Há 16 crônicas nas três obras de Renato Maciel abordando a zona de meretrício e apenas uma crônica referiu-se às apresentadoras de televisão, além de textos em que são citadas as mulheres da família de Greco. Essas citações são esporádicas sobre a mãe e irmã de Greco. Nas três obras, Renato Maciel relembrou as prostitutas, que trabalhavam em bordel, na zona de meretrício, mas apareceram também as jovens apresentadoras de televisão na década de 1960. O texto de Juremir Machado da Silva (1991, p. 64) apresenta o cotidiano daqueles tempos. “Na Rua da Praia, acotovelava-se na tarde fria uma massa de homens e mulheres elegantes, com roupas cinzas, ternos impecáveis, casacos de pele, toda à européia”.
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Figura 18- O passeio na Rua da Praia
Fonte: Autor desconhecido. Acervo do Museu Joaquim José Felizardo/ Fototeca Sioma Breitman
As mulheres são citadas de três maneiras: as que Renato Maciel denominava de família, as profissionais que atuavam em emissoras de rádio e televisão ou as que eram professoras e as que trabalhavam em cabarés. Essa distinção é percebida, nitidamente, quando o cronista referiu-se a elas em suas crônicas. Segundo os textos, algumas mulheres serviam para os momentos de lazer e divertimento, outras eram destinadas ao papel de esposa e mãe. As que trabalhavam fora e em casa eram admiradas por sua ousadia.
No Anedotário da Rua da Praia 2 (1982), o cronista mencionou que o assunto sobre as mulheres surgia nas conversas dos frequentadores da Praça da Alfândega, que rotulavam as pessoas por suas características físicas ou pelo caráter. No tempo disponível para os encontros, os frequentadores do Largo dos
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Medeiros comentavam sobre política e abordavam os casos de traição cometidos pelos homens que chegavam da fronteira. Esses passavam as noites nos cabarés da época. Exemplo disso, é a crônica Ticão, quando Renato Maciel recordou o Clube dos Caçadores — lugar de memória de Porto Alegre — local de encontro de mulheres que circulavam na noite. Segundo o cronista,
A Rua Nova, hoje Andrade Neves, tinha péssima fama nos anos trinta; cheia de pensões de mulheres dos mais variados níveis, destacava-se, no meio delas, o famoso ‘Clube dos Caçadores’, passarela maior da vida noturna da cidade (ARP1, 1981, p. 52).
O autor descreveu a rua onde se concentravam as prostitutas, procuradas pelos fazendeiros da época, quando esses vinham à cidade para finalizar seus negócios. O Clube dos Caçadores fechou em 1930. Sobre o mesmo assunto, Juremir Machado da Silva (1991, p. 25- 58) relembra que
nas décadas de 40 e 50, a boêmia de Porto Alegre viveu em torno de cabarés como o Marabá e o Maipu. O castelinho do Alto da Bronze foi um ponto importante, que abrigava artistas e funcionava como clube da música [...] nas noites das décadas de 40 e 50, Porto Alegre viveu grandes momentos na penumbra de seus cabarés. Homens bem vestidos entregavam-se aos braços de argentinas e francesas sensuais ao som de tangos das típicas portenhas.
Depois disso, segundo Renato Maciel, a avenida Borges de Medeiros foi aberta e “passou a chamar-se Rua Gen. Andrade Neves e aos poucos foi perdendo a característica de zona de meretrício. [...] Um dos lugares mais convulsionados da rua era o Hotel Sul América, onde a polícia de vez em quando dava batidas (ARP3, 1983, p. 151). As mulheres da zona foram definidas pelo cronista Renato Maciel na crônica O Largo:
de mulher, então, só haveria três tipos: as putas, que davam pra todo o mundo, as filhas da puta, que davam apenas pros outros, e as chatas, que só davam pra gente [...] e também comentavam que as quatros horas da madrugada era “a hora do geral encerramento dos rendez-vous (ARP2, 1982, p. 139)
Em outro texto, O massagista da Bequinha, Renato Maciel voltou a focalizar as mulheres proprietárias de cabarés e os militares. O autor narrou que
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na Rua Cristovão Colombo, perto da rua coronel Bordini, ficava o bordel da Bequinha,
uma velha baixota, muito feia, bronqueira, vinda da Itália Ignorante, desconfiada — [...] achava que toda a gozação devia ser respondida à altura. Com isso, tornou-se o prato predileto dos trotistas da praça (ARP1, 1981, p. 164).
Um dia, Bequinha apaixonou-se por um ex-locutor de rádio, mais novo e ela tinha, segundo o cronista, uma foto do rapaz, de corpo inteiro em seu quarto. Segundo o relato de Renato Maciel:
O tempestuoso romance durou até que o gigolô foi detido no Parque Farroupilha namorando uma empregadinha, quando usava uma farda de oficial do Exército, roubada. No dia seguinte, sua fotografia aparecia em todos os jornais, de cujas manchetes a mais amena dizia: PRESO TENENTE SEDUTOR (ARP1, 1981, p. 164)
Em relação a outras mulheres, ele as chamava de família ou denominava de professoras. É o que acontece na crônica Greco, quando surge o termo de família, usado para designar as mulheres que integravam o grupo social que Renato Maciel elegeu como a elite de suas crônicas. Exemplo disso, são as mulheres da família Greco, entre elas, a irmã Mimosa Greco. “Como sua mãe, Angelina, prometera um presente especial ao filho que atingisse trinta quilos de peso, o pequeno Oddone colocou algumas pedras nos bolsos, antes de subir na balança da farmácia...(ARP1, 1981, p. 12). Mais adiante, o cronista, novamente apresentou novas histórias sobre a família de Greco, fatos relembrados por amigos e conhecidos de Renato Maciel:
Nos aniversários das irmãs, meninote ainda, ligava a magnífica pianola elétrica alemã que havia em casa e instava os convidados a fazerem os rolos musicais funcionar automaticamente. No entanto, tal só era possível mediante a introdução de moedas em uma fenda que havia no instrumento. Depois embolsava o dinheiro... (ARP1, 1981, p. 12).
A prática, naqueles tempos, era ter aulas em casa e assim as professoras, iam às residências de famílias abastadas, um hábito que vinha de séculos passados.
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Dona Ana, ou Donana, como a chamavam era uma senhora de origem alemã, que dava aulas particulares. Tinha duas características: era muito rigorosa e nunca tomava banho. Entre seus alunos estavam os filhos dos Greco. Oddone que não gostava de estudar, tinha pavor dela (ARP1, 1981, p. 12).
Como a professora aplicava muito castigo no rapaz, fazendo com que ele copiasse várias vezes um trecho literário, ele a ameaçou de morte, brincando com ela. Mas Donana assustou-se e nunca mais apareceu. Outro tipo que surgiu na crônica Largo, do Anedotário da Rua da Praia 2, de Renato Maciel, foi a cozinheira Verônica que, segundo o cronista, trabalhou na cozinha da Confeitaria Central, outro ponto de encontro na década de 1950.
Era horrorosa, o definitivo breve contra a luxúria. O prefeito José Loureiro da Silva certa vez observou a respeito dela:
- Tanta feiúra só em mulher de cego.
Proféticas palavras. Verônica acabou casando com um marido cego, apaixonado por seu timbre de voz (ARP2, 1982, p. 141).
Na crônica Dona Negrona, Renato Maciel abordou o temperamento de uma servente que trabalhava em uma conhecida agência de publicidade.
Negrona nunca passou de servente, mas de temperamento forte, desbocada e maternal, impôs o `Dona´ e transformou-se em verdadeira instituição de conhecida agência de publicidade. Como mais antiga funcionária, acompanhou o humilde começo de carreira de quantos lá trabalham, inclusive o diretor. Com o tempo tornou-se confiada e um tanto irascível, passando a reinar despótica em setor importantíss imo — mas decisivo mesmo — e qualquer empresa brasileira: o do cafezinho. (ARP2, 1982, p. 104)
Os diretores chegaram a pensar em demiti-la, mas não tinham coragem, isto porque ela decidiu por conta própria a reduzir o consumo de café na empresa, a dois por dia, um pela manhã outro, à tarde. As mulheres tiveram destaque nas crônicas de Renato Maciel, mas se percebe que as consideradas de vida fácil foram as mais mencionadas, em virtude das histórias contadas pelos coronéis e pelos fazendeiros da época. O cronista mencionou, com ênfase, as jornalistas e radialistas que trabalhavam nos meios de comunicação, o que será visto mais adiante. Como o cronista circulava nessa área, ele ouviu muitas casos a respeito.
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