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1.2. SERMAYE YAPISI TEORİLERİ

1.2.2. Modern Sermaye Yapısı Teorileri

1.2.2.2. Finansman Hiyerarşisi Teorisi

A pressão social decorrente das denúncias sobre mortes por exaustão no corte manual de cana forçou a criação, em 2009, de uma certificação para as empresas que cumprissem os requisitos trabalhistas nela estabelecidos. Se trata de um acordo tripartite entre governo federal, sindicatos de trabalhadores e empregados rurais (CONTAG e FERAESP) e representante patronal (UNICA). A certificação trabalhista foi denominada Compromisso Nacional para o

Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho na Produção de Cana-de-Açúcar. O objetivo das entidades participantes deste acordo eram diversos. O governo, tentando obter alguma contrapartida com a injeção de recursos na expansão da produção canavieira, visava obter melhorias nas condições de trabalho “incentivando” o cumprimento da legislação trabalhista pela concessão deste selo às empresas (TEIXEIRA, 2014). Já o movimento sindical tentou obter melhorias concretas para os trabalhadores canavieiros, principalmente no corte manual de cana, com o espaço para o debate sobre condições de trabalho criado por esta certificação, porém, as relações de poder assimétricas colocadas nas discussões do Compromisso não permitiram qualquer avanço que já não fosse garantido na legislação trabalhista (ALVES; ADISSI, 2010; TEIXEIRA, 2014). Para o sindicato patronal, a certificação das usinas deveria apenas criar uma imagem favorável para o CAI Canavieiro, ou seja, ficariam livres de denúncias sobre condições de trabalho precárias. Esta nova imagem seria estratégica para a expansão do mercado consumidor do álcool em outros países, conforme é relatado pelo Gerente Corporativo de RH de um grande grupo produtor de cana.

O compromisso nacional surgiu ainda no governo Lula, quando começou a despontar o programa de álcool no mundo. Como nós começamos aquele movimento de que nós estaríamos exportando álcool no mundo, nós sofremos uma série de reprovações e indagações do mundo, a respeito da mão de obra que nós tínhamos nas lavouras, a condição que nós, empresários, as empresas no Brasil, davam a esse trabalhador (informação verbal)13.

Uma certificação de “boas práticas” gerenciais no que tange as condições de trabalho seria utilizada como uma prova de que o CAI Canavieiro vinha atendendo as exigências da comunidade internacional, o que favoreceria a entrada do álcool no mercado mundial de combustíveis. Porém, o documento criado se tratou de um acordo de livre adesão, que possuía cláusulas que não avançavam, mas apenas afirmavam o que já era exigido pela legislação trabalhista, sendo criado sem a participação efetiva dos reais interessados, os trabalhadores

canavieiros. Ao omitirem práticas gerenciais que causam danos graves à saúde dos trabalhadores, como o pagamento por produção, as autoridades atestaram a ineficiência deste

Compromisso para melhorar as condições de trabalho no complexo, sendo apenas uma premiação para os empresários que cumprem a lei (ALVES; ADISSI, 2011; NASSER; SILVA, 2016). A falta de seriedade deste acordo também pode ser comprovada pela forma com que os selos foram obtidos pelas usinas, muitas vezes de maneira fraudulenta, como relata o Procurador do Trabalho de Araraquara, SP.

[...] na verdade não existiu nenhum processo de certificação, as normas falavam de um procedimento de certificação, mas não existiu. Foi completamente informal. A usina pagava, a empresa de auditoria entregava o relatório no mesmo instante. [...] Várias perguntas eram relacionadas ao médico, o auditor tinha que entrevistar o médico. O relatório informava que o médico não foi ouvido, e nas respostas lá. Eram sim, sim, sim. Foram muitos problemas. [...] E no caso de duas dessas usinas, o primeiro ponto da certificação era, se a usina contrata diretamente os trabalhadores rurais. Ao que foi respondido pela auditoria privada que sim, só que nessa, essas duas usinas, não tem nenhum trabalhador rural registrado em nome delas! (informação verbal)14.

Segundo notícia d’O Globo, 60 das 169 usinas certificadas com Selos do Compromisso estão sendo processadas devido a irregularidades trabalhistas, e das 85 usinas paulistas que foram premiadas com o selo, 26 tinham pendências trabalhistas em 2012 (RODRIGUES, 2012). O fracasso do Compromisso em promover melhorias nas condições de trabalho, e as diversas denúncias de fraudes na concessão de selos às usinas, levaram o governo federal a não renovar este programa a partir de 2013, apesar de não haver notas oficiais sobre o término deste acordo.

Procurador do Trabalho: Isso. A união não renovou o compromisso, então o compromisso...

[...]

Pesquisador15: Então não existe mais esse selo?

Procurador do Trabalho: Apesar do site... Pesquisador: Está lá ainda!

Procurador do Trabalho: É, eles informam de um jeito dúbio, eles estão mencionando nas ações ainda. Eles falam: validade até abril. Aí fica parecendo que na verdade não está atualizado, mas na verdade não... Pesquisador16: Já acabou.

Procurador do Trabalho: É, não prevalece. Mas na verdade não foi renovado... (informação verbal)17.

14 PROCURADOR DO TRABALHO DE ARARAQUARA (2013).

15 Apenas serão indicadas por nota de rodapé perguntas feitas por pesquisadores parceiros dos trabalhos de campo,

em todos outros casos, o autor desta tese é o arguidor.

16 Fábio T. Pitta

Gerente Corporativo de RH: Então isso [O Compromisso] funcionou, durante muito tempo, durante vários anos, mas depois, [...], isso arrefeceu e nós não tivemos qualquer tipo de evolução (informação verbal) 18.

Apesar do total fiasco que representou para a tentativa de melhoria das condições de trabalho, o Compromisso foi a certificação mais relevante sobre questões trabalhistas do CAI Canavieiro paulista, pois foi celebrada entre importantes setores da sociedade, inclusive governo e sindicatos. Outras certificações, criadas pelos próprios empresários, também são utilizadas para formar uma imagem de ‘Responsabilidade Social’ para as empresas do complexo, como a Better Sugar Cane Initiative (Bonsucro), criada em 2011, ou a Roundtable on Sustainable Biofuels (RSB) e o International Sustainability & Carbon Certification (ISCC).

Ao tentar obter selos que lhes confeririam maior credibilidade frente ao mercado consumidor do álcool, os empresários do complexo estão criando o que Silva (2008) chama de ‘ideologia do agribusiness’, através do qual as empresas tentam associar sua produção ao ‘progresso’ e ao ‘desenvolvimento’. A mecanização do corte de cana é central na criação desta ideologia, resistindo, até mesmo, ao discurso do desemprego19, com a criação de programas de

qualificação profissional como o Renovação. Criado pela UNICA e patrocinado por montadoras de máquinas colhedoras de cana, este programa possui resultados duvidosos sobre a garantia de emprego dos cortadores manuais substituídos pelas máquinas, mas grande efeito sobre a construção desta ‘ideologia do agribusiness’ (SALATA, 2013). Com a defesa da modernização agrícola, através da mecanização, e das práticas gerenciais respaldadas por certificações voluntárias, o discurso empresarial passa a defender que as relações trabalhistas melhoraram por voluntarismo dos empresários, escondendo os conflitos ainda existentes nos canaviais paulistas.

A dominância ideológica que é criada neste processo faz com que, mesmo que surjam denúncias sobre condições de trabalho precárias ou análogas à escravidão, sua repercussão é muito baixa frente à propaganda feita sobre os ‘benefícios socioambientais’ do álcool (MUNDO NETO, 2013). A assinatura de acordos de livre adesão foi responsável pela criação de uma forma de agir da gerência no CAI Canavieiro paulista com uma aparência de novidade, mas que é questionável se não são verificadas quaisquer mudanças estruturais nas relações entre capital e trabalho no sentido de superá-las.

18 GERENTE CORPORATIVO DE RECURSOS HUMANOS (2015).

19 É interessante notar que este mesmo discurso foi a principal justificativa dos empresários para não avançar com

a mecanização do corte na década de 1990, quando movimentos ecológicos denunciavam os problemas para a saúde da população causados pela queima dos canaviais (GOULART, 1997).