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Dentro da estrutura organizacional do USP Recicla, criou-se o eixo estruturante de Educação Continuada que visa promover “o comprometimento da comunidade interna e externa com os princípios do Programa, estimulando o potencial de ação individual e coletiva, na formação de sujeitos-editores” (USP RECICLA, 2004). Nele estão inseridas ações educativas do Programa, como o curso de especialização estudado nesta pesquisa.

Retomando os princípios do discurso alternativo do ambientalismo (GUIMARÃES, 2006; LAYRARGUES, 2006), o Programa afirma que deseja “contribuir para a formação de pessoas com capacidade de refletir, compreender e recriar o mundo que as cerca, tomar decisões, desenvolver valores, ser solidárias, críticas e comprometidas com a transformação, julgar e intervir na realidade, desenvolver ações coletivas, respeitando a liberdade e identidade de cada indivíduo” (SORRENTINO et al., 2003).

Para o USP Recicla, estes desejos podem ser concretizados na medida em que incentivamos o envolvimento ativo das pessoas na resolução de problemas nos seus contextos locais, promovemos debates sobre “o porquê” dos fatos, fazemos um mergulho em nossa história, estimulamos o trabalho solidário em pequenos grupos, comissões, associações (SORRENTINO, 1991).

Desta forma, serão apresentados os pressupostos pedagógicos que embasam as práticas deste eixo.

Ao conceber a educação como um processo emancipatório, participativo e continuado, o Programa afirma que o desenvolvimento de seus projetos educativos deve ser permeado pedagogicamente pelos seguintes princípios:

a) A disposição ao diálogo com o saber do outro. Nesse sentido, as práticas educativas visam articular e integrar vários tipos de conhecimentos e formas de conhecer, fundamentais para que tomemos consciência da interdependência, globalidade e complexidade do mundo em que vivemos. Isto implica em caminhar no sentido do desconhecido e na construção de novos conhecimentos por nossa equipe, que não se dá pela simples junção de disciplinas ou de pessoas (USP RECICLA, 2004). Baseando-se em Paviani e Botomé (1993), o Programa vê no desprendimento da hierarquia entre as disciplinas e na quebra da crença de auto- suficiência disciplinar uma maneira de articular e integrar vários tipos de

conhecimentos e formas de conhecer como a filosofia, a arte, o senso-comum, a ciência e a religião;

b) O trabalho pedagógico não se restringe aos aspectos cognitivos da aprendizagem. Desta forma, entende-se que seja fundamental considerar questões de natureza afetiva, referentes aos valores e sentimentos que embasam o comportamento das pessoas. Para a equipe técnica do USP Recicla, não é suficiente informar um estudante (no sentido restrito ao repasse de informações) de que ele diminuirá o consumo de papel, por exemplo, se imprimir um trabalho acadêmico utilizando as duas faces das folhas. É necessário considerar o valor que ele atribui à aparência deste trabalho, questionando o dito popular “tamanho não é documento”, segundo o qual se crê, por exemplo, que um trabalho mais longo (utilizando mais folhas) é melhor que um mais curto. O mesmo vale no incentivo à montagem de composteiras: não basta demonstrar que é possível transformar restos de comida e poda em “adubo”; é necessário trabalhar questões extremamente subjetivas como o nojo, o preconceito e o receio histórico-cultural das pessoas com relação aos resíduos orgânicos;

c) Questionamento da crença de que o público infantil seja um público privilegiado em termos de educação e em particular da educação ambiental, pois pode ser “moldado com mais facilidade”. Para o Programa, todos podem aprender, independentemente da faixa etária, do grau de escolaridade, do nível sócio- econômico e das características culturais (USP RECICLA, 2004);.

d) O processo de ensino-aprendizagem pode ser experienciado tanto pelo educador como pelo educando, numa “via de mão dupla”. A interação das informações oferecidas por educador e educando, no processo educativo, provoca a construção de diferentes conhecimentos para ambos. Reconhecer e considerar este aspecto torna o processo educativo mais participativo e enriquecedor (USP RECICLA, 2004);

e) As atividades educativas devem ser realizadas com prazer, baseando-se em Rubem Alves, quando afirma que sapiência significa conhecimento que tem e que aprendemos tudo aquilo que desejamos e que faz sentido para nós. É na busca do prazer em aprender que centramos a ação educativa (USP RECICLA, 2004);

f) A valorização do repertório de concepções, valores e crenças acerca de um tema sobre o qual construímos conhecimentos e condutas deve ser incorporada na ação educativa (SORRENTINO et al., 2003). Assim, o Programa destaca que,

para o êxito do processo educativo, é fundamental que o educador procure explicitar essas concepções, o que pode ser feito criando-se junto ao público da intervenção um clima de diálogo que permita a livre exposição e troca de idéias, consensos, dúvidas e divergências (USP RECICLA, 2004);

g) O ser humano é um ser social e político que intervém no mundo. Desta forma, para o Programa, toda prática educativa também envolve a existência de objetos, conteúdos, métodos, técnicas, uso de materiais; assume objetivos, sonhos, utopias, ideais que a faz ser política, que a faz não ser neutra. Ela também se constitui numa forma de intervenção no mundo (USP RECICLA, 2004) e

h) Avaliação processual, participativa e continuada é imprescindível dentro de um programa educativo. Este princípio garante interesses da comunidade que sempre devem estar presentes quando se deseja potencializar suas experiências, conhecimentos e tomada de iniciativas. Os participantes envolvidos no processo de avaliação devem considerar as informações acerca dos resultados conseguidos em termos de mudanças na prática (manejo com competência, constituição de líderes etc); de mudança do público-alvo (atitude, convicções, conhecimento etc); do processo, assinalando-se aspectos como: dinâmica de funcionamento, conteúdo das seções de trabalho, contexto, dentre outros (USP RECICLA, 2004).

A partir da análise dos pressupostos metodológicos e pedagógicos, é possível afirmar que o Programa persegue a educação ambiental denominada crítica, popular ou emancipatória na medida em que se vale dos fundamentos desta vertente.

Embora o referencial que sustenta o programa contenha elementos definidos como pertencentes à vertente da educação ambiental emancipatória, algumas ações restringem-se a mudanças comportamentais, com aspectos reformistas, sem que os educandos tenham a oportunidade de aprofundar questionamentos sobre a estrutura da degradação ambiental, que vai além da somatória de ações individuais ambientalmente inadequadas (LEME; OLIVEIRA e KAKUDA, 2006). Ainda nessa análise, os autores afirmam que:

embora [as ações do Programa] fomentem alguma esperança de transformação nos estilos de vida individuais, têm poucos reflexos em mudanças significativas nos rumos das políticas governamentais e na transformação das estruturas políticas e econômicas. Ou seja, sendo uma ação local e temática, tende a não tornar explícita a luta contra a dinâmica mais ampla da degradação e do consumo

excessivo (LEME; OLIVEIRA e KAKUDA, 2006, p.15).

Coordenado pela equipe técnica, o trabalho do Eixo “Educação continuada” tem como público-alvo a comunidade universitária em geral. As ações podem ser resumidas em:

i) encontros educativos com a comunidade universitária. Trata-se de encontros que buscam informar sobre os princípios, estrutura e funcionamento do programa USP Recicla, sensibilizar o indivíduo/comunidade sobre a problemática sócio-ambiental e sobre a necessidade de conservação de recursos naturais e, ainda, visam motivar e instrumentalizar a comunidade universitária para ações individuais e coletivas voltadas ao uso racional dos recursos e minimização de resíduos;

ii) formação de Agentes Locais de Sustentabilidade Sócio-Ambiental, por meio de cursos de especialização para funcionários da USP;

iii) projetos específicos promovidos segundo o perfil do público e a realidade de cada unidade/departamento/órgão;

iv) formação ambiental de estudantes de graduação e

v) formação continuada e em serviço dos educadores e coordenadores do Programa.

2.6 A Experiência do curso de especialização “Formação de Agentes Locais de