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5. ISPARTAKULE ÖRNEĞİNDE EN ETKİN VE VERİMLİ KULLANIM

5.1 Verimlilik Analizi

5.1.1 Gayrimenkulün Tanımı

“Estas coisas falou Jesus, e partindo ocultou-se deles” (12.36b). Tau/ta evla,lhsen VIhsou/j( kai. avpelqw.n evkru,bh avpV auvtw/nÅ

“Estas coisas tenho dito a vós, permanecendo junto a vós! (14.25). Tau/ta lela,lhka u`mi/n parV u`mi/n me,nwn\

No primeiro caso, o narrador onisciente em terceira pessoa registra o final do ministério público de Jesus: “Estas coisas falou Jesus [...]”. No segundo caso, o personagem em primeira pessoa, Jesus, está encerrando a nossa perícope: “Estas coisas tenho dito [...]”. Fechamos nossa moldura redacional de 14.1-27, o bloco do discurso de despedida que atinge o seu apogeu de revelação e ressignificação de profecias do AT e tradições judaicas:“σão se perturbe vosso o coração” (Mh. tarasse,sqw u`mw/n h` kardi,a\ — 14.1) e “...não se perturbe vosso o coração nem mesmo tema” (mh. tarasse,sqw u`mw/n h` kardi,a mhde. deilia,tw — 14.27b).

“Paz dou (a) vós, paz a minha dou (a) vós! Não como o mundo dá eu dou (a) vós. Não agite vosso o coração nem mesmo tema” (v.27). Nesse cenário de sentido profundo de revelação, Jesus se despede deixando a paz (eivrh,nhn) — a paz de Jesus, não a do mundo. Se lembrarmos de que Jesus é um judeu, é possível que ele estivesse oferecendo a paz judaica, cujo sentido é diferente da Pax Romana.

O termo paz aparece 92 vezes no NT, com exceção da carta 1 João, em que não o encontramos. No QE ocorre duas vezes em 14.27 e em 16.33.

Por trás das palavras de despedida do QE em 14.27 e 16.33 se encontra a autoridade do revelador, enviado aos seus escolhidos, que se encontram num cosmo hostil a Deus. A eles os deixa a sua Paz supraterrenal que consiste na unidade do Pai com o Filho. As repetidas saudações do Ressuscitado em 20.1λ.21.26 “Paz (a) vós” (eivrh,nh u`mi/nÅ) demostram que os discípulos, em meio à angústia que aflige o mundo, permanecem unidos dentro da segurança indestrutível intradivina. A estrutura dualista do pensamento joanino separa o conceito ôntico da Paz das ideias de “Shalom” próprias da apocalíptica, e impede uma hipótese da Paz antecipatória e escatológica.84

O Shalom hebraico, saudação habitual dos semitas, não se trata de uma fórmula banal. O termo é de grande densidade e concretamente se refere à integridade territorial. Usualmente é traduzido por “paz”. Sh-L-M, radical de Shalom no hebraico, significa, igualmente, unidade, integridade física e moral. Quando se quebra um giz, pode ser dito que a paz do giz foi quebrada. Naturalmente no ocidente ninguém entende assim, mas para os semitas a associação é evidente. Frequentemente entre os árabes o radical S-L- M significa íntegro.85

84 BALZ, Horst; SCHNEIDER, Gerhard. Diccionario exegético del Nuevo Testamento. Salamanca: Ediciones Sígueme, 2005. v.1, p. 1204-5.

85 “É por isso que, fora do contexto confundente semita, é extremamente enigmática a formulação do apóstolo Paulo, que, escrevendo em grego (mas pensando com sua cabeça semita) diz que ‘Cristo é nossa

Diante do campo semântico de Shalom, é possível que Jesus, que era judeu, e o narrador implícito estejam se referindo a uma paz concebida em termos de integridade humana física e espiritual, a integridade e a plenitude de Jesus. Essa provavelmente é a paz diferente daquela que o mundo dá. Ela não se refere à integridade territorial, mas à integridade humana. “Jesus vai contra o escândalo de sua morte, do fracasso aparente, e os incentiva a ter inteira confiança em Deus e em si mesmo [...] sugere que a paz interior profunda dada ao fiel é fruto da vitória de Cristo sobre a morte”.86

Essa “Paz” que Jesus transmite ao seu discipulado é como que uma síntese de tudo o que realizou, satisfazendo a vontade do Pai. Jesus deixa como testamento a sua Paz para quem se habilita a participar de sua luta vitoriosa sobre as forças deste mundo. Trata-se de uma Paz que o mundo desconhece, isto é, que nada tem a ver com “Pax” romana, paz de aparências. A Paz que Jesus dá é algo que brota do mais profundo de uma vida que soube testemunhar a vontade do Deus da Paz.87

“O Pai é maior do que eu”

Embora Léon-Dufour sugira uma pergunta, pois segundo ele o contexto assim insinua, outros atribuem uma afirmação para o excerto abaixo. Também nós assumimos a frase como uma afirmação.

“τuviste o que eu vos disse!” (v.28). hvkou,sate o[ti evgw. ei=pon u`mi/n\

paz’ (Autos gar estinhe eirene hemon. Ef 2, 14), fórmula que os cristãos ocidentais repetem devotamente, mas sem compreender seu significado. E quando examinamos a razão pela qual o apóstolo afirma que Cristo é “nossa paz”, aí a perplexidade do Ocidente torna-se total: ‘Cristo é nossa paz porque Ele quebrou o muro... (!?) e de dois fez um’. O que, para um semita, é totalmente natural.

Em outras palavras, tanto para o árabe quanto para o judeu, a integridade territorial e a paz são pensadas confundentemente como uma única realidade: se faltar um milímetro quadrado do que se considera ser seu território, não há paz. Por contraste, imaginemos que o Rio Grande do Sul pretenda separar-se do Brasil e constituir uma ‘República Farroupilha’. E que tal proposição seja referendada amplamente por um plebiscito, no qual os demais estados da União concordassem, de boa vontade, com essa separação. Nesse caso, nenhum de nós diria que houve uma quebra de paz (pelo contrário, promover-se-iam até churrascos ‘binacionais’ de confraternização...). Já para um árabe ou um israelense, para quem paz contém, ‘confunde’, muito mais do que ‘não-guerra’, é inconcebível uma subtração de território que não fosse quebra de ‘paz’. É o que diz numa entrevista um árabe que passou muitos anos no Brasil antes de retornar para o Líbano: ‘Paz - Ouvindo o jorro de esperança, o comerciante ‘batrício’ Abdul Razak Masjzoub interrompe, nervoso:

‘Tem obstáculo muito grande para a paz. (...) Paz que estão fazendo não justa: cadê Jerusalém? Cadê o sul do Líbano? Para dar certo, o paz tem que ser geral. Devolver tudo ocupado. Isto se chama paz’ (O Estado de S. Paulo 20-10-93, A 11)”. LAUAND, Jean. Pensamento confundente e neutro em Tomás de Aquino. Notandum, n. 14, p. 16-17, 2007.

86 LÉON-DUFOUR, 1996, v. 3, p. 99.

87 CORREIA JUNIOR, João Luiz. Raízes religiosas da palavra “paz”: um olhar a partir das sagradas escrituras judaico-cristãs. Revista de Cultura Teológica, v. 13, n. 52, p. 62, jul./set. 2005.

Um imperativo afirmativo, usado para expressar ordens e conselhos, o discurso retoma os pontos-chave “vou e venho” (u`pa,gw kai. e;rcomai). O narrador implícito, ao lado da paz que Jesus outorga, quer também despertar a esperança no GJ como um sentimento básico.

O termo disse (ei;rhka) está alinhado com o termo dito (lela,lhka) do v.25 e permeia todo o discurso de despedida. O acontecimento-chave é a partida de Jesus, que deve perder a sua característica apavorante de desamparo e aflição. Daí Jesus anunciar o já ainda não, presente e futuro.

Jesus não falará muito, pois o chefe deste mundo está chegando — fato estranho narrado com a finalidade de encerrar o discurso, possivelmente levantando os rivais do GJ, os que querem quebrar a comunhão entre o GJ. Para eles, quem age em Judas Iscariotes é Satanás. Assim como a entrada de Israel na Terra Prometida, a caminhada do GJ exige que se enfrentem obstáculos, outros grupos, conflitos de identidade.

É necessário que o mundo saiba que Jesus venceu o dominador deste mundo, ainda que sua morte cause vergonha. Em seu discurso ele deixa a paz de Cristo, pois ele rompeu com a morte. Não há para o “mundo” perspectiva de vitória nesse confronto. Isso deve ser assumido pelo GJ para criar a sua marca identitária, a marca da comunidade do caminho. Jesus tomou a dianteira!

“Vem, pois o líder do mundo” (v.30) e;rcetai ga.r o` tou/ ko,smou a;rcwn\ “δevantai-vos vamos daqui!”(v. 31b)

evgei,resqe( a;gwmen evnteu/qenÅ

Deparamo-nos aqui com um problema estrutural do discurso. Essas palavras indicam um movimento imediato de Jesus e seus discípulos, como se eles fossem prontamente ao encontro do inimigo deste mundo que se aproxima, possivelmente os arcontes deste mundo (termo helenístico). Entretanto, no capítulo 15 Jesus inicia ou continua o seu discurso de despedida, prossegue como se não houvesse interrupção. Apenas em 18.1 observamos uma mudança de cenário.

O advérbio de lugar daqui (evnteu/qen) é dinâmico e o encontramos em 2.16 e 7.3 com intenção clara de movimento, ação (“tirai estas coisas daqui” e “sai daqui e vai para

Judeia”), como localização espacial transcendental em 18.36 (“[...] meu reino não é daqui”) e como localização geográfica em 19.18 (“[...] dois desse lado e daquele”), todas as ocorrências alinhadas em movimento, mesmo a transcendental — o que nos faz pensar em Mc 14.42, quando Jesus no Getsêmani, em seu momento de pavor e angústia, pede aos discípulos que sentem e esperem enquanto vai orar, mas ao retornar os encontra dormindo.

Tem sido sugerido que os capítulos 15-17 são um acréscimo posterior do redator, “alguém bem pouco cuidadoso, para não perceber a dificuldade criada com isso”88. Outra explicação seria a seguinte leituraμ “τ Príncipe deste mundo está

chegando. Ele não tem nenhum direito sobre mim; mas para mostrar ao mundo que amo o Pai, e faço exatamente como ele ordena — Levantai-vos, vamos ao seu encontro!”89.

Provavelmente o mais proveitoso seja tentar compreender o uso dos termos empregados nesse versículo pelo narrador implícito. A ideia adversativa iniciada com “mas para que” (avllV i[na) e que segue se alinhando com “faço” (poiw/) mostra que Jesus decididamente sai ao encontro do líder deste mundo, vai ao encontro da sua morte. Jesus conhece o amor do Pai e o demonstra com sua entrega pessoal ao inimigo; “o que deve soar estranho seria ‘o mundo’ ser capaz de conhecer o amor de Jesus ao Pai”.90

Conclusão

O tema de nossa perícope em 13.33-14.31, proferido em um local possivelmente fechado, junto aos seus discípulos a quem ama até o fim, é um discurso de orientação feito por Jesus com a finalidade de legitimar as marcas identitárias do GJ.

Entre os discípulos, como sinal de pertença ao grupo, ligada à percepção dos conflitos o autor apresenta a necessidade de amar um ao outro. Parece que o ódio, a raiva está prevalecendo no mundo.

No grupo joanino a autoridade parece ser exercida pelo Espírito Santo, que conduz os discípulos à plenitude da Verdade, fazendo-os compreender o sentido das palavras de Jesus (14.26; 15.26; 16.31). A ele cabe a função de

88 DODD, 1977, p. 538. 89 DODD, 1977, p. 540.

autêntico Mestre, que ajuda a preservar a tradição recebida e a atualizá-la nas diferentes circunstâncias da vida da igreja.91

Provavelmente os conflitos vividos pelo GJ e a multiplicidade de ideias fazem com que o narrador implícito tome uma posição. Assim sendo, o grupo registra as suas crenças (crer em Deus e crer em Jesus), sua linguagem (filhinhos), seus ritos (cena do lava-pés, o batismo), promessas (quem crê em mim fará as obras que faço e fará até maiores que elas), regras (amar um ao outro), tratado (vida eterna), um mestre autenticado (Espírito Santo, o espírito da verdade) não apenas como uma tradição, mas como atitudes que devem ser praticadas diariamente, passando de geração a geração (vida eterna).

Temos um grupo que inicialmente “prefere optar por uma estrutura carismática92”. O Espírito Santo, o espírito da verdade, o Paráclito, este deverá ser a

autoridade, o mestre do GJ. Não encontramos no texto uma autoridade humana. A hierarquização irá ocorrer mais à frente, na institucionalidade, quando acontece uma valorização de Pedro (21.19-20).

Em “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (14.6), Jesus é o personagem protagonista dos acontecimentos de toda a narrativa de nossa perícope. Nessa frase quiástica temos uma relação tensa e perturbadora entre as metáforas que não perdem o seu significado original, chamando atenção do leitor para o centro da frase: a verdade. Logo, a verdade parece ser um drama de dimensões cósmicas que contém a despedida da vida para morte e desta para a ressurreição do filho. O narrador implícito direciona a narrativa com o objetivo da revelação identitária de Jesus e do GJ a partir da produção de sentido do imaginário desse grupo contemplado com o “cânone da verdade”.

91 NASCIMENTO, Carlos Josué Costa. Do conflito de Jesus com os judeus à revelação da verdade que liberta em João 8,31-59. 2010. 330 f. Tese (Doutorado em Ciências da Religião) — Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2010, p. 244-245.