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Discussions Regarding the Coronavirus and Biopolitics: Agamben and Foucault

Belgede 22.Sayı (sayfa 125-127)

A perspectiva filosófica de Stein (1933/2003) se desenvolve no sentido de compreender as estruturas constitutivas fundamentais da pessoa, destacando o processo pelo qual a subjetividade se constitui como singular. Sua filosofia sobre a formação da pessoa considera o ser humano em sua complexidade corpórea, psíquica e espiritual, constituindo-se em um ser que tem individualidade, mas que apresenta uma abertura em relação a si e aos outros. O humano, assim, é entendido como um ser que possui uma estrutura fundamental semelhante, mas que confere a esta estrutura uma articulação pessoal própria (BELLO, informação verbal)1.

Em suas investigações fenomenológicas, Stein (1933/2003) descreve as dimensões do humano como corpórea, psíquica e espiritual, e estabelece as diferenças essenciais existentes entre os seres vivos. Os animais, ao contrário das plantas, possuem liberdade de movimento no espaço, um corpo material e sensível que recebe estímulos e reage com movimentos livres e com instintos provenientes e percebidos interiormente. Portanto, na constituição da natureza animal, percebe-se a existência de uma vida interior, uma abertura sensível às impressões internas e externas e um agir reativo. Em outras palavras, percebe-se a existência de uma vida psíquica, que, apresentando diferentes características segundo cada espécie, compõe uma estrutura psíquica (MAHFOUD, 2005). Os humanos partilham desta estrutura constitutiva dos animais, mas para além dela, possuem um eu capaz de ter sensações, de pensar e sentir. Possuem ainda a capacidade de ser, enquanto corpo vivente, o ponto inicial de orientação própria em relação ao mundo. Neste sentido, o eu do humano é capaz de reagir e agir, de tomar decisões, de fazer escolhas e de ser responsável. Para Stein (1933/2003), estas são características especificamente humanas, relacionadas ao que ela denomina de espírito. Esta dimensão espiritual da estrutura humana remete a uma vigilância e abertura, uma vez que a pessoa é consciente de seu ser e do seu viver em um único ato, anterior a qualquer reflexão. Além disso, a dimensão do espírito também remete a liberdade, entendida como a possibilidade de decidir quanto ao direcionamento de seus interesses e ao enriquecimento de seu conhecimento sobre o mundo das coisas.

A pessoa é constituída, ainda, por um corpo material e por uma natureza viva, que compõe um corpo vivente (STEIN, 1933/2003). Este corpo vivente é o meio pelo qual a pessoa realiza a percepção do mundo, ou seja, é o ponto de partida para a atribuição de sentido ao que se vive. Ele é dotado de sensibilidade, impulsos e instintos e possui capacidade

1 Fenomenologia e Psicologia. Informação fornecida por Angela Alles Bello, trabalho de evento não publicado,

de movimento próprio originado por meio de um impulso interno. Além disso, possui um núcleo que permite afirmar que a pessoa vive e, por meio deste viver, se autodetermina internamente. Assim, o corpo não é apenas uma realidade física, mas também possui uma dimensão psíquica, dotada de uma força vital sensível. Esta unidade do corpo e psique, chamada de corpo vivente constitui, na visão de Stein, o sujeito psicofísico, capaz de manter uma abertura sensível às impressões externas e internas, de experimentar interiormente e de agir reativamente. Deste modo, Stein considera que é por meio do corpo que uma pessoa pode provocar efeitos sobre o mundo, usando-o como órgão de sua vontade. Além de conter características como vitalidade, sensibilidade, de ser um órgão da vontade no mundo material e um instrumento de ação, outra função essencial do corpo vivente é a capacidade de exprimir a vida interior da pessoa, com manifestações corpóreas de sentimentos e emoções.

Para Stein (1933/2003), a potência do eu tem sua origem e fundamento no agir no mundo, nas possibilidades de realização e movimento do corpo. De acordo com estas ideias, pode-se pensar que é a partir do olhar para o corpo (próprio e de outros) que uma pessoa pode observar a sua condição psicofísica e de outros, se saudável ou doente, se forte ou frágil, e ainda, a partir da observação das relações que este corpo trava com o mundo, pode realizar transformações em si mesma.

Deste modo, o humano é sujeito de uma vida multifacetada do eu, recebendo impressões do mundo objetivo, encontrando confirmações nele e por ele, e intervindo livremente no mundo. Apesar do eu da pessoa ser constituído por um corpo vivente, por uma psique e por um espírito, ele é considerado como realidade única. Para Stein (1933/2003), a pessoa permanece em um processo de formação contínua, que se realiza em meio às percepções e ações externas que suscitam movimentações internas, nas quais desabrocha a vida. Este processo de formação relaciona-se a uma atualização de disposições pessoais ou potências, presentes na estrutura fundamental da pessoa. Estas potências formam o núcleo da pessoa, ou alma, que constitui uma identidade única e genuína (SILVA, 2011). Assim, aquilo que uma pessoa vive depende da sua predisposição interna, mas também das circunstâncias externas. Existe uma individualidade determinada exteriormente, que se efetiva a partir de uma abertura (ou fechamento) aos valores e a apreensão destes em direção às realizações da pessoa. Mas, também há uma determinação interior que é denominada de peculiaridade pessoal. Esta característica pessoal permite que uma pessoa se torne uma personalidade unitária, constituída por um princípio de escolha das qualidades e um conjunto de estados possíveis internamente. Encontra-se aí, o que Stein chama de essência da pessoa, que não se desenvolve, mas se realiza no curso do desenvolvimento, manifestando as qualidades

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singulares e realizando suas potências totalmente ou somente em partes, dependendo de condições favoráveis ou não. Esta realização depende da interação que a pessoa estabelece com o mundo, por meio dos atos perceptivos e empáticos, alcançando o despertar, o realizar e o atualizar de uma potência.

Dessa forma, a compreensão da estrutura da pessoa e o processo de seu desenvolvimento remetem à consideração das relações que se estabelecem intersubjetivamente: cada pessoa possui o seu ponto de orientação inicial em relação ao mundo, mas também se encontra imediatamente com outro ser humano que possui seu próprio ponto de orientação. O outro, assim, se apresenta similar, mas diferente. O encontro com este outro pode promover uma transformação, contribuindo para o processo de constituição da pessoa e para o despertar e atualizar de suas potências (SILVA, 2011). A pessoa, neste sentido, é entendida como um ser em relação subjetiva e intersubjetiva, podendo formar-se a partir da abertura que apresenta em relação àquilo que vivencia interiormente, em seu mundo particular, mas também àquilo que vivencia em relação ao encontro com o outro, no mundo da vida.

Stein (1917/2004) aponta para o significado da empatia neste processo de formação humana, sinalizando a importância do contato e do conhecimento de outra personalidade. Afirma que, por meio da capacidade da empatia, os humanos podem apreender a vivência do outro, percebendo-a como análoga às suas próprias. Os atos empáticos permitem compreender que as vivências são diferentes para cada indivíduo, mas ainda assim podem ser compartilhadas. Para a filósofa, é por meio deste encontro que uma pessoa pode se deparar com os limites do próprio autoconhecimento e pode tomar consciência de outras perspectivas de viver. O encontro com o outro e a capacidade de percebê-lo como semelhante a si é o que permite que a pessoa confira um valor autêntico às suas próprias vivências, podendo orientar- se no mundo a partir de uma posição própria (BELLO, informação verbal)2. A possibilidade de percepção do outro traz o potencial de enriquecimento da imagem do mundo por meio das imagens dos outros, evidenciando a importância do ato da empatia para a experiência do mundo real externo. Assim, a empatia se revela como uma possibilidade de constituição do próprio indivíduo e do mundo externo por meio da experiência intersubjetiva.

Os atos empáticos, realizados diante de pessoas de tipos semelhantes a si, permitem despertar e clarificar aquilo que se encontrava encoberto, enquanto, aqueles que se dirigem à pessoas com tipos diversos, coloca em evidência o que somos e o que não somos na relação com o outro. É neste sentido que a empatia pode conduzir a uma abertura a valores desconhecidos pela

2 Fenomenologia e Psicologia. Informação fornecida por Angela Alles Bello, trabalho de evento não publicado,

pessoa, favorecendo a ampliação da consciência sobre si e sobre o mundo (SILVA, 2011). Neste sentido, a abertura às impressões externas e internas, característica do sujeito psicofísico, ganha importância vital, na medida em que pode permitir que a pessoa adoecida se reconheça como vivente, e possa iniciar movimentos direcionados à sua orientação em relação às suas experiências. Uma pessoa é livre para decidir aceitar o convite para seguir e observar as coisas e pessoas do mundo, e então envolver-se em movimentos de abertura e transformação recíprocos. Quando este convite não é aceito, existe o risco de se permanecer com uma imagem do mundo empobrecida e fragmentada. Isto se relaciona a diferentes estados de motivação diante das coisas e pessoas: pode-se observar curiosamente os objetos e optar por modos de ação que se modificam diante deles, a partir das vivências, ou pode-se observar objetos desde uma posição em que eles são considerados como já conhecidos e, então, agir-se como sempre se agiu diante deles. Nesta última alternativa, não há abertura possível.

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