A primeira categoria diz respeito às práticas de Leitura e exploração de textos desenvolvidos pelas professoras de LP de 4º ano. Conforme sugerem autores da área da alfabetização, os textos reais (que circulam na sociedade) devem ser a base para o ensino, tanto da leitura como da escrita, portanto, buscou-se investigar se as professoras utilizaram o texto em suas práticas, bem como de que forma ocorria a exploração destes, de modo que favorecessem o aluno em processo de alfabetização (SOARES, 2003, 2005, 2016; MORAIS, 2006, 2008; LEITE, 2006).
A PROFA C utilizou o gênero textual poema em sua prática. Inicialmente, a professora fez a predição do texto a ser lido, indagando se os alunos já brincaram ou conheciam a Brincadeira do “não me toque” (título do poema). Os alunos disseram que já brincaram e começam a falar sobre. Em seguida, a professora disse que leria o poema e pediu
que eles prestassem atenção e acompanhassem. Após a sua leitura, a professora dividiu a classe em três grupos e pediu que os alunos lessem partes do poema. Os alunos fizeram a leitura. Nesse momento, a professora se aproximou de um aluno com dificuldades na leitura e colocou o dedo para mostrar onde os demais alunos estavam lendo.
Em seguida, a professora explorou o texto de forma literal7 (título, autor, assunto) e realizou perguntas individuais aos alunos. A pergunta feita ao aluno com dificuldades requeria que o mesmo encontrasse a relação entre o corpo do poema e seu título. O aluno não conseguiu interpretar. A professora o ajudou dando pistas e pedindo que ele relesse o poema. Por fim, a professora deu a resposta e explicou ao aluno. Outra aluna questionou a resposta, mas a professora disse que o que ela pensou não tinha a ver com a resposta correta. À medida que os alunos deram as respostas, a professora escreveu na lousa, e fez algumas perguntas sobre a forma da escrita correta: letra maiúscula ou minúscula, por quê? / Determinado “porque” escreve-se junto ou separado?
Diante do exposto, podemos perceber que essa professora realizou algumas tipologias de perguntas sobre o texto sugerido por Brandão e Rosa (2015) a fim de que os alunos compreendessem o texto lido, por meio da predição do texto e das perguntas do tipo literais. Outro ponto relevante na metodologia de ensino adotada pela professora refere-se à participação dos alunos de forma individual, pois desse modo ela poderia acompanhar o desenvolvimento dos mesmos quanto à compreensão do texto lido, conforme orienta Zabala (1988).
A PROFA B iniciou a aula lendo um livro do gênero textual fábula para os alunos, cujo título era “O Velho, o menino e o burro” (LA FONTAINNE). Após a leitura, a professora perguntou o que eles entenderam da história. Poucos alunos expuseram opinião, em seguida a professora fez as suas considerações. Em um segundo momento, a professora pediu que os alunos abrissem a apostila PAIC e leu outro texto que tratava do tema "preconceito" e relacionou-o à fábula lida no início da aula. Perguntou em seguida: o que havia em comum entre os textos? Os alunos já se sentiram discriminados? Como eles reagiram? Poucos alunos comentaram sobre o assunto e a professora começou a interpretar o texto e os alunos escutaram.
Em seguida, os alunos foram solicitados a fazer a leitura compartilhada do texto, onde o aluno da primeira fila começou lendo a primeira frase do texto e assim
7 Perguntas literais ou objetivas visam chamar a atenção do leitor para informações explícitas no texto, que
podem ser localizadas numa releitura ou lembradas na situação de retomada oral do que foi lido (Brandão e Rosa, 2010 apud LEAL; ROSA, 2015, p. 36).
sucessivamente. Quando chegou o momento do aluno que não sabia ler, a professora naturalmente o “pulou”, excluindo-o da atividade. Vale ressaltar que, devido ao comprimento do texto (era curto), outros alunos também não participaram da leitura.
A prática pedagógica executada pela professora deixou alguns pontos a desejar, pois apesar de iniciar a aula lendo um texto, possibilitando que os alunos convivam com a prática da leitura, não houve, por parte da docente, a exploração do gênero textual fábula, bem como não incentivou os alunos a explorarem elementos do texto antes de lê-lo, necessários para uma boa compreensão, como o autor, desenho da capa, título etc., deixando a interpretação do texto somente para depois de lido. (SOLÉ, 1992)
Outro fato a se considerar, refere-se à atitude da professora em excluir o aluno com dificuldades da atividade de leitura, demonstrando que a mesma não desenvolveu estratégias que permitissem a participação de todos. Nesse sentido, não houve um planejamento flexível, adaptável às necessidades dos alunos. Conforme reitera Zabala (1998),
Dada a diversidade dos alunos, o ensino não pode se limitar a proporcionar sempre o mesmo tipo de ajuda nem intervir da mesma maneira em cada um dos meninos e meninas. É preciso diversificar os tipos de ajuda; fazer perguntas ou apresentar tarefas que requeiram diferentes níveis de raciocínio e realização; possibilitar, sempre repostas positivas, melhorando-as quando inicialmente são insatisfatórias; não tratar de forma diferente os alunos com menos rendimento; estimular constantemente o progresso pessoal. Mas também é imprescindível diversificar as atividades, a fim de que os alunos possam escolher entre tarefas variadas e propor diferentes opções ou níveis possíveis de realização (p.98).
A PROFA A tinha a finalidade de explorar a pontuação presente no texto do gênero piada. Apresentou, para tanto, uma aula expositiva, com a participação dos alunos sobre os sinais de pontuação presentes em diversos textos: (.) ponto final, (!) exclamação, (,) vírgula, (:) dois pontos, (–) travessão e (?) interrogação. A professora explicou que a pontuação existente nos textos determina a entonação da voz na leitura. Deu exemplos com frases pré-selecionadas presentes em um material de xerox (todos acompanham pelo material).
A professora fez uma primeira leitura do texto do gênero piada e solicitou que os alunos a escutassem com atenção, explicando em seguida que esse tipo de texto tem a finalidade de fazer rir. Logo, perguntou se os alunos acharam o texto engraçado e o porquê. Nesse sentido, a professora instigou a capacidade do aluno em inferir informações de um texto. Além disso, a escolha do texto favoreceu ao interesse dos estudantes, que demonstraram gostar de ouvir e ler o texto piada. Segundo Solé (1992), ao ler um texto, o leitor tem variados objetivos, dentre eles está: ler por prazer.
Em seguida, a docente entregou para os alunos o texto contendo algumas lacunas e solicitou que eles colocassem a pontuação mais adequada para cada situação, após fazerem uma leitura silenciosa.
Inferimos que a intenção dessa professora foi mostrar aos alunos que a leitura é a representação da fala e que por isso as marcas gráficas (pontuação) têm a função de orientar o leitor e indicar como deve ser o seu comportamento enquanto lê (PACHECO, 2006). Desse modo, a professora ensinou uma estratégia usada na leitura favorável à compreensão, essencialmente voltada para a técnica da escrita.
Ao corrigir a atividade, a professora leu o texto fazendo as pausas a cada lacuna anteriormente proposta e perguntou o que os alunos colocaram em cada espaço. Os alunos cometeram alguns equívocos, que foram prontamente corrigidos pela professora, que deu algumas dicas de quando usar determinada pontuação, como: uso do (–) travessão antes da fala de um personagem, uso da vírgula (,) quando se faz pequenas pausas e uso de interrogação (?) para as perguntas.
Como vimos, a professora optou por fazer uma análise ortográfica (técnica de leitura) do texto do gênero piada, por meio dos sinais de pontuação. Percebemos que a maioria dos alunos compreendeu quando usar a pontuação correta em alguns casos. Ademais, o texto já continha os espaços para que os alunos colocassem os sinais de pontuação que considerassem adequados, limitando que as próprias crianças pensassem sobre a pontuação ou percebessem-na no texto discutido (MORAIS, 2008).
A professora C1 utilizou em sua prática o gênero textual tirinha do tipo não verbal. A professora começou a aula escrevendo uma atividade na lousa contendo algumas perguntas. Um aluno questionou do que se tratavam aquelas perguntas. A professora pediu que os alunos copiassem, que era sobre uma tirinha que ela buscaria na xerox logo mais. Os alunos permaneceram copiando e a professora saiu de sala para buscar o material.
Após a cópia, a professora entregou as tirinhas a cada um dos alunos. A qualidade do material era ruim, mas tratava-se de uma situação em que a Mônica e o Cebolinha estavam sonhando com presentes de natal. A Mônica sonhava em ganhar um coelhinho de pelúcia de presente e apareceu uma mão [provavelmente do papai Noel] colocando o coelhinho que ela desejava em seu quarto. O papai Noel chegou ao quarto do Cebolinha e este estava sonhando brigando com a Mônica, o Papai Noel deixou então de presente para o Cebolinha uma caixa de primeiros socorros.
As perguntas realizadas aos alunos referiam-se a: nome dos personagens, quais presentes as crianças ganharam do Papai Noel, por que o Cebolinha ganhou aquele presente e
solicitava que as crianças escrevessem frases para os personagens. Lembremos que nessa turma havia crianças com dificuldades de leitura e escrita, no entanto, a professora não leu as perguntas para a turma, apenas pediu que respondessem a atividade.
Durante a resolução da atividade, um aluno perguntou onde deveria escrever as frases para os personagens e ela respondeu que poderia ser dentro dos balões (não havia espaço). Os alunos começaram a tentar fazer a atividade proposta, quando um aluno perguntou espantado (como se tivesse feito uma descoberta):
- Cebolinha é com “C”, professora!? - Pelo amor de Deus! Claro que é!
Esse diálogo permitiu-nos inferir que essa professora pouco conhecia sobre o processo de alfabetização, pois pelo som da letra, essa palavra poderia ser escrita com “S”, como pensou o aluno. Provavelmente, este aluno estivesse inserido no nível de escrita alfabético/ ortográfico da escrita, pois apresentou dúvida quanto a escrita correta das palavras (MORAIS, 2008).
A metodologia de ensino proposta pela docente não permitiu qualquer diálogo com a turma. De modo que não sabemos como os alunos responderam à atividade proposta ou ainda, se conseguiram interpretar a tirinha – objetivo da atividade.
Por fim, alguns alunos foram até a mesa da professora e apresentaram a atividade. Ela deu o visto e, em seguida, os alunos fizeram a fila para irem à aula de recreação. A professora disse que corrigiria essa atividade na aula seguinte.
Concluímos, a partir da análise dessa categoria, que as professoras trabalharam com textos reais, aqueles que circulam na sociedade, no entanto, a exploração destes, em sua maioria, não foi favorável ao desenvolvimento das habilidades de ler e escrever. Isso porque se fazia necessário trabalhar aspectos técnicos da leitura e da escrita ainda não consolidados pelos discentes, que em sua maioria, apresentavam dificuldades de leitura de palavras nos padrões não canônicos (conforme atividade diagnóstica aplicada). O que não os permitia realizar leituras sem qualquer acompanhamento docente, como nas situações propostas pelas professoras B, e C1.