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No processo de produção da Lei de n. 281, o ensino primário noturno, ou o ensino dos adultos, esteve ausente dos debates. O texto final da Lei também não dedicou nenhum dos seus trinta artigos à questão das escolas primárias noturnas. Mas, se até o momento da votação, o texto da lei da reforma afetava a maior parte da população mineira, moradora das áreas rurais, a sua regulamentação acabou aumentando ainda mais os efeitos antidemocráticos e excludentes ao incluir na listagem de escolas extintas as escolas noturnas. O movimento iniciado, desde os primeiros passos da República,

tornar-se-ia agora mais forte diante das novas medidas advindas da regulamentação da citada Lei.

A primeira medida fora determinada pelo Decreto de n. 1.353, de 190024 - que executou o disposto nos artigos 3º e 11 da Lei de n. 28125

A Câmara Municipal da Cidade de Conceição, conhecedora do zelo que anima a todos os atos da vossa patriótica administração, reconhecendo a grande vantagem que advém aos habitantes desta cidade com a conservação

. Como conseqüências dessa exceção foram extintas praticamente todas as escolas noturnas do Estado, mantendo-se somente a escola noturna da Capital, Ouro Preto. Para executar essa medida, o Presidente do Estado Francisco Silviano de Almeida Brandão determinou a realização de um recenseamento escolar, durante o ano de 1900.

Atendendo aos princípios mesológicos, a reforma não poderia prescindir de um amplo conhecimento da real situação do ensino ao longo do seu vasto território, bem como da identificação das localidades de maior importância para o Estado. Nesse sentido, o recenseamento, de acordo com o Presidente, visava à melhor distribuição das escolas pelo território mineiro e a contribuir para a fiscalização do cumprimento da obrigatoriedade escolar. Os dados parciais, apresentados na Mensagem do Presidente, indicavam que nos 530 distritos, constitutivos de 97 comarcas, havia 1480 cadeiras de instrução primária, sendo 476 urbanas e 1.013 distritais. Com a execução do Regulamento essas foram reduzidas ao número de 1400, entretanto, como as informações eram ainda parciais a redução poderia ter sido superior a oitenta escolas. (BRANDÃO, 1901, p. 19)

A repercussão do cumprimento do Regulamento se fez sentir de imediato, como pode ser constatado nas várias correspondências dirigidas ao Legislativo e ao Executivo, por diversas autoridades locais. Uma dessas correspondências, enviada à Câmara dos Deputados, logo após a promulgação do Decreto, pede a conservação da escola noturna da cidade:

24 Decreto de no 1.353, de 17 de janeiro de 1900, que executou o disposto nos artigos 3º e 11

determinando o número de escolas primárias do Estado, em 1400 escolas. Sobre as escolas noturnas, determinou, no art. 2º, que somente fosse conservada a criada em Ouro Preto, pelo decreto n. 426, de 16 de março de 1891. (MINAS GERAIS, 1900, p. 181).

25 A saber: Art. 3 º da Lei n. 281: O número de escolas em cada distrito será determinado pela densidade

da população e importância da localidade. Art. 11. A supressão de cadeiras de instrução primária será feita de preferência dentre as de criação mais recente e as de menor freqüência (MINAS GERAIS, 1900, p. 181).

da escola noturna que tem nesta funcionado, a qual, além de regularmente freqüentada, tem sido regida por um professor normalista zeloso e de reconhecida aptidão, vem pedir-vos a manutenção da mesma escola26.

Também o Inspetor Municipal da Comarca de Entre Rios, Sr. Joaquim Ribeiro de Oliveira, em correspondência enviada à Câmara a 12 de janeiro de 1900, comentou a extinção das escolas rurais: “lastimo o mal que causa a esta Comarca o novo regulamento suprimindo as escolas rurais e professores provisórios, pois priva da instrução cerca de 200 meninos matriculados, além dos que teriam de entrar por atingirem a idade legal” (OLIVEIRA, 1900). Meses depois, ainda sentindo profundamente os efeitos das medidas restritivas, o inspetor ratifica seu posicionamento acerca do Regulamento do ensino, em correspondência datada de 26 de maio de 1900:

Peço a vossa permissão para externar o meu posicionamento quanto ao atual regulamento. Fazendo-o manifesto a V. Ex.a

Os abaixo assignados moradores da povoação do Japão Grande, distrito do Japão, município de Oliveira confiados no zelo e patriotismo de V. Exa. vêem respeitosos e cheios de confiança fazer o mais justo dos pedidos, como passam a expor: Pela lei geral de supressão das cadeiras rurais e noturnas, infelizmente a que aqui possuíamos e que grandes e reais serviços prestavam à instrução do grande número de alunos que a freqüentava, foi esta também incluída no número causando enorme prejuízo a mocidade deste lugar, que mais do que qualquer outro, necessita de uma escola pública. E, como V. Exa. sabe, na época presente a instrução popular é a verdadeira aspiração o meu profundo sentimento pela supressão das escolas rurais, as quais eram regidas nesta Comarca por pessoal docente muito competente, sendo, no entanto provisórios. Ficaram privados de ensino, com tal supressão, duzentos e trinta alunos, sendo que o ensino obrigatório abrange o raio de 1 ½ quilômetro para o sexo masculino e de ½ para o feminino, ficando o resto da população em completa ignorância (OLIVEIRA, 1900).

Continuando a externar sua posição de discordância em relação à política adotada pelo Governo, advertiu que “as medidas de economia tomadas pelo governo, em vista da crise por que passa o Estado são louváveis, mas entendo que não deveriam atingir ao ponto de privar o Estado do elemento primordial para o seu progresso, o qual é a instrução do povo” (OLIVEIRA, 1900).

Outra manifestação contrária à determinação do Regulamento constou da correspondência enviada ao Presidente do Estado, pelos moradores de Japão Grande, em 26 de agosto de 1900, como se pode ver:

Elmo. e Exmo. Sr. Dr. Francisco Silviano S. Brandão

26Assinaram o documento: Francisco C. de Miranda; José Ignácio de Araújo Lima; Pe. Bento de

Madureira e Silva; Bento de Assis Ribeiro; Bento José da Silva; Bernardino do Nascimento; Joaquim Soares Maciel Junior; Quintiliano Augusto; José Jorge. (Papéis findos – 1900. 4ª secção. APM. SI 2747)

nacional e os próprios poderes públicos o tem demonstrado em todos os tempos criando cadeiras nas mais insignificantes povoações do Estado. Os abaixo assignados na justiça e rectidão de V. Exa. pedem-vos a restauração do ensino da cadeira que aqui tínhamos. (SECRETARIA..., 1900)

Como se pode constatar, as medidas restritivas provocaram reações negativas, como esperado pelos deputados mineiros, levando tanto autoridades locais quanto sujeitos anônimos a se unirem para reivindicar o direito à instrução primária, tão proclamado pelos Poderes Públicos como ressaltaram os moradores do Japão. Ao que tudo indica os clamores da população não foram em vão, pois no mesmo ano um novo debate reascende os ânimos dos deputados mineiros em torno do Projeto de n. 53.

3.8. A tentativa de reverter o processo de extinção das escolas