Foram participantes da presente pesquisa três alunos com diagnóstico médico de paralisia cerebral, sendo dois do gênero feminino e um do gênero masculino, com necessidades complexas de comunicação, usuários do recurso de comunicação suplementar e alternativa, com idade entre sete a dez anos. Todos estavam matriculados no ensino fundamental, dois em classe especial e um em classe regular.
A seguir, foi feita a descrição e a caracterização dos participantes selecionados em relação às suas habilidades comunicativas, obtidas por meio do relato das famílias, professores, terapeuta e registros dos prontuários.
Para melhor identificar os participantes, foram usados nomes-fantasia, como: Ana (participante 1), Maria (participante 2) e Paulo (participante 3).
4.3.1 Ana (Participante 1)
A participante 1 é uma aluna do gênero feminino, com 10 anos idade e com o diagnóstico médico de paralisia cerebral discinética, com a presença de movimentos involuntários atetóides e coreatetóides, com quadro motor de quadriplegia e predominância de tônus hipertônico. Segundo as avaliações existentes no prontuário do centro de reabilitação no qual a participante 1 fazia acompanhamento, nos setores de Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Ana não apresentava alterações auditivas, visuais e/ou cognitivas. A participante há três anos frequentava a classe especial de ensino fundamental.
A participante 1 possuía a compreensão de ordens simples e complexas da linguagem oral. Para se comunicar, utilizava-se de expressões orais, como, por exemplo, “Eu”; “não”; “água”; articulação sons ininteligíveis; emissão de vocalizações e expressões não-orais, como as expressões faciais; direcionamento do olhar; e movimento de protrusão da língua (movimento da língua para fora da cavidade oral), para selecionar ou para indicar resposta positiva.
A aluna utilizava uma prancha de comunicação suplementar e alternativa, a fim de ampliar a comunicação em âmbito familiar e escolar, e apresentava a iniciativa de utilizar a sua prancha de comunicação. Essa prancha tinha formato de “caderno”, com suporte semelhante a de calendário de mesa, as figuras estavam organizadas em folhas de “color set” coloridas, de acordo com a classificação proposta pelo Picture Communication Symbols (PCS) - verde para verbos; amarelo para pessoas; laranja para substantivos; azul para
adjetivos e advérbios; branco para miscelânea2; rosa para situações sociais. Em cada página da prancha da participante, havia duas colunas, contendo três figuras em cada coluna, no sentido horizontal. As figuras foram retiradas do Programa Boardmaker (MAYER- JOHNSON, 2004) e construídas nas sessões de terapia fonoaudiológica.
A aluna era dependente do outro interlocutor para o manuseio da sua prancha de comunicação, necessitava do auxílio do interlocutor para virar as páginas devido a suas alterações motoras. Na seleção dos símbolos gráficos, a aluna adotava o direcionamento do olhar para selecionar as figuras e/ou o interlocutor realizava a “técnica de varredura”. A técnica de varredura é uma técnica na qual o interlocutor indica figura a figura (linha ou coluna) até que o usuário de CSA dê uma resposta. Com a participante 1, o interlocutor efetuava a varredura por linhas, na horizontal, e quando o dedo do interlocutor estivesse sob a figura desejada pela participante, esta protruía a língua para fora da cavidade oral.
As Fotos 1 e 2 mostram a prancha de comunicação da aluna:
Foto 1: Capa da prancha da P1. Foto 2: Figuras de verbos da prancha da P1.
A pasta básica de Ana possuía disposição e quantidade de símbolos em função das suas habilidades e necessidades motoras, ou seja, pelo fato de a criança ser dependente do interlocutor para o acesso ao recurso de comunicação, foi preciso maior espaçamento entre as figuras e inserção de outros materiais no ambiente familiar, como pasta temática na parede da sala de sua casa, ímãs com figuras específicas na geladeira, figuras na “calça da vovó” (calça adaptada para suporte de posicionamento para crianças com paralisia cerebral), uma vez que a criança fica posicionada em sua casa a maior parte do dia. Outro aspecto importante a ser destacado é a respeito do interlocutor (cuidador) da participante 1: sua mãe, não sendo alfabetizada, necessitava não só de orientações objetivas sobre os recursos de comunicação
2 Segundo a classificação do PCS (Picture Communication Symbols), a categoria miscelânea compreende os símbolos que não estão nas demais categorias determinadas (substantivo, verbo, adjetivo, advérbio e expressões sociais).
alternativa, mas também de adequações no recurso, para conseguir realizar a mediação com a filha.
4.3.2 Maria (Participante 2)
A participante 2 é uma aluna do gênero feminino, com idade de 10 anos e o diagnóstico médico de paralisia cerebral do tipo espástica, sendo hemiparética.
Segundo as avaliações existentes no prontuário do centro de reabilitação em que a participante fazia acompanhamento, nos setores de Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Maria não apresentava alterações auditivas, visuais e ou cognitivas. A participante frequentava a classe especial de ensino fundamental.
Para se comunicar, emitia palavras inteligíveis como, por exemplo, “Não”, “eu”, “que”, “é”; vocalizações com variação entonacional e articulação de sons ininteligíveis; utilizava gestos indicativos e representativos, expressões faciais, e fazia uso de pasta de comunicação suplementar e alternativa, para ampliar os meios de comunicação em ambiente familiar, escolar e social.
A aluna tinha iniciativa de usar a sua prancha de comunicação, localizava e apontava as figuras e estruturava frases com o auxílio das figuras de comunicação suplementar e alternativa. Para manusear a prancha de comunicação, utilizava a mão esquerda e o dedo indicador para apontar as figuras.
A prancha de comunicação da aluna era uma pasta tipo fichário, em que as figuras estavam coladas e organizadas em papel “cartolina”, de acordo com a classificação proposta pelo Picture Communication Symbols (PCS). A pasta de comunicação foi construída nas sessões de terapia fonoaudiológica.
Foto 3: Figuras de substantivos Foto 4: Figuras de substantivos
4.3.3 Participante 3 (Paulo)
O participante 3 é um aluno do gênero masculino, com idade de sete anos e o diagnóstico médico de paralisia cerebral discinética. Apresenta presença movimentos involuntários atetóides e coreatetóides, com o quadro motor de quadriplegia e predominância de tônus hipertônico. De acordo com as avaliações existentes no prontuário do centro de reabilitação em que o participante fazia acompanhamento, nos setores de Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Paulo não tinha alterações auditivas, visuais e cognitivas. Frequentava a primeira série do ensino fundamental, matriculado em classe regular.
O participante exibia compreensão da linguagem oral e, para se expressar, utilizava-se de expressões faciais; direcionamento do olhar; emissão de frases simples ora inteligível, ora ininteligível. O aluno recorre a sua prancha de comunicação, quando não consegue ser compreendido pelo interlocutor ou quando está cansado, devido aos seus movimentos involuntários. No momento em que utilizava a prancha, o aluno selecionava a figura através do direcionamento do olhar, com auxílio do interlocutor por meio do sistema de varredura. A sua pasta de comunicação tinha formato de “caderno” e as figuras estavam coladas em papel cartolina preta e organizadas por categorias semânticas; sua construção ocorreu durante as sessões de terapia fonoaudiológica.
Foto 5: Figuras de alimentação Foto 6: Figuras de higiene e ambientes de de convívio do participante