Isabela chegou à UTI vinda de um serviço de emergência, em função da necessidade de realização de um procedimento ortopédico, disponível neste serviço. Três semanas antes de sua admissão na UTI, Isabela sofreu um atropelamento em via pública e foi levada para um hospital especializado no atendimento de emergências. Ela sofreu uma fratura grave em sua perna direita, um trauma crânio encefálico leve e diversas escoriações. A fratura em sua perna exigiu uma abordagem cirúrgica imediata para a colocação de fixadores externos e, posteriormente, outra intervenção cirúrgica para a realização de osteossíntese de planalto tibial. No período em que permaneceu neste serviço de emergência, Isabela ficou cinco dias na UTI e outros dezesseis em enfermaria comum. Ao final deste período, foi transferida para outro hospital com o objetivo de iniciar tratamentos de reabilitação. Porém, três dias após sua chegada neste outro serviço, Isabela apresentou sinais importantes de infecção, como dispneia, taquicardia, vômitos, hipotensão, febre e queda de diurese, sendo solicitada uma vaga na UTI.
Ao conversar com o médico responsável, fui informada que Isabela chegou à UTI, em uma madrugada, apresentando um quadro de insuficiência respiratória aguda que implicava na necessidade do uso de ventilação mecânica. Segundo o médico, Isabela apresentou uma piora significativa do padrão respiratório na enfermaria, acompanhada de uma queda de saturação, o que determinou sua transferência imediata para a UTI. Todos estes acontecimentos foram acompanhados pela mãe de Isabela, Helena, que se mostrava assustada
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e apreensiva. Helena esteve junto de Isabela até sua entrada na UTI, quando foi orientada a retornar no dia seguinte para receber notícias da avaliação do caso pela equipe da UTI.
Ao conhecer Isabela, me vi diante de uma mulher jovem, de 39 anos, casada, mãe de dois filhos, que, mesmo fazendo uso de sedação, me parecia ter uma expressão de angústia. Ela tinha muitos ferimentos pelo corpo, um curativo extenso na perna, estava sudoreica e bastante abatida. Sua expressão facial lembrava uma expressão de dor, mas não era possível manter um contato verbal eficaz com ela. Ao conversar com sua mãe, Helena, fiquei sabendo que ela havia sofrido um atropelamento diante de sua casa, cercado de violência. Este atropelamento resultou de uma discussão entre seu marido e o motorista do carro, que andava em alta velocidade pela via pública, colocando em risco os pedestres. Após o término desta discussão, o motorista saiu com o carro e retornou em alta velocidade, atingindo Isabela, seus pai e marido. Isabela foi quem mais se feriu e era a única que estava hospitalizada.
Os dez primeiros dias de sua internação na UTI foram marcados por várias intercorrências clínicas. Isabela desenvolveu um choque séptico e insuficiência renal aguda, apresentou uma assincronia ventilatória persistente, que demandava a administração de doses maiores de sedação e de medicações que permitissem o controle completo da ventilação pelos médicos. Além disso, foi diagnosticado um foco infeccioso na ferida operatória em sua perna, exigindo que Isabela fosse ao centro cirúrgico frequentemente realizar curativos abertos. Neste período, Isabela necessitou ainda de tratamentos direcionados para o controle e reversão de uma instabilidade hemodinâmica, de hemodiálise e da confeccção de uma traqueostomia. Em diversas ocasiões, nas quais os níveis de sedação eram reduzidos, Isabela apresentava uma superficialização do nível de consciência, uma importante agitação e expressões faciais de dor e angústia, que se intensificavam com a aproximação dos profissionais.
No décimo primeiro dia de sua internação na UTI, com a melhora do quadro infeccioso, as medicações sedativas foram retiradas. Isabela, a partir de então, manteve-se consciente, confusa e hipertensa. Ela se movimentava constantemente, parecia incomodada e querendo levantar-se, e em muitos momentos, apresentava uma expressão de medo, olhava para os lados, para as paredes e pronunciava palavras que não eram entendidas. Esta nova condição clínica de Isabela pareceu trazer desafios para a equipe, na medida em que os profissionais eram constantemente defrontados com a impossibilidade de compreender Isabela. Um médico me disse que pensava que ela devia estar muito ansiosa e que tinha a impressão de que ela queria falar alguma coisa. Neste período, os profissionais permaneceram atentos às flutuações clínicas de Isabela, procurando adotar medidas terapêuticas que pudessem auxiliar na adequação dos níveis pressóricos e no processo de desmame
ventilatório. Além disso, eles também tentavam estabelecer alguma comunicação com Isabela, principalmente por meio da enunciação de suas condutas enquanto elas eram realizadas. Três dias antes da alta de Isabela da UTI, foi realizada uma extubação ventilatória, mas, em função da apresentação de agitação psicomotora, houve a necessidade de retorno à ventilação mecânica. Nesta ocasião, Isabela apresentou um desconforto respiratório significativo, resultante de um vazamento de ar pela cânula de traqueostomia. Este vazamento não pôde ser resolvido com a troca da cânula, determinando a impossibilidade de manter a ventilação mecânica. Deste modo, Isabela permaneceu em ventilação espontânea, sendo constantemente avaliada pela fisioterapia. Estas decisões foram tomadas pela equipe de saúde após diversas tentativas de corrigir tal vazamento e manter a ventilação mecânica, como a troca da cânula da traqueostomia, aspirações e mudanças nos parâmetros ventilatórios. Ao observar estes acontecimentos, pude notar o grande número de profissionais envolvidos na realização direta dos procedimentos e pensar sobre como Isabela poderia estar percebendo esta situação, uma vez que se encontrava vigil, mas confusa.
Nos últimos seis dias de internação na UTI, a equipe de enfermagem transparecia um desgaste relacionado ao seu cuidado, me diziam “ela não para, o tempo todo temos que ficar de olho, pra ela não tirar as coisas” (sic), “deve sentir dor, mas a gente não consegue conversar. Está muito confusa, nem adianta tentar falar com ela. O médico disse que ela pergunta onde está, mas a gente não tem tempo” (sic), “a gente vai ter que amarrar, ela não fica quieta” (sic). Estes contatos com Isabela e com a equipe de saúde me permitiram perceber a angústia que cercava sua permanência na UTI: ela me parecia perdida, assustada, buscando por alguma forma de comunicação, e, de outro lado, os profissionais me pareciam atentos, procurando dar conta de garantir boas condições de recuperação e pareciam ter uma percepção de que ainda havia algo que faltava fazer. Os encontros que pude ter com sua mãe também me davam a impressão do quanto ela sentia-se angustiada com a estada de Isabela na UTI. Ela visitava a filha em todas as oportunidades, apresentava-se sempre interessada pelas informações médicas e transparecia uma preocupação com estado de Isabela na UTI e com o que viria no futuro. Nas conversas com os médicos, ela pouco falava, limitava-se a olhá-los com apreensão, fazia poucas perguntas e procurava manter o controle de suas emoções. Seus pedidos, quando os formulava, eram sempre voltados para estar presente, junto de Isabela, quando esta estivesse acordada ou quando algo importante acontecesse. Em nossas conversas, Helena dizia que Isabela era a “razão de sua vida” (sic). Contou que morava em uma casa bem próxima a de Isabela, junto com seu marido, apesar dos dois não manterem mais um relacionamento conjugal. Helena relatou um importante sofrimento relacionado ao seu
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casamento e uma insatisfação relacionada ao casamento de sua filha, dizendo que Isabela suportava traições e grosserias.
Quinze dias após sua admissão na UTI, Isabela recebe alta para enfermaria. Nesta ocasião, observei-a alegre por ir para o quarto, mas também temerosa em relação à recuperação de sua perna e à sua respiração. Isabela disse-me que “sentia-se fraca, não sabia direito como o corpo estava, já que imaginava que sua perna já devia ter força, e tinha medo de precisar voltar” (sic). Ao chegar à enfermaria, seu primeiro desafio foi a retirada da traqueostomia, durante o qual relatou um intenso mal estar, marcado pela sensação de tonturas. Nos dias seguintes, Isabela iniciou exercícios de reabilitação, que visavam fortalecê- la para que ela pudesse adquirir maior independência de movimentos e voltar a deambular. A partir de então, Isabela começou a apresentar diversas dificuldades para a realização destes exercícios: dizia sentir-se fraca, não conseguia dormir a noite e por isso, estar cansada, sentir- se triste e angustiada e sentir dores. Os profissionais da fisioterapia e enfermagem me relatavam que a cada dia Isabela estava de um jeito, ou estava colaborativa e animada ou resistente, negando-se a realizar as atividades e pedindo para que eles voltassem em outros momentos.
Ao longo dos 25 dias em que Isabela ficou internada na enfermaria, pude acompanhar a evolução destes exercícios e de suas percepções. Em nossas conversas, ela revelava que se sentia cansada porque percebia que não conseguia melhorar. Dizia que tinha muito medo de não voltar andar e de precisar voltar para UTI. Neste período, Isabela sofreu uma nova piora de sua função renal e adquiriu outra infecção, com repercussão sistêmica. Apresentava-se muito chorosa, insegura, dizendo que não podia dormir porque se lembrava constantemente do que lhe havia acontecido na UTI. Nestes momentos, tive a impressão de que Isabela tinha dificuldades em perceber o quanto vinha progredindo em seus exercícios físicos: ela já conseguir levantar-se sozinha e utilizar o andador. Ela me parecia estar assustada com tudo o que tinha vivido, sem conseguir se ligar ao que vivia concretamente.
Sua mãe permaneceu como sua acompanhante durante todo o tempo de sua hospitalização. Em diversas situações, Helena se referiu ao quanto se sentia cansada com os altos e baixos de Isabela e como percebia que a filha parecia ser “mole demais” (sic). Ela me relatava que havia deixado sua vida para trás para ficar com Isabela, sem saber sobre sua casa, seu marido e sem poder descansar. Sentia-se impaciente em diversos momentos, mas afirmava que não poderia deixar Isabela sozinha no hospital.
Na ocasião de sua alta, Isabela apresentava-se insegura tanto em relação à recuperação de seus movimentos e de sua independência, como em relação aos eventos vivenciados em
sua internação. Isabela não conseguia ter certeza do que lhe havia acontecido no hospital, especialmente na UTI, não conseguia acreditar que estava no hospital e na cidade que lhe diziam, pois “se lembrava” de ter sido transferida para o sul do país. Temia o encontro com seu marido, pois sabia que ele se culpava pelo atropelamento. Isabela não sabia o que sentiria diante dele e tinha medo de também o culpar. Temia ainda o encontro com seu filho, em função de suas preocupações com as limitações de deambulação que apresentava e suas implicações para a realização das atividades de cuidado diário do mesmo.
Ela manteve retornos quinzenais ao hospital para a realização de consultas na ortopedia, avaliações da fisioterapia e indicações de exercícios de reabilitação, realizados em sua cidade de origem. Nestas ocasiões, apresentava uma boa evolução física, com o aumento progressivo da carga sobre a perna ferida e uma melhora da marcha. Isabela referia dúvidas e inseguranças em relação ao posicionamento da perna e do pé direitos, mas já se mostrava capaz de realizar algumas atividades domésticas e reassumir algumas de suas funções. Em nossas conversas, ao longo de três meses, Isabela demonstrou ter clareza sobre sua recuperação física e localizava suas maiores dificuldades em sua condição psicológica. Neste sentido, ela referia-se às suas preocupações com os esquecimentos dos fatos, com o relacionamento com seu marido e com os conflitos com sua mãe.
No último encontro comigo, Isabela já caminhava com o uso de uma só muleta, dizia sentir-se mais segura, mas não se lembrava do que lhe havia acontecido na UTI e disse não conseguir sair para caminhar na rua ou andar de carro, pois sentia muito medo de ser novamente atropelada. Só conseguia sair no portão de sua casa e vir ao hospital transportada por uma ambulância.