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Neste tópico, propõe-se uma análise das inter-relações entre a organização da atividade de estudo, da escola, e da criação de motivos para o conhecimento. Ainda refere-se à produção de sentidos pessoais para a utilização e assimilação dos conhecimentos, de forma que esses sentidos se constituam para o sujeito como sentidos humanizadores no processo de aprendizagem.

Para isso, faz-se, aqui, uma consideração sobre a atividade pedagógica e considera-se qual é o seu papel na organização do desenvolvimento da criança e as implicações que têm as relações do professor com o estudante, na formação da motivação para o estudo.

1.6.1 A exigência de direcionamento no processo de ensino-aprendizagem

O ensino exige um tipo específico de intencionalidade. Esta deve direcionar-se à criação de atividades que reproduzam certa experiência social, que é a fonte do desenvolvimento psíquico referente aos conteúdos de qualquer aprendizagem. Considerando- se que o professor é portador dessa experiência social e conhece os conteúdos significativos para seu desenvolvimento, deve, portanto, direcionar a atividade de estudo das crianças para a aprendizagem dos conteúdos.

A afirmação da exigência de tal direcionamento é ao mesmo tempo a afirmação de uma determinada compreensão sobre o desenvolvimento psicológico da criança. Ela se funda no conhecimento de que o desenvolvimento não ocorre natural ou espontaneamente por uma atividade própria e autônoma da criança, não é, ao mesmo tempo, resultado de um movimento maturacional independente da vontade dos sujeitos. O desenvolvimento produzido pelo ensino é um acontecimento mediado por condições especiais de experiências realizadas pela criança. Essas condições se encontram em uma atividade preparada pelo professor para isso. Assim, com essas experiências, a criança aprende a realizar ações e operações que efetivam a consecução de objetivos da atividade na qual participa, e interioriza as formas da sua realização apropriando-se, no meio social, das capacidades necessárias à sua realização (LEONTIEV, 1978)

No entanto, se o ensino realiza-se sob a exigência de transposição dos conhecimentos desenvolvidos e acumulados pela experiência social, para a experiência histórica individual,

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isso não representa efetivamente que a aprendizagem seja uma cópia fiel dos conteúdos, das formas de ser, de agir e de pensar presentes nessa atividade.

Além da atividade pedagógica que direciona o ensino, da existência de capacidades psíquicas que não se desenvolvem na criança espontaneamente e que, portanto, delas a criança deve apropriar-se na aprendizagem, ocorre, ao mesmo tempo, a autoatividade da criança, a qual é motivada pelas dimensões do afetivo, do emocional e do cognitivo, qualidades do ser do homem que relacionam o indivíduo ao seu meio e lhe impõem uma atitude diante de suas necessidades e de efetivação da sua vida.

Portanto, na composição do desenvolvimento de qualquer atividade pedagógica há que se considerar as inter-relações entre as exigências sociais de aprendizagem, as capacidades necessárias para o cumprimento dessas exigências e as necessidades afetivas, emocionais e cognitivas da criança. Somente na conjugação de tais elementos pode-se realizar uma atividade humanizadora que corresponda tanto às necessidades de desenvolvimento social quanto às do individuo.

Ao pensarmos sobre o processo educativo, a formação da personalidade aparece como fundamental, ou seja, aquilo que supera em valor para a formação, todo e qualquer conteúdo ou habilidades do ensino. Ela deve ser o fim último de qualquer processo educativo, tendo em vista que representa para o indivíduo o desenvolvimento de sua própria consciência e o valor que tem esse desenvolvimento para a efetivação de sua existência. Assim, os objetivos específicos de qualquer ensinamento são superados em importância pela formação da personalidade. É através dela que a criança atualiza os conteúdos de sua aprendizagem e estes a ela retornam como objetivação de sua existência.

O desenvolvimento da autonomia, qualidade que indica o grau de desenvolvimento psicológico da criança, exige o desenvolvimento da vontade como expressão do controle consciente das ações. Como se viu, a vontade da criança manifesta-se como qualidade de orientação da própria conduta e está fundamentada nas orientações do adulto durante a atividade que realizam em cooperação. Esse é um dos princípios da formação da personalidade e deve orientar a intencionalidade na produção da atividade pedagógica, porquanto a qualidade e o sentido que a aprendizagem terá, depende da formação da consciência e da personalidade da criança. É com esses recursos que a criança objetivará sua própria atividade.

Por outro lado, objetivação de qualquer fenômeno psíquico, característico do ser humano socialmente desenvolvido, indica que houve um processo de apropriação da atividade humana culturalmente produzida. Esse movimento de apropriação e objetivação, que

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caracteriza o desenvolvimento do ser humano, realiza-se pela assimilação da atividade externa (LEONTIEV, 1978). É nessa que devem encontrar-se os conteúdos objetivos, significados e simbolismo que devem ser internalizados pela criança.

Uma das características desse processo de apropriação da atividade social é que os seus conteúdos estruturais e sistêmicos, a sua racionalidade e dinâmica lógica, são assimiladas pelos sujeitos tornando-se formas de organização de sua própria atividade intelectual. Por conseguinte, podemos pensar que, além dos conteúdos operacionais, técnicos e racionais, os motivos e objetivos que implicam a existência da atividade (a que interessa essa atividade) são, também, de um ou outro modo, assimilados pelos sujeitos. Isso implica que na atividade ocorre sempre o surgimento de novas necessidades, motivações e objetivos que se tornam próprios dos indivíduos que a realizam e o correlacionam a outros interesses sociais.

Se há uma exigência de organização intencional da atividade pedagógica, quanto à utilização de determinados conteúdos significativos da cultura como objetos do conhecimento, não menos importante se revela a intencionalidade voltada para a criação das necessidades e motivações. Essas dão sentido à relação da criança com a atividade. A criação de sentido nas relações da criança indica de que forma ocorrerá o envolvimento dela. Nesse caso, a afetividade produzida na relação, torna-se o componente essencial da atividade educativa.

A compreensão de que há uma integração entre as esferas cognitiva e afetivo- emocional na atividade psicológica, torna-se o eixo primordial da organização e planejamento da atividade pedagógica. A perda do equilíbrio entre essas esferas, ou mesmo a desconsideração de algumas delas, causa, fatalmente, o comprometimento da harmonia na unidade complexa na qual se realiza a atividade humana. É pertinente deduzir a partir de Vigotski (2000, p. 25) que a afetividade constituinte da significação e os significados fazem a conexão entre todos os processos psíquicos integralizando-os em um sistema de relações como unidade, isto é, como coerente conexão da diversidade de elementos. Porque, assim como asseverou, ele considera que a análise do psiquismo,

Revela a existência de um sistema semântico dinâmico, representado pela unidade dos processos afetivos e intelectuais. Mostra como qualquer ideia encerra, transformada, a atitude afetiva do indivíduo para com a realidade representada nessa ideia. Permite também descobrir o movimento direcional que parte das necessidades ou impulsos do indivíduo para uma determinada intenção de seu pensamento e o movimento inverso que parte da dinâmica do pensamento para a dinâmica do comportamento e a atividade concreta da personalidade. (tradução nossa, grifo do autor)

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Podemos imaginar, em decorrência, como o envolvimento de uma criança com a atividade que ela realiza depende essencialmente das condições de produção da afetividade e de sentido que a forma de organização e realização da atividade produz. As ações e atitudes da criança são constituídas de motivos e objetivos que reproduzem a estrutura da atividade, porém, ocorre subjetivamente uma constante avaliação e orientação reflexiva da sua participação no conjunto das relações sociais. Tal participação aparece como representação na totalidade de sua existência. Assim, a forma como a criança se orientará na atividade representa sempre uma síntese das múltiplas determinações objetivas e subjetivas ligadas pela afetividade.

Na atividade de aprendizagem ocorre um processo de simbolização (articulação dinâmica entre significados) dos diversos elementos vivenciados. Como, por exemplo, Vigotski (2001, p. 168), quando analisa o desenvolvimento da palavra, afirma que “A formação de conceito ou a aquisição de sentido através da palavra é o resultado de uma atividade intensa e complexa (operação com palavra ou signo), da qual todas as funções intelectuais básicas participam em uma combinação original”. A significação, a simbolização e a produção de sentido são processos, portanto, essenciais da aprendizagem, e são, também, essenciais como fundamentos para a atividade pedagógica.

Todos os elementos constituintes – materiais ou ideacionais - da atividade estão em constante inter-relação. Isso tem um significado importante para a compreensão do movimento dialético que produz os fenômenos de simbolização. Essa, por sua vez, representa a significação reproduzida pela criança no processo de internalização dos conteúdos da atividade. A simbolização, em última instância, é a atividade subjetiva que orienta o indivíduo quanto ao seu envolvimento com a atividade.

A simbolização ocorre como um processo dialético no qual há a transposição – pela atividade do pensamento - de características de um objeto a outro, transformando o seu significado original. A articulação de diferentes signos (externamente) e significados internos produz novos sentidos. Esses adquirem uma nova configuração representativa de alguma dimensão da realidade e passam a reorientar o sujeito em suas ações com tais significados. A mediação de novos significados simbólicos altera a relação afetiva com determinado objeto, e com isso, o valor que ele tem para o indivíduo.

Assim, podemos concluir que o ato de ensinar encerra em si mesmo um complexo de componentes determinantes da formação integral do indivíduo, haja vista que atua sobre as esferas cognitivas, afetivas e emocionais dos sujeitos. É relevante, portanto, considerar a forma de envolvimento da criança com a atividade de estudo e seus conteúdos, esse

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envolvimento, por sua vez, deve fazer parte da intencionalidade do professor no momento de organização da atividade pedagógica.