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Evrende Tek Töz Olarak Tanrı ya da Doğa

2. Çalışmanın Amacı ve Kapsamı

1.1. Ethica'ya Genel Bir Bakış

1.1.2. Evrende Tek Töz Olarak Tanrı ya da Doğa

Nesta pesquisa, partimos do pressuposto de que uma escuta psicanalítica seria suscetível de ser instituída em qualquer lugar, desde que se impusesse a presença do analista, no encontro, com um sujeito disposto a falar; e, ainda, desde que houvesse a elaboração de um pedido de escuta. A hipótese, subjacente à nossa aposta, de que a oferta poderia vir a criar a demanda se revelou frutífera, no caso Maria.

A proposição presente na disponibilização de um espaço de escuta foi sustentada pela implicação do analista na escuta clínica. Cada um sustenta, de modo singular, sua implicação no desejo de escuta; e, dessa forma, faz sua aposta, se responsabiliza pelo desejo — e, no que ele pode apontar de travessia incerta, conta sempre com uma margem de risco.

Esse processo, ocorrido durante a pesquisa, implicou uma mudança de posição, a vivência de uma travessia: da posição inicial, como pesquisadora, à sustentação de um lugar de escuta, como analista. Como já mencionado, chegamos na instituição propondo a realização de uma pesquisa. Tínhamos interesse em fazer entrevistas. Buscávamos, porém, em última instância, estabelecer uma relação transferencial, o que apontava para o estabelecimento de um espaço de escuta psicanalítica. Era uma aposta de risco, não havia demanda até aquele momento naquele local.

Assim, a pesquisa envolveu diversas experiências de estrangeiridade. Não só aquela inerente à existência de um espaço de escuta; mas ainda aquela vinculada ao impacto suscitado pelo encontro da analista com a sua estrangeiridade, tornada presente na lida com um território desconhecido. Um território geográfica e socialmente distante de sua experiência cotidiana, como moradora da cidade, e da sua vivencia profissional anterior, a de receber pacientes em consultórios ou em instituições em que a escuta psicanalítica já estivesse estabelecida.

A pesquisadora e psicanalista esteve também convocada a um movimento de elaboração, no que contava com a presença da sua implicação, tanto na escuta como na travessia que representava chegar a um lugar desconhecido e fazer uma proposição. Cabe lembrar, nesse âmbito, Lacan (1958) quando afirma que o analista, ao disponibilizar um espaço de escuta, paga com palavras, se houver efeito de interpretação; paga também

como suporte na relação transferencial, para o surgimento de qualquer fato singular; e ainda, paga com seu ser, pois as intervenções exigem sua presença. Desse modo, é a partir da sua implicação que o psicanalista “maneja” com os lugares transferenciais ocupados no decorrer de uma relação de escuta em psicanalise, em um processo que envolve tanto analista como o sujeito.

Cabe reiterar que a abertura e a sustentação para a presença do inédito, do estrangeiro, do diferente, é algo próprio à posição do analista. Independentemente do contexto social, existe, no espaço de escuta, uma aposta na possibilidade de inscrição do desejo — embora oportunidades e potencialidades diferenciadas, associadas a esse contexto, estejam presentes e marquem lugares sociais diferenciados de inserção no laço social.

O modo de desenvolvimento da pesquisa ofereceu possibilidade de recorte, a partir da escuta dos sujeitos. Essa escuta apontava para um silenciamento do sujeito associado a algo do traumático, paradoxalmente presente no excesso, no que é dito, de modo contínuo, sem que esse sujeito possa incluir-se enquanto tal na sua própria fala. Tal silenciamento, em alguns casos, se manifesta como “agir”, encontrando dificuldade em expressar-se de outra maneira. Evidencia-se aqui a presença de uma antecipação classificatória, que oferece ao sujeito poucas oportunidades de falar a partir da sua singularidade. Configura-se, então, um ponto de tensão, no qual se sobrepõem o silenciamento associado ao traumático e o silenciamento evocado pela captura do sujeito por uma conjuntura em que os saberes se sobrepõem à singularidade. Na medida em que envolve um corpo à margem do social, em muitas situações o sujeito pode vir a ser classificado como ‘o pobre’, ‘o abandonado’, ‘o miserável’, ‘o bandido’. Essas qualificações preconceituosas produzem um distanciamento e oferecem subsídios para produção do “objeto tabu”, corpo que deve ser sacrificado.

Esse sujeito encontra-se, em muitos momentos, “excluído” do social; ou conta como aquele que está “fora” em relação a algum padrão social. Paradoxalmente, encontra- se “dentro”, fazendo parte, porém é classificado como sendo aquele que é de “fora”. Tende, desse modo, a se manter retido em um único modo identificatório, impossibilitado de estabelecer laço social. Ocupa, em muitos momentos, a posição do bárbaro, marcado em sua origem pelo “não pertencimento”, contaminado por alguma violação ou pelo contato com alguém próximo que o violou e contaminou. A pulsão de destruição, expressa nos preconceitos, incide como um saber sobre aqueles que quase não pertencem ao grupo social. Pertencem, não pertencendo — como se foradentro se mantivessem.

Não por acaso, um dos pontos que se atualizaram e reapresentaram, em muitos momentos, na escuta do caso Maria foi o “dentro” e “fora” enquanto espaços separados, entrecruzados, sobrepostos e indiferenciados, que mudavam conforme as posições transferenciais, com efeitos na relação de escuta. Algo escapava, frequentemente, à possibilidade de simbolização e comparecia nesse dentrofora, na inclusãoexclusão de sentido — como se um sentido impossibilitasse a presença do outro e levasse à estagnação, à repetição, à enrijecimento em uma única posição.

É significativa a existência desse ponto enigmático na escuta do caso, colocado justamente nesse dentrofora do espaço de escuta, sustentado em uma situação de pesquisa. Pesquisa psicanalítica e escuta psicanalítica, no início da pesquisa, estavam separadas; se sobrepuseram durante um período do estabelecimento do espaço de escuta; voltaram a diferenciar-se no processo de construção do caso, no que pode se colocar de elaboração metapsicológica na escrita do caso — algo próprio à singularidade da escuta desse caso e dessa situação de pesquisa.

No caso em estudo, existia uma diferença social que marcou essa escuta. Tinha efeitos no modo como o sujeito se posicionava em relação às possibilidades de pertencimento ao campo social. Considero que, na medida em que somos todos humanos, um caso como esse nos implica e nos convoca a um posicionamento, suscetível de ser qualificado de político, frente a um contexto que nos diz respeito como psicanalistas. Aqui, no meu entender, a presença do analista se impõe como um posicionamento ético e político.

Esse sujeito à margem do social carrega consigo as marcas do não acesso, dos interditos e das violações aos quais esteve culturalmente submetido, que se misturam aos preconceitos, impostos pelo Outro social. É com a atualização, o retorno e a repetição disso que o analista maneja na relação transferencial, em um espaço de escuta, como o que disponibilizamos no curso da nossa pesquisa.

Uma vez que o analista se sente implicado nos processos sociais, pode possibilitar algum tipo de desconstrução do modo como esses sujeitos são capturados na posição de gozo, pelas relações de poder que intervém nos laços sociais e pelos processos que atualizam, para o sujeito, marcas que o colocam à margem do social, numa posição de sacrifício em função da sua própria condição.

O laço com o analista inclui a ambivalência, a dúvida sobre as posições ocupadas pelo sujeito. Sustentar o desejo do analista implica não responder desde o lugar de ideal do eu, em não ocupar lugar de saber e mestria sobre o sujeito. Tal proceder pode propiciar

a ocorrência de algo diferente nessa relação. Traços identificatorios que pareciam fixos podem então vir a se diferenciar, a deslocar-se para outras posições. E o sujeito pode se situar em outra posição em relação ao seu sofrimento. Efetivamente, quando o sujeito tem seu desejo interrogado, desde o lugar estrangeiro, na presença do analista, há um movimento que o convoca a inventar-se, pela via do desejo.

É essencial o reconhecimento da existência, em nós, de uma ambivalência pulsional constitutiva, que se encontra na base do estabelecimento dos primeiros laços sociais. Tal reconhecimento é o que pode nos ajudar a fazer frente ao preconceito, ao ideal de felicidade presente nas relações sociais. Dar-se conta disso, como afirma Fuks (2006), é um primeiro passo no sentido de não sustentar falsas ilusões sobre a natureza humana. Precisamos distrair as pulsões de destruição, pois, como salienta Freud (1982, p. 398), “se (...) não aprendermos a distrair os nossos instintos do ato de destruir a nossa própria espécie, se continuarmos a odiar um ao outro por pequenas disputas (...) que espécie de futuro nos resta?”. Os ímpetos destrutivos na relação com o outro devem, então, ser reconhecidos e distraídos da sua direção mais imediata. Uma relação entre não idênticos, que implica a presença de um terceiro e aponta para um acolhimento do outro, é suscetível de oferecer resistência à barbárie, conforme salienta Fuks (2006).

Ao disponibilizar um lugar para a fala, no espaço de escuta, o analista oferece um espaço que pode ser associado à hospitalidade absoluta, tal como referida por Derrida (2003). Algo que aponta para a presença de uma abertura ao outro e para uma relação na qual o analista não recua e o sujeito pode encontrar acolhida para se expressar no que tem de mais irreconhecível a si mesmo, mas que, nesse espaço, pode ser dito.

Nesse sentido, não podemos deixar de considerar que a “força motriz” de todo tratamento é a relação transferencial, na qual o sujeito aposta em alguma coisa presente nessa relação construída. E que não deixa de ser uma relação de amor, na qual o que está em questão, do lado do analista, no manejo da relação transferencial, é não sucumbir a esse amor, não responder ao que é esperado — mas sustentá-lo, para que a fala possa se colocar como possibilidade para o sujeito criar a partir de traços identificatórios.

Trata-se, então, de sustentar, no espaço de escuta, uma ética que contemple o tornar-se; que rompa com o lugar de mesmidade, busque o devir e contemple, como sugere Fuks (2006, p. 36), a política: “uma política que faz fronteira com uma ética de responsabilidade pela transmissão da vida (...)”. Assim, o psicanalista, ao disponibilizar um espaço de escuta, pode abrir a possibilidade para algo novo ser inventado, na medida em que algo é rompido e a diferença pode se colocar, no deparar-se com a ambivalência

pulsional, como fazendo parte da condição humana, para além das diferenças sociais existentes.

Ao concluir, talvez não seja possível apontar para um final, mas para algo que relança o vetor do desejo na direção de um trabalho que pretende continuar vivo em função da causa que o sustenta.