-se em consideração que, as abordagens tradicionais empregadas no estudo de seqüências sedimentares antigas, apresentam sérios problemas quando aplicadas na análise do registro quaternário, já que, um nível maior de detalhamento é exigido, tanto pela natureza descontínua e espessura delgada destes depósitos, e suas freqüentes similaridades e recorrências de fácies, ou seja, pelo registro paleontológico inadequado a análises estratigráficas, ou, além disso, pela reduzida disponibilidade de dados geocronológicos precisos.