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Nos Anedotário da Rua da Praia 1, 2 e 3, Renato Maciel tem oito crônicas no total, que abordam de forma mais concreta os tipos populares, pertencentes à camada popular urbana, como cozinheiros, barbeiros, garçom e os que viviam de expediente para conseguir dinheiro dos conhecidos.

Quem eram esses homens populares mencionados por Renato Maciel em suas crônicas? Segundo o dicionário Aurélio (ano, p. 1115), a palavra popular, se origina do latim populare e quer dizer que a pessoa é popular, “do povo” e também pode ser “agradável ao povo, que tem as simpatias do povo” e popularidade, que vem procedente do latim popularitate significa qualidade de popular, ou seja, tem estima geral, conforme o dicionário Aurélio. Em razão dessa definição, acredita-se que os sujeitos são mencionados, a seguir, podem ser considerados populares. São eles: Oscar Condessa, Fanha, China Gorda, Maribondo, Bataclan, o garçon Antoninho e Tucha.

As crônicas narram suas façanhas na Porto Alegre do passado e percebe- se durante a leitura dos textos que, nos anos da escrita de Renato Maciel, anos 1980, parecia não haver mais lugar para esses homens populares. Inicia-se com a crônica que apresentou o poeta Oscar Condessa no texto A melancolia da condessa:

O poeta Oscar Barbosa Condessa – Oscar Condor dos Andes Condessa, como fazia questão de frisar – foi figura popular e benquista na Rua da Praia. Quando sóbrio, não dava palavra. Mas, se bebia, transformava-se em orador inspiradíssimo. Surgia de repente na calçada da Confeitaria Central ou do Café América e, sem entrar, punha-se a recitar ou

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discursar. Tornava-se mais expressivo e animado quanto maior o número de conhecidos. Era um sucesso completo. (ARP1, 1981, p. 74).

Caracteriza-se o poeta Condessa como figura popular, pois ele era estimado e circulava nos lugares conhecidos daquela época, como a Confeitaria Central e o Café América. O que unia esses tipos populares, citados por Renato Maciel, é que eles possuíam de alguma forma a mesma característica, isto é, alguns eram simpáticos, outros nem tanto, mas não incomodavam ninguém e suas brincadeiras divertiam os que circulavam pela Rua da Praia nos anos 1950. No entanto, Fanha não era estimado, porque pregava brincadeiras sem graça nos outros, como se vê mais adiante.

Figura 16 - Garçom Antoninho, da Confeitaria Central

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Figura 17- Bataclan, figura conhecida na Rua da Praia

Fonte:ARP2 (1982, p.141)

Outro personagem popular citado pelo cronista era o China Gorda, mas se chamava Walter Neves. Dono de restaurante, China não gostava de ser conhecido pelo apelido, porque acreditava que poderia não ser respeitado pelos seus garçons. Em China Gorda, Renato Maciel descreveu o sujeito: “Folclórico e engraçadíssimo cozinheiro que, embora feio, pobre, mulato e bicha, conquistou o respeito e a estima de quantos o conheceram” (ARP2, 1982, p. 29). No texto Cerfs et Biches, Renato Maciel traçou o perfil desse homem popular:

De todos, porém nenhum foi mais popular e estimado que ‘Gorda’. Simpático e espirituoso, parecia um Buda, a papada escondendo-lhe o pescoço. Excelente cozinheiro, preparava apreciadíssimas galinhas ao molho pardo, prato forte dos pequenos restaurantes que sucessivamente abriu; o último – e mais famoso – no bairro Menino Deus (ARP1, 1981, p. 108).

O Bar Farolito, pertencente ao China Gorda, foi outro reduto da boêmia porto-alegrense, segundo Renato Maciel. Começou sua vida profissional como

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cozinheiro do Hotel Lagache. “China Gorda foi bicha inteligente e espirituosa, estimada por todos, com livre trânsito, inclusive, nas chamadas rodas finas.[...] cozinheiro de fama merecida, dirigiu diversos bares e restaurantes”. (ARP3, 1983, p. 110).

O que Renato Maciel chamava de rodas finas era o grupo de elite da época, os advogados, políticos e médicos que tinham o hábito de se reunirem em bares e cafés, interagindo e conversando amenidades. Quando havia preferência por um bar ou confeitaria, o grupo social costumava frequentar o lugar. Além de “jogar conversa fora”, alguns membros da elite porto-alegrense tinham também o hábito de passar trotes nos conhecidos, tanto que se tornou, na década de 1950, um ato normal, praticado por Nestor Barbosa e Oddone Grecco.

Um dos alvos foi o barbeiro Tucha, que rebatia as brincadeiras dizendo muitos palavrões no telefone, diante dos fregueses. Na crônica Tucha e os trotes, Renato Maciel recordou que a “maior vítima de trotes a aparecer na Rua da Praia [...] irritadíssimo e bem-apessoado Tucha, barbeiro e cabeleireiro de fama, estabelecido com seu Royal Salon, no andar superior da Confeitaria Central, defronte ao Largo dos Medeiros” (ARP2, 1982, p, 182).

Outro personagem popular nas crônicas de Renato Maciel tinha o apelido de Bataclan. Na crônica O Largo, Renato Maciel comentou a respeito dessa figura simpática, que transitava sempre pela Rua da Praia. Segundo o cronista:

Homem-propaganda e figura estimada na Rua da Praia, o folclórico Bataclan reapareceu no Largo depois de bom período viajando. Alguém interrompe o caminhar digno desse preto atlético e vegetariano:

— Mas estás sempre a mesma coisa, não envelheces nunca!

O sorriso enigmático de Bataclan, já então beirando os sessenta, mostrou a impecável dentadura branca:

— Mas o doutor não sabe? Pois têm duas coisas que nunca vão acontecer comigo: envelhecer e morrer (ARP2, 1982, p. 140)

Sujeitos como Bataclan fazem parte da memória afetiva da Rua da Praia, pois são pessoas que circulavam diariamente pela rua e eram estimadas pela população. Outro personagem mencionado por Renato Maciel e muito conhecido da elite porto-alegrense foi Antoninho, garçom da Confeitaria Central, que conhecia de forma perfeita os gostos e os hábitos de seus fregueses. “Antoninho

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foi o mais pitoresco dos garçons. Interferia nos pedidos e só servia o que julgasse adequado para o momento ou freguês” (ARP2, 1982, p. 144). Renato Maciel recordou que, determinada vez, um cliente, jornalista do Diário de Notícias, pediu que ele guardasse um embrulho, que pegaria mais tarde. Depois o profissional passou na Confeitaria Central e Antoninho entregou o pacote.

Notando que este estava molhado e desmanchado, o moço perguntou o que acontecera:

— Tava na geladeira, ora — respondeu Antoninho.

Desconsolado o rapaz olhou o conteúdo todo amarfanhado: — Era o colarinho pra festa desta noite! (ARP2, 1982, 145).

No entanto, pessoas como Fanha, como já se mencionou, cometiam deslizes. Na crônica O grande velhaco, em Anedotário da Rua da Praia 2, o personagem descrito pelo autor-narrador pode ser considerado popular, conhecido por todos que circulavam pelo centro de Porto Alegre, mas não era estimado pelos frequentadores da rua da Praia. De acordo com Renato Maciel,

Euzébio Dorado Sarassol, o Fanha, nunca teve ocupação fixa. Malandro clássico, usava os mais artificiosos expedientes para obter dinheiro, mas depois não pagava. Apesar de ser uma pessoa prestativa, não conseguia sobreviver e mesmo ser estimado pelos frequentadores da Rua da Praia. Não raro, sem ter onde dormir, era forçado a peregrinar pelos quartos de pensão dos amigos mais bondosos [...] Suas atividades eram basicamente quatro: jogar sinuca, achacar dos conhecidos ou envolvê-los em obscuros empreendimentos invariavelmente malsucedidos (ARP2, 1982, p. 174)

Assim, Renato Maciel buscou na memória de seus conhecidos personagens como Fanha, que fizeram a história de Porto Alegre (ARP2, 1982, p.175 - 178), mas pelo avesso. Fanha e Oddone Grecco82 têm algo em comum, pois são malandros, apenas o primeiro não tem dinheiro nem carisma, o que sobra para o segundo, pois Greco era benquisto. Viviam de pequenos expedientes para conseguirem dinheiro, pois ambos não trabalhavam. Como em toda a sociedade, seja de qualquer época, sempre existirão pessoas assim. O que o cronista fez de forma correta foi retratar pessoas do cotidiano da Rua da

82 Greco foi o personagem mais citado por Renato Maciel nas crônicas das três obras. Por esse

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Praia nos anos 1950, que podem ser encontradas nos tempos atuais, indivíduos que integrarão qualquer sociedade, a qualquer tempo.

Prevaleceu nas crônicas de Renato Maciel outra prática de lazer, o jogo, pois vários de seus personagens, desde os políticos até o malandro, estavam envolvidos em jogatinas. O ponto de encontro era o Clube do Comércio, que já foi comentado na pesquisa, estando na categoria de espaços. Na crônica analisada, o cronista descreveu Fanha:

Durante bom período serviu de pau para toda a obra no cabaré da Liliane, estabelecimento que sem ser um portento, razoavelmente aliviou significativa parcela da boêmia porto-alegrense. Nunca foi brilhante jogador, mesmo assim defendia-se bem nos bilhares Colombo e Coroa, na esquina da Ladeira com Rua da Praia (ARP2, 1982, p. 174).

Além de apresentar um passatempo da sociedade local, Renato Maciel também indicou os locais preferidos para a prática do jogo, que estavam em evidência naquela época. Ruas estas que são citadas em Espaços, e também ambientes fechados onde circulavam os sujeitos mencionados pelo cronista nos anos 1940 e 1950.