• Sonuç bulunamadı

1.1 Problem Durumu

1.1.2 Fovizm

Calvin pontua a importância das sensações para o impulsionar de uma ação, permitindo concluir que, em qualquer atividade mental, haja uma fase sensorial, uma pensante e outra atuante:

Sensação é apenas a metade do círculo, e, assim, ignoramos o papel da sensação na preparação para a ação. Algumas das conexões mais elaboradas da sensação com a ação são chamadas de reflexos corticais, mas também precisamos entender como o pensamento está acoplado à ação de uma maneira inteligente, por exemplo, quando nos esforçamos por dar um curso novo à ação (1998 p. 53).

Nessa afirmação, a sensação se sobressai como fio condutor, como etapa antecipatória da ação. As sensações se riam, por assim dizer, um elemento preliminar e indutor da ação, e, em se reincidindo o processo, poderiam consistir em um alerta dedutivo : por exemplo, diante da idéia de uma sensação X já experimentada, tem-se, geralmente, uma ação Y prevista como resposta. O repisar automático do trajeto sensação-ação pode resultar em instauração de hábitos, mas, nesse aspecto, cabe enfatizar, também, que uma dada sensação não volta a ocorrer de forma idêntica, mas apenas similar, e a reação, que supostamente seguiria àq uela sensação, também não se reproduz na íntegra, porque, como já dito anteriormente, envolve outro estado de consciência, outro espaço-tempo, ou seja, novas circunstâncias. No final da citação acima, aborda-se, ainda, a possibilidade de a sensação provocar desestabilização, dúvida, portando-se como um ingrediente motor para a quebra de hábitos e posteriores mudanças de comportamento , estado ou crença.

A idéia da sensação como mola propulsora para a ação é fundamental ao se pensar no discurso sinestésico da publicidade. Com suas vestes sensíveis, permeadas de “quali- signos” 72, algumas idéias têm, antes de indicar ou representar algo, o poder de sugerir, evocar e incitar à pura qualidade do sentir. Esses aspectos qualitativos encerram um poder de sugestão, ainda em estado potencial, quando não se deparam com a efetiva presença de um intérprete. Contudo, o interpretante imediato (em potencial, presente dentro do signo)

72 Santaella (2004, p. 12), embasando-se na teoria dos signos de Peirce, explicita: “quando funciona como

passa a ser um interpretante dinâmico, quando, frente a um intérprete, efetivamente, atualiza sua capacidade de produção de efeitos. Se esses efeitos se dão em primeiridade, ou seja, em um estágio de possibilidade, de qualidade, de sentimentos, de acaso, tem- se o interpretante emocional; mas, caso, já em secundidade, esses mesmos efeitos determinem uma ação e uma reação, remetam ao aqui e agora, vê-se a geração do interpretante energético, que, segundo Santaella (2004, p. 25), “exige um dispêndio de energia de alguma espécie”, ou seja, impulsiona o intérprete a uma ação, a uma resposta. Nessa instância, já se entrevêem, pois, os “sin-signos”, que, em sua função indicial, expressam um estado singular ao se corporificarem em suas correspondências referenciais. Conforme a semioticista (2005, p. 25), “os índices chamam nossa atenção, dirigem nossa retina mental ou nos movimentam na direção do objeto que eles indicam”. Cabe, nesse particular, salientar que toda e qualquer idéia toma corpo em um espaço-tempo, exprimindo-se em alguma espécie de materialidade. Para tanto, deve -se entender que toda mediação depende de um meio, de um veículo, que transporte suas idéias coloridas, cinéticas, palatáveis, odoríferas, sonoras. Portanto, os veículos da comunicação midiática se moldam e se remodelam, de acordo com os conteúdos a serem transportados, surgindo, a cada dia, diferenciadas estratégias e suportes inovadores73.

Com essas considerações, explicita-se o poder de sugestão e evocação das idéias sensíveis, que oferece ao intérprete uma sensação, que, em seguida, impulsiona-lhe a uma

73

Sant’Anna (1999, p.194) relaciona alguns dos diversos veículos midiáticos: os visuais (imprensa – jornais, revistas, periódicos especializados etc-, outdoor – cartazes, painéis, luminosos-, publicidade direta – prospectos, folhetos, cartas, catálogos etc-, exibições – displays, vitrines, exposições etc); os auditivos – rádio, alto-falantes, entre outros-; os audiovisuais – televisão, cinema, slides etc-; os funcionais – amostras, brindes , concursos, eventos etc. Acresce, entretanto, que todos os veículos têm suas vantagens e limitações, sendo o mais apropriado uma combinação adequada entre eles. Deve-se notar que esse mix de veículos midiáticos não visa somente a atingir um maior número de consumidores, mas se apresenta necessário em face do transporte dos materiais sígnicos sinestésicos. Enunciados em forma de imagens, cheiros, sons, sabores, entre outras signagens híbridas, requerem suportes diferenciados e diversificados.

ação. Em se tratando do discurso da publicidade, percebe-se que os apelos destinados aos sentidos provocam sensações na mente interpretadora, que, por sua vez, tende a centrar sua atenção e se mover, de alguma forma, rumo ao objeto referenciado, isto é, ao produto ou serviço anunciado. As sensações guiam, mais emocional do que racionalmente, o intérprete até o consumo. Faz-se, no entanto, necessário acrescentar que os efeitos sígnicos produzidos no intérprete podem acontecer, ainda, em terceiridade, quando se tem a geração de um interpretante lógico, que expressa uma generalidade, uma regra internalizada, uma continuidade. Logo, cabe propor que, diante dos freqüentes apelos sensoriais, tenda-se a reagir de formas similares, e, com a reiteração da resposta a uma determinada sensação, tenha-se a instauração de um hábito, mantido, ao longo do tempo, pela fixação da crença da necessidade ou vantagem de seu consumo. Como se nota, o hábito é fortalecido por uma generalidade, isto é, por uma regra internalizada pelo intérprete, idéia essa que se ponteia com a seguinte explanação sobre interpretante lógico:

O terceiro efeito significado de um signo é o interpretante lógico, quando o signo é interpretado através de uma regra interpretativa internalizada pelo intérprete. Sem essas regras interpretativas, os símbolos não poderiam significar; pois o símbolo está associado ao objeto que representa através de um hábito associativo que se processa na mente do intérprete e que leva o símbolo a significar o que ele significa (SANTAELLA, 2004, p.25).

Acresce-se que, no presente capítulo, diante das peças publicitárias, constantes do

corpus de análise, poder-se-á evidenciar ainda melhor a presença dos apelos sinestésicos na

comunicação midiática e a sua força de sedução que atua sobre os quereres e os háb itos de intérprete.

Benzer Belgeler