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SOSYOLOJİK YAKLAŞIM: FİLM İNCELEMELERİ

4.1.1. Geleneksel ve Kültürel Yozlaşma

Neste subtópico, faremos uma pequena abordagem acerca de como podemos ver a memória nos estudos linguísticos. Entendemos que na maioria das teorias, que aqui são apresentadas, não havia um foco sobre a memória, tentava-se criar teorias que mostrassem o real da língua através da própria materialidade da língua, ou ao menos, o objetivo de ver esse real. Veremos, também, que a partir da década 60, podemos, em alguns conceitos como topos para Ducrot (1989) e a diferenciação lexical em Benveniste (1989), nos dá uma perspectiva de pensar a relação memória e língua, mais fortemente. A partir da década de 80, esses estudos vão deslanchar em algumas áreas que usam a linguística, como uma de suas bases (é o caso da Análise do Discurso), e, nos anos 90, podemos ver uma revista (Langages) dedicar um número inteiro para falar sobre a relação de memória, história e linguagem.

Para isso, tomaremos como pontos-base de reflexão dois textos, por conterem uma abordagem mais geral acerca da Linguística como ciência. O primeiro é de Michel Pêcheux, exposto incialmente em um seminário do DRLAV83, com o título

Considerações epistemológicas sobre os processos de constituição das teorias linguísticas, passando a se chamar, em outra versão, Sobre a (des-)construção das

teorias linguísticas. O autor francês esboça uma fala sobre como durante as décadas (de 1920 a 1980) poder-se-ia ver aproximação entre pontos de história epistemológica dessa disciplina, assim como alguns traços do processo histórico de conjunto no qual esta

história se inscreve (1999, p. 8). Não faremos uma discussão mais profunda sobre o texto, uma vez que já existem textos84 sobre isso, mas observaremos, através do traçado feito pelo autor, como podemos ver a memória perpassando os trabalhos linguísticos, já que nesse primeiro momento não há, com já dissemos, uma preocupação em pensar a memória.

O segundo é de Courtine, intitulado O tecido da memória: algumas

perspectivas de trabalho histórico nas Ciências da Linguagem, alocado como texto introdutório da publicação número 114 da revista francesa Langages85, publicada em

83 Vinculado ao Centro de Pesquisa da Universidade de Paris VIII. 84 Ver GREGOLIM, 2003, por exemplo.

85 Revista que abarca publicações com temas relacionados a reflexões sobre a linguagem. A Langagess número 13, intitulada L´analyse du discours, coordenada por Jean Dubois, assim como o livro Análise

1994, com o título Mémoire, historie, langage. Edição, aliás, contendo trabalhos de grandes autores como Sylvain Auroux, Christian Puech, Patrick Sériot, Denise Maldider, Guilhaumou e muitos outros, que, embora debruçados sobre objetos distintos, um filão comum os perpassa – a relação da linguagem, memória e história, ou ainda, em

que medida a memória determina a ordem do enunciável (COURTINE, 2006). Vemos já, a partir daqui, a língua e memória em relação.

É lógico que ambos os textos precisam ser lidos sem deixar de lado a conjuntura que estão imersos, levando em consideração, também, ao outro que se coloca a cada questão levantada pelos autores. Mas o que nos interessa aqui é mostrar que, embora os textos pesem sobre uma realidade europeia, principalmente sobre a França, Estados Unidos e Rússia, nos dão grande impulso para pensar a memória como uma construção e a linguagem como campo propício, no qual se possa ver isso não só acontecendo, sendo produzido, mas, também, produzindo memória.

Nos estudos histórico-comparativos, via-se menos o histórico e mais o comparativo, se a memória fosse vista nessa relação, ela estaria ligada a uma construção da memória do vocábulo, regrada pelas leis fonéticas. Ainda presente, de forma ressignificada, podemos ver, no espaço contemporâneo, fomentação de uma Linguística preocupada em reconstruir uma memória da língua através do levantamento do léxico, o que em nenhum momento é algo ruim. A título de exemplo, sem expormos algum tipo de análise, trazemos a figura abaixo:

Automática do Discurso, de Michel Pêcheux, ambos publicados em 1969, são tomados como marco simbólico do surgimento da Análise do Discurso na França.

Figura 13: Memória na Linguística86

Teríamos aí, um exemplo significativo, como, em alguns ramos da Linguística, pode-se ter uma concepção de memória.

Pêcheux, ao falar da Linguística pós-saussuriana, especificamente sobre o Curso de Linguística Geral (CLG), lança mão de autores para dizer que, o que se pode perceber, pelo menos até a década de 1980, é uma série de retomadas e negações diante do que se chamou corte saussuriano87 e, que, a partir dele, o estruturalismo pesará e significará de diferentes formas na constituição das teorias linguísticas.

Talvez o que pudéssemos pensar como memória nos trabalhos que bebiam em Saussure, como o de Benveniste88 e de Ducrot89, em certa medida, é no que Fiorin

86 Notícia retirada do site << https://www.deutschland.de/pt/topic/conhecimento/humanidade- ciencia/memoria-linguistica>>, acessado em 15 de janeiro de 2016.

87 Apesar de não adentrar nesta parte da reflexão, como teoria linguística, mas sim vinculada a uma espécie de teoria da interpretação, podemos perceber, e Pêcheux fala isso no texto, a própria Análise do Discurso parte de Saussure, em algum momento, senão para negá-lo, mas para mostrar o que porventura não fora abordado. Um exemplo disso é no texto de 1971 escrito a seis mãos por Pêcheux, Claudine Haroche e Paul Henry.

88 É visível a influência de Saussure em Benveniste. No texto de Pêcheux (1999), o autor traz um trecho do texto que Benveniste escreve em homenagem aos 50 anos do Curso de Linguística Geral: abarcando com o olhar esse meio século já decorrido, podemos dizer que Saussure certamente cumpriu seu destino.

(2014, p. 54), acerca do CLG e dos estudos de Hjelmslev, traz para refletir a historicidade da língua ao modo saussuriano:

O que Saussure faz na sua teoria do signo é separar radicalmente a linguagem da realidade. Com isso, o que ele propõe é que a ordem do mundo é diferente da ordem da língua, pois esta não é um reflexo da realidade, mas uma criação do homem. Portanto, é radicalmente histórica. A História é integrada à teoria por meio do conceito de valor, ou seja, sob o primado da forma. Este trabalho mostra então o que significa examinar a historicidade da linguagem sob o primado da forma.

Pensar a memória nos estudos que partem dessa ideia de Saussure, é poder dizer que a memória estaria nos vestígios tanto da conservação, quanto da mudança linguística, no léxico compartilhado pela comunidade, ora revisitado pelos causos comuns à atividade linguajeira, ora postos ao esquecimento, pelo próprio caráter da dinamicidade da língua. Estaria, também, talvez, a memória, ligada àquilo que nos faz enxergar a tradição e identidade da comunidade, pois uma língua vai armazenando seja

no léxico, seja na gramática, a história de um determinado povo. Dessa forma, é o mais poderoso depósito da tradição de uma dada comunidade (FIORIN: 2014, p.69).

Se voltarmos à época da passagem oral para a escrita, por exemplo, vestígios do que acabamos de apontar podiam ser visto, pois a memória coletiva se modifica com o surgimento da escrita, da criação das listas lexicais90, dos glossários, dos tratados de onomástica assentados na ideia de que nomear é conhecer (LE GOFF: 2013, p. 398).

Os círculos de Moscou, de Praga, de Viena, Copenhagen trazem uma relação ambivalente, mas todas numa relação, ora de aliança, ora de confronto com Saussure. Respectivamente, viam a língua numa relação com a sociologia, psicologia e com a lógica. Temos, ainda, as teorias bakhtinianas, que, só serão conhecidas pelo público europeu, tempos depois. A década de 20 traz, portanto, possibilidades diferentes de

Além de sua vida terrestre, suas idéias irradiam muito mais longe do que poderia ter imaginado, e este destino póstumo tornou-se uma segunda vida, que se confunde doravante com a nossa (BENVENISTE apud PECHÊUX: 1999, p. 9)

89 Em uma entrevista a Heronides Moura, 1998, publicado na revista Delta, perguntado sobre a influência de Saussure, em seus estudos, Ducrot responde: Certamente, tenho a pretensão de permanecer fiel a Saussure, mesmo se o que digo é bem diferente daquilo que dizia Saussure. Retomo de Saussure esta idéia que você evocou, segundo a qual as palavras não podem ser definidas senão pelas próprias palavras, e não em relação ao mundo, ou em relação ao pensamento. A diferença entre o meu trabalho e o de Saussure é que não defino, propriamente falando, as palavras em relação a outras palavras, mas em relação a outros discursos. O que eu tento construir seria então uma espécie de estruturalismo do discurso. (MOURA: 1998, s/p).

90 As listas podem ser um bom exemplo para mostrar como, através da língua, se passava a memória de uma cultura e influencia outras. É o caso das listas sumérias, que desempenhara um papel importante na difusão da cultura mesopotâmica, assim como fez com que esta cultura exercesse influência em outras zonas como Irã, Armênia, Síria, etc. (LE GOFF, 2013)

pensar a memória nos estudos linguísticos, ainda que isso não estivesse verbalizado ou desenvolvido. Ela estaria ligada a uma lógica, uma construção lógica semiótica do signo; a um psicologismo, uma memória cognitiva; a um processo mental do sujeito (ainda que seja num dialogismo). Essas visões retornarão no decorrer do processo de desenvolvimento das teorias Linguísticas.

Na década de 1950, diante de uma conjuntura pós-guerra, o funcionalismo ganha enfoque. Era importante o uso funcional da língua. A ideia de emissor e receptor dava, à teoria da informação, por exemplo, base para pensar como, antes de sujeitos falantes, estes seriam instrumentos de informação; O behaviorismo coloca a língua como um processo que pode ser predito e controlado através de estímulos; o marco tecnológico do matemático Alan Turing, que usa a linguagem matemática para pensar em uma forma de decodificar mensagens, causará, tempos depois, influência no uso da língua na linguagem computacional, produzindo tradutores automáticos, corretores automáticos e várias outras ações que farão essa ligação da língua e lógica (como percebemos, também, na figura 13).

Diante de tanto enfoque, às questões tecno-funcionais, que, por uma necessidade, instalava-se na sociedade da época, apesar de Jakbson91, a Linguística, por conseguinte os trabalhos realizados, volta-se para a relação da língua como uma

regulação funcional controlada (PECHÊUX: 1999, p.10). Língua e memória estariam numa relação ligação funcional, alocada dentro do próprio indivíduo, uma memória como funções psíquica, principalmente se olharmos o behaviorismo com sua técnica de estímulos e resposta.

A década de 60 é marcada por acontecimentos ambivalentes, a hegemonia dos trabalhos de Chomsky, sobre uma gramática transformacional, e o surgimento de uma Linguística que trazia para suas reflexões a enunciação ante um pensamento subjetivista

91 O autor, participante do círculo de Moscou e, em 1926, fundando o Círculo de Praga, traçou, meio à perspectiva técno(lógica) funcional, uma Linguística que visse a linguagem em funcionamento para além da lógica, unindo a Literatura e a Linguística, enquanto à primeira se encarregaria da arte verbal, a segunda é por excelência, a ciência encarregada de estudar a linguagem verbal, em todas suas manifestações (KIRCHOF: 2009, p. 62). Mais especificamente à Linguística, adentrou a questão do som, na qual coloca que a classificação dos sons só poderá surgir a partir do entendimento como eles veiculam. Diante disso, dá mote para a percepção que, para além dos estudos fonéticos, precisavam-se ter estudos fonológicos. Nesse autor, podemos perceber uma visão psicológica do sujeito e uma língua iminente ao sistema, assim como a história (quando das variações dos fonemas). Os trabalhos, hoje, que utilizam Jakobson para pensar memória, caminham em mostrar uma narrativa de memória ligada às funções da linguagem, como em Romanovsky (2010).

(Benveniste); assim como uma leitura ressignificada de Marx, Saussure e Freud (desta última falaremos no próximo tópico). Ou seja, enquanto no âmbito anglo-saxônico a relação era com a lógica e a biologia, na Europa, especificamente na França, havia uma corrida pelo saber, pelo entendimento da construção dos enunciados.

A memória em Chomsky, podemos dizer, estaria nas estruturas sintáticas da língua, é uma memória racional, lógica e biológica, uma vez que tenta explicar, de um ponto de vista lógico, a aquisição da linguagem, mostrando que as propriedades puramente estruturais da língua podem ser investigadas numa perspectiva matematicamente precisa.

Nesta época, também, Benveniste92 (1989) traz, para os estudos linguísticos, seu Aparelho Formal da Enunciação, que se debruça sobre como ver a instalação do

ego-ic – nuc, (eu, aqui e agora) na enunciação. Para o linguista francês, a língua é um

interpretante da sociedade, dito outramente, de que a sociedade torna-se significante na

e pela língua (BENVENISTE: 1989, p. 98), ao fazer uma análise acerca do trajeto de sentidos do substantivo menusier (carpinteiro) e do verbo amenusier (tornar menor), coloca em questão se haveria entre os vocábulos alguma relação.

De imediato percebeu que não, era preciso então verificar em que nível da língua esta relação podia ser restaurada e depois como e porque foi rompida. Segundo o próprio Benveniste (1989, p. 264) não se trata de um estudo histórico no sentido

tradicional do termo, mas de uma análise descritiva de uma relação observada em diversos estados sucessivos de uma evolução linguística.

O autor chega à conclusão de que, embora as palavras tivessem em consonância, assim como no grego, sem a interferência do latim, tomariam, no decorrer do tempo, significações distintas, na França. Diferentemente, da relação na língua grega, na qual essa ruptura não aconteceu. Em suas conclusões sobre o trabalho de análise, ele expõe:

Esta ruptura de relações formais entre signos muito vizinhos em favor de novos agrupamentos associativos é um fenômeno muito mais frequente do que parece. Seria útil fazer um estudo sistemático destes fenômenos, que tornam manifesta a vida mutável dos signos no seio dos sistemas linguísticos, e os deslocamentos de suas relações na diacronia (BENVENISTE: 1989, p. 277)

92 O locutor é, para o autor francês, a ancoragem dessas três categorias do discurso. Não nos deteremos profundamente acerca dos estudos benvenistianos, queremos, entretanto, trazer o que ele chamou, em Problemas de Linguística Geral II, de diferenciação lexical.

Isto posto, poderíamos perceber aí, uma prévia da necessidade que se fazia dos estudos discursivos e memória na atividade linguística, mas ao mesmo tempo uma entrada para esses estudos. A memória, imanente ao sistema estrutural da língua, necessitava quebrar barreiras e sair de uma visão fenomenológica.

Fiorin (2014, p. 69-70), leitor de Benveniste, e ainda sobre o Saussure do CLG (e, agora, poderíamos também dizer sobre Benveniste), expressa:

A língua não é uma nomenclatura que se opõe a uma realidade pré-categorizada, ela é que classifica a realidade. Em português, chama-se posse a investidura, por exemplo, na Presidência da República; em inglês, inauguration; em francês, investiture. A palavra portuguesa dá ideia de assenhorear-se de alguma coisa, de domínio; a inglesa indica apenas começo; a francesa diz respeito ao recebimento da uma função. Esses termos têm, sem dúvida, relação com a maneira como concebemos o poder do Estado.

Saussure, com sua teoria do signo, em que se desnaturaliza a linguagem e em que os dois conceitos determinantes são a arbitrariedade e o valor, ao contrário do que diz certa vulgata, não esvazia a linguagem de sua historicidade, mas mostra que um sistema só pode ser uma construção histórica.

E se o sistema é histórico, traz consigo uma memória que é construída, também, historicamente. Segundo Rabatel, os trabalhos de autor francês acerca do aparelho formal da enunciação fecharam pistas que o próprio Benveniste começou a

explorar (RABATEL: 2013, p. 19), mas não podemos esquecer que , considerável de

Benveniste, é de determinar sob quais formas, e segundo quais modalidades, se manifesta a subjetividade na enunciação, e , além disso, em toda a enunciação désembrayée. (ibdem, p. 24).

Nos anos oitenta temos um duplo nos estudos da língua, pois se de um lado vemos um anti-saussuriarismo, um anti-chomskismo que finaliza a influência hard estruturalista; por outro, as linguísticas que surgem (uma do cérebro e uma social) criam uma aversão inconsciente pelo próprio da língua. Apesar disso, é também nos anos 1980, que vemos uma ligação mais direta entre memória e língua, principalmente através do grupo de Pêcheux.

Ducrot93 (1989), assim com Benveniste, parte de uma visão enunciativa da

linguagem. Já em contato com as análises discursivas, inclusive, cintando Pêcheux

93Ducrot falado interior da “Pragmática Semântica” ou da “Pragmática Linguística”, ligado à gramática. O enunciado, na perspectiva que se inscreve, é uma instância observável, uma ocorrência do aqui e do agora de uma frase. O discurso, para este autor, também não pode confundir-se com o discurso da Análise

como referência em seu livro – O dizer e o dito –, busca retomar para os estudos linguísticos, o próprio da língua. Mas interessa-nos mais mostrar que ao propor a teoria dos topoi, adentra, talvez sem entrar em suas questões, a necessidade de se pensar uma memória. Formula da seguinte forma a noção:

Compreendo os topoi muito mais como possibilidades discursivas, como possibilidades de encadeamentos discursivos, e quando afirmo que uma palavra é um feixe de topoi (‘paquet de topoï’), entendo por isso que ela abre um leque de encadeamentos possíveis, e não vários tipos de inferências ou deduções (...) Quando afirmo que o topos é complexo, não deve se entender com isso que ele é complexo no nível nocional, no sentido de que ele seria um amálgama de noções pré-existentes. Ele é complexo em função das frases envolvidas.

Mas, mesmo vendo esse processo que se instaurava no enunciado, a preocupação de Ducrot não era sair do sistema da língua, ao contrário, era mostrar como, através dela, podia-se perceber essas vozes nos enunciados. Observamos, no entanto, que o topoi, um lugar de relação de que cada ponto de vista faria relação, que garantiria, legitimaria o dito, uma espécie de memória (ou ainda interdiscurso) que asseguraria que o sentido fosse instalado, acaba mais tarde saindo de sua teoria.

No entanto, de todos esses empreendimentos linguísticos94, é possível, concluir, que a memória seria vista sempre como fenômeno, como fato natural, localizado no sujeito, este, ora biológico, psicológico, empírico. Uma crítica que Pêcheux (1999) faz, ao modo que os Linguistas olharam para a língua até a década de 1980, é justamente acerca de dois principais pensamentos: de um sujeito que age sobre a língua a seu contento; de uma Linguística com preocupações que fugiam do real da língua, caminhando para fora das questões da língua.

(...) o paradoxo da língua toca duas vezes na ordem da regra; pelo jogo nas regras, e pelo jogo sobre as regras.

Pensar a língua como simples jogo nas regras, apresenta sempre risco de cobrir o espaço próprio do que regulamenta o real da língua, substituindo-o por regras (bio)-lógicas de engendramento das arborescências sintáticas, constrangidas pela semântica de "sistemas de conhecimento" do Discurso. Para Ducrot, uma vez que o enunciado é fragmento do discurso (visto ainda no âmbito da estrutura da língua), o discurso pode tanto se constituir de vários enunciados, como também de apenas um único enunciado.

94 Mesmo não sendo linguista, os primeiros empreendimentos da Análise do discurso, tomavam como enunciado a materialidade linguística, como vimos no tópico sobre Condições de Produção. Nessa fase a noção de formações imaginárias (ver PÊCHEUX, 1993). Ainda na fase intitulada AAD 69, as críticas que se levanta é em relação a formações imaginárias, uma vez que o uso desse conceito acabava dando um poderio ao sujeito, que não lhe cabia, recaindo na concepção de sujeito psicológico. Essa noção será silenciada nos trabalhos futuros e substituída pro outras reflexões.

(discursivamente estabilizados em relações temáticas e em formas lógicas), ou por regras de jogos de linguagem translinguísticos a partir das quais o registro social do pragmático e do enunciativo escaparia ao "próprio da língua", desmascarando, desse modo, o estatuto fictício deste último (PÊCHEUX: 1999, p. 27)

Fechando sua reflexão sobre a desconstrução das teorias linguísticas, Pêcheux vai dizer que é, na materialidade linguística, o fenômeno sintático que

toca de mais perto no próprio da língua enquanto realidade simbólica com a condição de dissemetrizar o corpo de regras sintáticas, construindo aí os efeitos discursivos que o atravessam, os jogos internos destes “espelhamento” léxicos-sintáticos, através dos quais toda uma construção sintática deixa