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O direito à imagem, como analisado anteriormente, está esculpido como um direito da personalidade na CF. De outra sorte, a tutela ao direito à imagem também se encontra mencionada no art. 20 do CC. No Brasil, os litígios sobre tais direitos são resolvidos na jurisdição dos Tribunais dos Estados da República Federativa, notadamente pela unicidade do direito civil e processo civil, no âmbito federal. É competência da justiça comum estadual, nos juízos cíveis das localidades (comarcas) onde as leis de organização judiciária tenham determinado sua criação.

A lei processual civil257 garante recurso contra as sentenças de juízos monocráticos de

primeira instância aos Tribunais recursais, por meio de recurso de apelação. Julgadas tais apelações pelos Tribunais recursais, abre-se a possibilidade constitucional, ainda que subordinada a determinadas condições, de recursos excepcionais aos chamados Tribunais

256 VALE, André Rufino do. Eficácia dos direitos fundamentais nas relações privadas cit., p. 214. 257 CPC, Lei 5.869, de 11 de janeiro de 1973.

Superiores. Referidos recursos estão previstos na CF e disciplinados na Seção II, Capítulo VI, Título X, do CPC, que trata do Recurso Extraordinário e do Recurso Especial, artigos 541 a 546, bem como pelos regimentos internos do STF e STJ.

O art. 105, III, da CF determina que compete ao STJ julgar, em Recurso Especial, as causas decididas, em única ou última instância, pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos Tribunais dos Estados, do Distrito Federal e Territórios, quando a decisão recorrida contrariar tratado ou lei federal, ou negar-lhes vigência (letra a), ou der a lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal (letra c). Por outro lado, art. 102, III, da CF reza que compete ao STF julgar, em Recurso Extraordinário, as causas decididas em única ou última instância, quando a decisão recorrida contrariar dispositivo desta Constituição (letra a) ou declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal (letra b). Alteração constitucional havida em 2004 passou a exigir do recorrente a demonstração, na interposição do Recurso Extraordinário, da repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso, a fim de que o Tribunal examine a admissão do recurso, somente podendo recusá-lo pela manifestação de dois terços de seus membros (art. 102, § 3.º).

Nos casos concretos levados a juízo em relação aos direitos da personalidade, direito à imagem incluso, prevista no CC e também na CF, abre-se, em teoria, a possibilidade de interposição de Recurso Especial ao STJ sob o fundamento de uma interpretação não adequada ao art. 20 do CC e, de outro lado, uma porta de um Recurso Extraordinário, ao STF, de viés constitucional, sob o fundamento de uma interpretação pelos Tribunais dos Estados que contrariam o direito à imagem previsto na CF. Os recursos constitucionais aos tribunais superiores passam pelo crivo do funil do juízo de admissibilidade, tanto nos tribunais de origem recorridos, quanto nos tribunais superiores.

A pertinência do direito à imagem ao texto constitucional muitas vezes permite a abertura da via extraordinária de revisão da sentença definitiva no tribunal de origem. Com a Emenda Constitucional 45, que introduziu, em 2004, a necessidade de demonstração da repercussão geral das questões discutidas no caso individual, estreita-se sobremaneira a apreciação de violação ao direito constitucional à imagem pelo STF. A partir da Emenda Regimental 21 do STF, de 30 de abril de 2007258, o STF passou a inadmitir recursos que não

258STF, Regimento Interno: “Art. 322. O Tribunal recusará recurso extraordinário cuja questão constitucional não oferecer repercussão geral, nos termos deste capítulo: Parágrafo único. Para efeito da repercussão geral, será considerada a existência, ou não, de questões que, relevantes do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico, ultrapassem os interesses subjetivos das partes. (...) Art. 327. A Presidência do Tribunal recusará recursos que não apresentem preliminar formal e fundamentada de repercussão geral, bem como aqueles cuja matéria carecer de repercussão geral, segundo precedente do Tribunal, salvo se a tese tiver sido revista ou estiver em procedimento de revisão. § 1.º Igual competência exercerá o(a) Relator(a) sorteado, quando o recurso não tiver

tenham preliminar formal e fundamentada de repercussão de questões constitucionais discutidas, que passa a ser exigível a partir de 3 de maio de 2007, quando foi publicada a alteração regimental aqui mencionada259.

Assim, o STF, no julgamento de casos concretos relativos ao direito à imagem, tenderá a não apreciar a questão260, salvo em hipóteses especialíssimas, e a ponderação do caso a caso

tenderá a remanescer nas mãos do STJ.261 Esse entendimento parece ser matéria já pacificada

no sentido de que inexiste repercussão geral da discussão acerca da ocorrência de dano à imagem ou à honra.262

O STJ, de seu lado, como tribunal especializado em questões infraconstitucionais, se abstém de avaliar em sede de Recursos Especiais interpostos questões de violação aos artigos da CF que tratam de direito à imagem (e de direitos da personalidade) ou de direitos da

sido liminarmente recusado pela Presidência. § 2.º Da decisão que recusar recurso, nos termos deste artigo, caberá agravo”.

259 Nesse sentido ver AI 664.567 QO/RS, relator Ministro Sepúlveda Pertence, j. 18.06.2007, Tribunal Pleno, DJe 06.09.2007: “III. Recurso extraordinário: exigência de demonstração, na petição do RE, da repercussão geral da questão constitucional: termo inicial. 1. A determinação expressa de aplicação da L. 11.418/06 (art. 4.º) aos recursos interpostos a partir do primeiro dia de sua vigência não significa a sua plena eficácia. Tanto que ficou a cargo do Supremo Tribunal Federal a tarefa de estabelecer, em seu Regimento Interno, as normas necessárias à execução da mesma lei (art. 3.º). 2. As alterações regimentais, imprescindíveis à execução da L. 11.418/06, somente entraram em vigor no dia 03.05.07 – data da publicação da Emenda Regimental n. 21, de 30.04.2007. 3. No artigo 327 do RISTF foi inserida norma específica tratando da necessidade da preliminar sobre a repercussão geral, ficando estabelecida a possibilidade de, no Supremo Tribunal, a Presidência ou o Relator sorteado negarem seguimento aos recursos que não apresentem aquela preliminar, que deve ser ‘formal e fundamentada’. 4. Assim sendo, a exigência da demonstração formal e fundamentada, no recurso extraordinário, da repercussão geral das questões constitucionais discutidas só incide quando a intimação do acórdão recorrido tenha ocorrido a partir de 03 de maio de 2007, data da publicação da Emenda Regimental n. 21, de 30 de abril de 2007”.

260 ARE 911511 AgR/RJ AgRg no Recurso Extraordinário com Agravo, relator(a) Ministro Marco Aurélio, Primeira Turma, j. 27.10.2015: “Recurso Extraordinário – Matéria fática e legal. O Recurso Extraordinário não é meio próprio ao revolvimento da prova, também não servindo à interpretação de normas estritamente legais. (...) Descabimento, Recurso Extraordinário. Apreciação, matéria infraconstitucional, configuração, dano moral, motivo, publicação, matéria, jornal, notícia falsa, conduta irregular, participação, evento esportivo, incidência, uso indevido, imagem, autor, bombeiro, profissional. Utilização, critério, ponderação, interesse, resolução, conflito, direito, liberdade de imprensa, liberdade de informação, igualdade, hierarquia constitucional, direito da personalidade”.

261 STF, ARE 880861/SP 0007442-79.2012.8.26.0201, relator Ministro Roberto Barroso, j. 11.05.2015: “A análise da ocorrência de eventual afronta aos preceitos constitucionais invocados no apelo extremo demandaria a análise da legislação infraconstitucional aplicável à espécie e do reexame da moldura fática constante no acórdão regional, o que refoge à competência jurisdicional extraordinária, prevista no art. 102 da Constituição Federal”. No mesmo sentido: ARE 894511 AgR/SP Ag.Reg. no Recurso Extraordinário com Agravo, relator(a) Min. Gilmar Mendes, j. 04.08.2015, Segunda Turma, DJe-166, divulg. 24.08.2015, public. 25.08.2015.

262 ARE 906856 AgR/MG Ag.Reg. no Recurso Extraordinário com Agravo, relator(a) Min. Roberto Barroso, j. 06.10.2015, Primeira Turma, DJe-212, divulg. 22.10.2015, public. 23.10.2015. No mesmo sentido: “O Plenário da Corte, no exame do ARE 739.382/RJ, relator o Ministro Gilmar Mendes, concluiu pela ausência de repercussão geral do tema relativo à configuração da responsabilidade civil por dano à imagem ou à honra, haja vista que o deslinde da questão não ultrapassa o interesse subjetivo das partes, tampouco prescinde do reexame de fatos e provas” (ARE 894024 AgR/SE Ag.Reg. no Recurso Extraordinário com Agravo, relator(a) Min. Dias Toffoli, j. 06.10.2015, Segunda Turma, DJe-224, divulg. 10.11.2015, public. 11.11.2015).

comunicação (direitos de informar e ser informado, aí incluídos), uma vez que tal jurisdição implicaria em invasão de competência atribuída constitucionalmente ao STF263.

Há ainda que se anotar neste tema que, dentre as restrições de reexame pelo STJ de recursos a ele dirigidos, está a Súmula 07, que veda a reapreciação de reexame de prova. Com este fundamento, grande parte dos recursos apresentados àquele tribunal superior é indeferida264. Casos de violação ao direito à imagem que implicam em reapreciação de fatos e

das provas colhidas no processo pelo tribunal de origem igualmente não serão apreciados. Em particular, a comprovação da existência de danos à imagem e da atribuição do valor da indenização, com raras exceções, costumam ficar fora da seara de apreciação do STJ.

Em conclusão, os recursos dirigidos ao STF relativos aos direitos à imagem, ainda que se refiram a direitos fundamentais, somente tenderão a ser admitidos quando houver repercussão geral da decisão do Tribunal de origem. De outro lado, os recursos dirigidos ao STJ com base em colisão de direitos fundamentais tenderão a não ser admitidos por versarem matéria constitucional. Os recursos dirigidos ao STJ com base em negativa de vigência da teoria geral do direito de personalidade inserida no CC poderão ser conhecidos, salvo se versarem sobre a prova do dano265, a reapreciação de provas ou o quantum indenizatório fixado, exceto

se arbitrado de forma exagerada ou irrisória. Em relação às relações jurídicas (negócios jurídicos) relativos à imagem, incidirão as mesmas regras de admissibilidade aplicáveis às disputas contratuais266.

263 Cite-se como exemplo: “No tocante à alegada ofensa aos artigos da Constituição Federal, tem-se por inviável a análise de contrariedade a dispositivos constitucionais, nesta via recursal, o que implicaria a usurpação de competência atribuída ao eg. Supremo Tribunal Federal (CF/88, art. 102)” (STJ, REsp 1.407.907/SC, 2013/0327526-0, relator Ministro Marcos Buzzi, Quarta Turma, j. 02.06.2015, DJe 11.06.2015). Ainda, no mesmo sentido: “Recurso Especial. Ação de indenização. Dano moral. Direito à imagem. Morte em acidente automobilístico. 1. Descabe a esta Corte apreciar alegada violação de dispositivos constitucionais, sob pena de usurpação da competência do Supremo Tribunal Federal, ainda que com intuito de prequestionamento. 2. Havendo violação aos direitos da personalidade, como utilização indevida de fotografia da vítima, ainda ensanguentada e em meio às ferragens de acidente automobilístico, é possível reclamar perdas e danos, sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, conforme art. 12 do Código Civil/2002” (STJ, REsp 1005278⁄SE, 2007⁄0264631-0, relator Ministro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, j. 04.11.2010).

264 STJ, REsp. 1461352/SP, 2012/0157387-5, relator Ministro João Otávio de Noronha, Terceira Turma, j. 17.03.2015, DJe 24.03.2015: “2. Estando a decisão baseada no conjunto fático-probatório da causa para confirmar, ainda que em embargos infringentes, terem ficado configurados os danos morais e à imagem da parte autora, não há como alterar esse entendimento sem reexame da situação fática própria de cada julgamento, o que é inviável na instância especial. Incidência da Súmula n. 7/STJ. 3. Em sede de recurso especial, só é admitida a revisão do quantum arbitrado a título de danos morais na hipótese em que o valor seja irrisório ou abusivo”.

265 “A pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial” (Súmula 7/STJ). 266 “A simples interpretação de cláusula contratual não enseja recurso especial” (Súmula 5/STJ).

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Benzer Belgeler