Se no seu aspecto social a atividade de estudo é produzida culturalmente, por outro lado, o sujeito produtor de conhecimento é também indivíduo. Representa uma unidade de atividade viva que tem particularidades históricas que o distinguem da massa dos sujeitos sociais. No conjunto da sociedade, é ele quem executa as ações que dão vida objetiva à produção de conhecimentos. Assim, pode-se dizer que esse indivíduo, agindo, produz pensamentos, reflexões e conhecimentos. Concluímos que o estudo é ao mesmo tempo, uma atividade individual.
Se, de forma geral, a atividade de estudo socialmente constituída se realiza nos processos de pesquisa e recuperação do conhecimento já produzido e apresentação dos seus resultados à comunidade científica, por meio de artigos, livros, congressos, etc., pode-se perguntar, então, como se realiza individualmente. Qual é o seu momento distintivo da aula, da discussão com professores e autores, da reflexão coletiva.
Há um momento em que o sujeito se encontra só na realização de ações de estudo. Ele deve cumprir tarefas. Já se definiu o estudo como atividade distintiva das demais por compreender ações específicas segundo um modelo lógico baseado na ciência. Também, que são próprias de sua constituição as ideias e métodos produzidos nessa forma de pesquisa.
Agora precisamos compreender a tarefa de estudo e como ela pode se caracterizar como individual.
Para Leontiev (1978, p. 82), tarefa pode definir-se como “um fim dado em determinadas condições”. A finalidade é componente estruturante de uma ação ou de uma atividade consciente. As operações de uma ação ou as ações - em seu conjunto - são
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previamente orientadas (motivadas) pelos objetivos finais que se pretendem alcançar. Assim, o resultado final da ação, o seu fim, é a tarefa que se tem que cumprir.
Os “componentes” principais de algumas atividades dos homens são as ações que eles realizam, denominamos ação ao processo subordinado à representação que se tem do resultado que deve alcançar-se, isto é, ao processo subordinado a um fim consciente. Do mesmo modo que o conceito de motivo se correlaciona com o conceito de atividade, o conceito de fim se correlaciona com o conceito de ação.
Se na atividade coletiva, em um determinado grupo, um sujeito responsabiliza-se por algumas ações que, na cooperação com as ações de outros sujeitos, fazem com que se alcancem objetivamente seus fins, já na ação individual essa cooperação aparece como a da conexão das operações práticas e intelectuais que se revelam como pensamento, como atividade subjetiva e ou prática individual. Isso quer dizer que, no momento da realização de uma tarefa de estudo, mesmo em uma sala de aula, por exemplo, o sujeito deve contar com recursos próprios para o cumprimento de seus objetivos, ou seja, recursos da atividade consciente do pensamento.
Depois de passar por um processo de assimilação das ações e operações necessárias à distinção dos componentes de um conceito, ou resolução de um problema posto como atividade de estudo grupal, por exemplo, ao estudante é sugerida a realização de tarefas individuais de estudo. Nesse momento, é que ocorre uma intensa atividade subjetiva de coordenação dos recursos intelectuais e o estudo toma a feição de individual.
Nessa atividade, o estudante deve representar os modelos e operações de pesquisa (busca) de forma gráfica ou verbalmente; discriminar qualidades específicas para descrever e categorizar objetos; estabelecer correlações; comparar elementos; avaliar o resultado de suas hipóteses e cálculos com as qualidades dos modelos assimilados; analisar e refletir sobre seus métodos etc.(DAVIDOV, 2003). Para realizá-las, ele recorrerá a todas as funções psíquicas superiores, fundamentadas na “construção de imagens da realidade objetiva (seu reflexo)” e na “realização com base nessas imagens, de buscas e provas de movimentos e ações cuja realização controlada leva à satisfação das necessidades” (DAVIDOV, 1988 p. 37), que trabalham em unidade e têm como elo de conexão entre elas a hierarquização avaliativa dada pela afetividade.
Assim, nesse conjunto de funções psíquicas em “unidade complexa”, que representa o processo ontológico de apropriação das capacidades humanas, expressa-se a possibilidade da autoria em um dado momento da atividade social. Para tanto, é necessária a aprendizagem das ações e operações da atividade de estudo. Essas, por sua vez, não se fundam na exclusiva
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atividade escolarizada, visto que seus componentes psicológicos têm uma longa história de “atividades principais” que levaram ao desenvolvimento de capacidades componentes do estudo. Davidov (1988, p. 74) esclarece que
A atividade de estudo se forma nas crianças de seis a dez anos. Sobre sua base surge, nos escolares de menor idade, a consciência e o pensamento teóricos, se desenvolvem as capacidades correspondentes (reflexão, análise,
planificação mental) e também as necessidades e motivos de estudo.
(tradução e grifo nosso)
Pensar sobre a base de formação das referidas capacidades componentes da atividade de estudo – reflexão, análise e planificação mental – implica refazer a sua gênese ontológica nas diferentes atividades que a precedem. Assim, no processo de formação do indivíduo encontramos atividades que: 1) desenvolvem a comunicação e um posicionamento (análise) emocional diante do mundo objetivo em relação a si mesmo, importantes para a compreensão e assunção das problemáticas propostas na formação da atividade; 2) se fundam na atividade motora sobre e com os objetos que desenvolvem, do ponto de vista da sensibilidade e da motivação, formas de planificação de percursos da atividade perceptiva e motora, isto é, esquemas de ação, e métodos de percepção; 3) organizando-se junto com a comunicação e a atividade com objetos desenvolve-se a organização lógica da coexistência do objeto com os homens em um sistema de relações (reflexão) – a função social do objeto – que incluem o objeto em um gênero de atividades e significados desenvolvidos pela linguagem; 4) com essas formações antecedentes cria-se a possibilidade de estabelecer relacionamentos sociais de inter-relação, com outros indivíduos, na organização de atividades grupais que exigem a imaginação e a criatividade, necessárias à reflexividade, para a orientação e controle (plano de ação) da atividade em relação à tarefa que deve cumprir.
Contudo, isso não quer dizer que a criança que passou por todas essas formas de atividades sociais chegou à escola pronta para estudar. Todos esses desenvolvimentos caracterizam o processo de formação do indivíduo social apto, mas não suficiente, para ingressar na atividade escolarizada de estudo. Não se quer afirmar que o estudo como atividade individual representa um processo espontâneo de capacidades inatas ou adquiridas. A questão fundamental aqui é que a atividade de estudo precisa desse prévio desenvolvimento sócio-histórico para que o indivíduo possa ser incluído como sujeito na atividade de estudo.
É individual porque o sujeito adquiriu capacidades e autonomia para o cumprimento de tarefas (operações e ações de estudo), mas continua sendo social, porquanto reproduz formas e interesses sócioculturais de produção de conhecimento. Porém, isso tudo deve ser ensinado com a atividade grupal no interior da atividade escolar. A criança deve aprender a
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estudar e resolver problemas individualmente, com propósitos e como parte da atividade social. Aqui se encontra uma inextrincável relação entre o social e o individual, a formação do sujeito da atividade de estudo. Como afirma Davidov (1988, p. 11),
O sujeito individual, por meio da apropriação, reproduz em si as formas histórico-sociais da atividade. O tipo geneticamente inicial de apropriação é a participação do indivíduo na realização coletiva, socialmente significativa, da atividade, organizada de maneira objetal-externa. Graças ao processo de interiorização, o cumprimento desta atividade se converte em individual e os meios de sua organização, em internos.
Se do ponto de vista social o estudo tem a tarefa de incluir o indivíduo em uma prática que altera a sua consciência, a sua forma de participação e atuação grupal, do ponto de vista individual a tarefa que se cumpre é a própria transformação da personalidade. Na luta pela apropriação dos meios psicológicos para a realização das tarefas sociais de estudo, o aprendiz ocupa um lugar que o localiza diante de um mundo de vivências afetivas que o constituem como sujeito autor de ações. Isso implica a formação de sentidos pessoais para a realização de suas tarefas e, com isso, ocorre uma exigência de autotransformação. Como afirma Repkin (2003, p. 15) “ [...] a atividade de estudo deve ser entendida como a atividade para a automudança do sujeito”. Para o autor, essa é a tarefa da atividade de estudo.
Portanto, é tarefa da escola - antes de exigir dos indivíduos a vontade, a determinação, a inteligência, o interesse – dar continuidade ao desenvolvimento das capacidades que se formam nas atividades pré-escolares e se organizam sob uma forma mais complexa como é a de estudo. Isso implica articular a inclusão do aprendiz como sujeito em uma nova atividade para a consciência, o que significa articular mudanças significativas na própria comunidade escolar.