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Antes de considerar as especificidades da atividade de estudo é necessário fazer uma distinção entre esta e a cognição em geral, já que aquela tem qualidades e delimitações que esta não possui. Além disso, o estudo representa atividade cognitiva encerrada em determinadas condições sociais.

A atividade cognitiva existe em todos os planos da evolução da vida. É um processamento das informações que entram na orientação e controle da existência pelos próprios seres vivos. Ao mesmo tempo, universaliza a forma de existência dos seres vivos, ou seja, todo ser vivo deve desenvolver-se cognitivamente para a sua manutenção (PINTO, 1969).

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A cognição engloba sempre, de alguma forma, os meios para a realização do metabolismo, ocorra ele no plano biológico por meio da assimilação e consumo da matéria inorgânica, ou por meio – no estágio mais desenvolvido do homem – da assimilação, aquisição e consumo dos produtos da cultura humana, que Leontiev (1978) chamou de “metabolismo social”. Assim, para dominar a natureza e satisfazer suas necessidades, o homem teve como exigência a organização de um processo de relações que o capacitassem para tal. Como afirma Vieira Pinto (1969, p. 13) “Este processo chama-se ‘conhecimento’. Estende-se dos primórdios da evolução biológica até as formas mais altas da escala animal e em sua manifestação superior se revela pelo surgimento de ideias na consciência humana.”

Dessa forma, a atividade cognitiva significa um processo gradual e histórico, tanto filogenético quanto social, que se amplia acumulando sempre os desenvolvimentos que dela resultam, como, por exemplo, o desenvolvimento do intelecto e, depois, do pensamento (VIGOTSKI, 1996). Na sua existência, entram em jogo todas as possibilidades biológicas, materiais e existenciais, que implicam a multiplicidade de relações possíveis aos homens, incluindo toda forma de conhecimento não sistematizado racionalmente, os instintos e os reflexos condicionados, por sua vez.

A principal característica da atividade cognitiva é a busca de sinais que se transformam em informações como processo intelectual de orientação das atividades vitais. Esses sinais se transformam por meio da sensação, percepção, discriminação, análise, síntese, abstração, experimentos etc. (LEONTIEV, 1978). Nesse sentido, cada indivíduo4 realiza uma atividade de busca de informações que se transformam em constituintes da própria orientação individual, a que se pode caracterizar como uma forma de conhecimento da realidade. Como afirma Leontiev (1978, p. 267), “Podemos dizer que cada indivíduo aprende a ser um homem. O que a natureza lhe dá quando nasce não lhe basta para viver em sociedade. É-lhe ainda preciso adquirir o que foi alcançado no decurso do desenvolvimento histórico da sociedade humana.” (grifo do autor)

Analisando os processos de desenvolvimento no primeiro ano Vigotski (1996, p. 286) afirma que as manifestações de novas formas de conduta como a experimentação lúdica, o balbucio, a atividade inicial dos órgãos sensoriais, por exemplo, indicam que “[...] a



4 “[...]o conceito de indivíduo se baseia na indivisibilidade, na integridade do sujeito e na presença das particularidades que lhe são próprias. Sendo um produto do desenvolvimento filo e ontogenético em determinadas condições externas, o indivíduo, não obstante, não é em absoluto uma mera “cópia” dessas condições, é justamente um produto do desenvolvimento da vida, da interação com o meio e não do meio tomado em si mesmo (LEONTIEV 1978a, p.a136/137) (grifo do autor)

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passividade do recém nascido frente ao mundo é deslocada por um interesse receptivo que se manifesta em novas manifestações da atividade receptora em estados de vigília.”

A busca de sinais e informações pode ser entendida como meio de mediação para a objetivação de uma dada ação, ou conjunto de ações de uma atividade. Ela esta ligada à resolução de uma tarefa individual. Ilyenkov (2010, p. 14-15) afirma, fundamentando-se na proposição de Leontiev5 de que o princípio geral de formação do psiquismo é o surgimento de funções baseadas na geração de imagens (visuais, táteis, auditivas, de movimento etc.), que é a condição de busca de elementos que garantam o metabolismo, a sobrevivência, que formam o pré-requisito para o psiquismo, “[...] a capacidade de mover-se ativamente no espaço, em busca de alimento, água, e assim por diante.” (tradução e grifo nossos)

Continuando, afirma ainda que, nos níveis mais altos de desenvolvimento da atividade psíquica, isto é, “atividade de busca, movimento do organismo entre os corpos do mundo externo, entre os ‘obstáculos’ que impedem o ‘auto-fechamento’ do ciclo de trocas” metabólicas, o pré-requisito como imagem, aparece como “consequência”, como resultado dessa atividade de busca. Afirma, então, que em razão da separação entre a necessidade individual e o seu objeto (objeto material da necessidade orgânica), em busca desse objeto de sua necessidade “o animal supera a distância por meio de seu próprio movimento em direção a ele, ‘é desenhado para alimentar-se pelo açoite da necessidade’ e fecha o ciclo.”

Esse autor afirma, ainda, que se para o animal essa forma de expressão da psique é inata, para o homem é diferente, não ocorre de forma imediata ao nascimento. Como ele afirma, “[...] ela ainda deve tomar forma, o bebê não apresenta qualquer tentativa, até mesmo as mais desajeitadas, para se mover em uma direção particular.” (ILYENKOV 2010 p. 15-16). É também compreendendo dessa forma que Leontiev (1978, p. 270), afirma que,

A principal característica do processo de apropriação ou de “aquisição” que descrevemos é criar no homem aptidões novas, funções psíquicas novas. É nisto que se diferencia do processo de aprendizagem dos animais. Enquanto este último é o resultado de uma adaptação individual do comportamento genérico a condições de existência complexas e mutantes, a assimilação no homem é um processo de reprodução, nas propriedades do indivíduo, das propriedades e aptidões historicamente formadas da espécie humana. (grifo em itálico do autor, grifo em negrito, nosso)

É fundamentado nessas proposições que afirmo que a atividade de estudo é um fenômeno social que tem a busca individual - ainda que a atividade do indivíduo seja social por gênese histórica- como base, mas que só ocorre em atividade grupal, como manifestação



5 LEONTIEV, A. Activity. Consciousness. Personality [Deiatel’nost’. Soznanie. Lichnost’] (Moscow, 2004), p. 12.

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da consciência desenvolvida social e historicamente. Esta afirmação se baseia no fato de que o conteúdo da atividade de estudo é caracterizado por processos do pensamento que dependem, para o desenvolvimento da sua forma mais avançada, da ação inter-psicológica, isto é, a reflexão lógico-verbal, o planejamento grupal, a modelação baseada em significados sociais e a análise por categorias presentes na prática social.

De fato, com o desenvolvimento histórico dos homens, multiplicaram-se suas necessidades, complexificaram-se as suas relações com o mundo material e social, emergindo daí a exigência da organização da produção do conhecimento em formas diferentes das até então realizadas no reino animal. A produção coletiva de informações e de conhecimentos tornou-se uma necessidade da atividade de trabalho e da cooperação entre os homens. A pesquisa científica revela-se, segundo Vieira Pinto (1969), como essa forma mais avançada de produção do conhecimento para a resolução dos problemas humanos.

Assim, a pesquisa científica distingue-se da cognitiva – mais geral – porquanto sua organização racional alcança planos de sistematização conscientemente elaborados pelos homens, transformando-se em atividade cognitiva sob domínio social.

Quero considerar que a atividade de pesquisa científica também representa de forma mais ampla o estudo consumado pelo conjunto da sociedade humana na resolução dos seus problemas, como um estudo socializado da problemática humana. Valho-me de uma afirmação de Vieira Pinto (1969, p. 14), na qual ele, segundo a minha compreensão, confirma o uso da inteligência humana de forma coletiva como atividade produtora de conhecimentos. Nesse enfoque, seria um erro acreditar que o estudo científico resulta de obra individual. Assim ele afirma que:

O mais funesto dos erros que poderíamos cometer na discussão do tema da pesquisa científica seria isolar esta atividade do processo a que pertence e que a justifica; seria considerá-la à parte, tomando-a por efeito da iniciativa individual, produto de uma vocação, feliz casualidade, enfim, aspecto parcial, delimitado e desraizado do processo contínuo e incessante de conquista do conhecimento do mundo pelo homem, no qual unicamente o ato indagador encontra explicação lógica e existencial.

Além de diferenciar-se da cognição em geral, que também ocorre no plano individual, e apresentar-se como atividade social de estudo, esta ainda se apresenta no âmbito da educação, como atividade de estudo escolarizada. Assim, é na escolarização da atividade de pesquisa que encontraremos a formação de indivíduos que, um dia, exercerão ações mais complexas de estudos científicos para a sociedade. Daqui decorre outra questão que há de se considerar. Mesmo como estudo escolarizado - uma prática social - os indivíduos também executam atividades próprias de busca de informações e produção de conhecimento.

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Quero enfatizar, aqui, o fato de que a pesquisa é uma atividade psicológica (de busca) antes mesmo de tornar-se, no indivíduo, uma forma social de produção de conhecimento sistematizado. Portanto, cada indivíduo, no processo de sua formação social, vale-se da pesquisa (busca) como forma de orientação da sua atividade psicológica, durante o processo de sua individualização como ser social. A atividade psicológica de busca pode se transformar, gradualmente, pelo processo educativo, em pesquisa científica por meio da atividade de estudo. Por isso, a forma como a pesquisa científica (atividade mais avançada) é realizada serve de parâmetro para a crítica da atividade de estudo realizada na escola.

Portanto, a afirmação de que a atividade de estudo é social não exclui que ela seja ao mesmo tempo individual. Analisando a atividade de pesquisa a partir do conceito de totalidade e da unidade dialética e, considerando as inter-relações entre a parte e o todo, Vieira Pinto (1969, p. 14) afirma que:

Qualquer ato definido de pesquisa de algum dado da realidade só pode ser entendido como determinado pela totalidade do conhecimento existente no

momento; mas, por outro lado, precisamos igualmente compreender que o

todo do conhecimento presente em cada época se constituiu pela

acumulação destes atos singulares, que são as distintas pesquisas da

realidade empreendidas cada qual num determinado instante, num determinado lugar, por um investigador individual. (grifo nosso)

Por conseguinte, quero esclarecer qual é a delimitação da atividade de estudo, o centro da nossa preocupação. Quando proponho conhecermos a formação do aprendiz e sua motivação para com o conhecimento, é na atividade de estudo realizada na escola que encerro o núcleo desta análise. Para tanto, objetivo a análise das ações de estudo, em suas dimensões social, individual e escolar.