Imagem: uma única palavra é utilizada para definir uma infinidade de evocações. Com esse termo, podemos nos referir tanto às representações mentais que sempre acompanharam o ser humano quanto às inúmeras formas que essas representações mentais, visuais ou imaginárias podem tomar materialmente.
De acordo com o autor Michel Melot (2007), essa distinção entre a noção de imagem como ideia e de imagem como suporte material aparece em duas grandes famílias lexicais de origem indo-europeia. A primeira família é formada pelo radical weid - eidos em grego, de onde vem o termo ideia - tendo dado origem aos termos ídolo e vídeo ver em latim). Essa noção parece mais estreitamente ligada ao processo da visão,
ou seja, ao aspecto mental da imagem. A segunda família é formada pelo radical weik que, através do grego eikon, deu origem a ícone e designa uma imagem material.
Ora, como definir a origem da imagem se o termo em si abrange noções tão distintas? Melot (2007) nos fornece uma pista de resposta para essa questão quando une as duas noções, na citação a seguir:
A origem da imagem não deve ser buscada através dos séculos. Ela sempre esteve dentro de nós. Uma forma torna-se imagem assim que ela é observada, fazendo com que surjam imediatamente associações da memória. Mas essas associações são inúmeras, frágeis, efêmeras. A língua vem frequentemente lhes fornecer um nome, estabilizando, assim, a relação. Podemos então falar de figura.11
(MELOT, 2007: 24)
Partindo dessa citação, consideramos neste trabalho a noção de imagem, não como ideia mental - cuja origem seria, portanto, a mesma da humanidade, já que ela sempre esteve dentro de nós , mas sim, a noção de imagem como figura, ou seja, de uma imagem concretizada em um suporte material.
Dentro dessa perspectiva, encontramos a mais antiga imagem do mundo na forma de cinco blocos de ocre vermelho gravados pela mão do homem com formas de quadriláteros, há 77.ooo anos, em uma gruta perto da cidade do Cabo, na África do Sul.
11 Tradução nossa. Citação original : L origine de l image n est pas à chercher dans les siècles. Elle est
toujours en nous. Une forme devient image dès qu elle est observée, faisant aussitôt surgir des associations de la mémoire. Mais ces associations sont innombrables, fragiles et éphémères. La langue vient souvent leur donner un nom, stabilisant ainsi la relation. On peut alors parler de figure. »
As primeiras representações e desenhos pré-históricos parecem estar ligados ao desenvolvimento da linguagem que permite a figuração. A pedagogia confirma, segundo Melot (2007: 25), que a aprendizagem da representação das figuras está ligada à aprendizagem das palavras que permitem nomeá-las: a imagem mental precede a língua, mas a língua precede sua materialização, que consiste então em uma espécie de ideograma . Ao analisar essa citação, notamos uma transição entre as duas noções de imagem que mencionamos anteriormente: imagem mental (image) e imagem material (picture). Curiosamente, a linguagem verbal aparece como mediadora desse processo de materialização da imagem, como vemos abaixo (esquema noss0):
IMAGEM MENTAL LINGUAGEM VERBAL IMAGEM FIGURATIVA
Esses desenhos pré-históricos destinavam-se a comunicar mensagens e, segundo Joly (2 , muitos deles constituíram aquilo que chamamos os pré-anunciadores da escrita e que são considerados também os primeiros meios de comunicação humana.
É interessante notar como a imagem e a linguagem estavam, desde o princípio, tão estreitamente associadas. A naturalidade dessa associação é confirmada por Joly (2007: 11):
A oposição imagem/linguagem é uma falsa oposição, uma vez que a linguagem não só participa na construção da mensagem visual, mas transmite-a, completando-a mesmo, numa circularidade simultaneamente reflexiva e criadora.
(JOLY, 2007: 11)
Retomando nosso percurso histórico, é importante lembrar como as imagens constituíram uma questão essencial nas religiões judaico-cristãs. De fato, a noção da imagem e seu estatuto constituíram temas de grande discussão. A questão da proibição, em algumas religiões, de se fabricar e adorar imagens é um exemplo de como a imagem pode ser confundida ou substituída pelo modelo que ela representa, por meio da semelhança. Essa discussão sobre o real estatuto da imagem perdurou na sociedade
IDEOGRAMAS: desenvolvimento da linguagem escrita, associada
ocidental do século IV ao século VII da nossa era, opondo iconófilos e iconoclastas, e constitui um exemplo do questionamento sobre a natureza divina ou não da imagem (JOLY, 2007).
A função educadora da imagem, preconizada na Antiguidade por Aristóteles, parece afirmar-se na Idade Média com pinturas murais e vitrais que representavam, por meio de signos visuais, passagens das escrituras sagradas.
Já na época Renascimento, assistimos a uma laicização da imagem, com o surgimento de gêneros pictóricos não religiosos. A noção de artista , substituindo a de artesão , e a noção de autoria também surgiram nessa época e forneceram as bases para o conceito de arte e de imagem artística que temos nos dias de hoje.
A invenção da fotografia constitui uma etapa importantíssima nesse percurso da imagem. De acordo com Dondis (2007), o advento da câmera é um acontecimento comparável ao advento do livro no que se refere ao desenvolvimento da linguagem visual. Com o surgimento da imprensa, houve um deslocamento dos meios auditivos da linguagem verbal para seus meios visuais. No campo da linguagem visual, a fotografia mudou a forma de vermos o mundo e multiplicou suas representações. Nossa preparação para a leitura dessa linguagem, no entanto, não se desenvolveu com a mesma rapidez.
O professor e pesquisador francês Francis Yaiche (2002) afirma que ninguém fica indiferente a uma fotografia pois nos sentimos todos envolvidos por ela seja como fotógrafos amadores ou como consumidores de imagens. Segundo o autor, a fotografia faz reagir, relembra memórias, convida ao debate, solicita impressões, faz falar e suscita a vontade de escrever. Um suporte, portanto, perfeito para a sala de aula. Yaiche afirma que a ideia de recorrer à fotografia em sala de aula deveria ser uma técnica utilizada com mais frequência. Apesar de vivermos em uma civilização da imagem, a mesma ainda está pouco presente como suporte ou objeto de aprendizagem.
Em seu livro Photos-expressions, Yaiche (2002) propõe várias atividades de exploração da fotografia dentro do ensino-aprendizagem do FLE. Acreditamos que esse tipo trabalho é essencial para que os professores façam um uso mais consciente e aprofundado tanto das fotografias que já estão presentes nos livros didáticos quanto daquelas que o próprio professor e/ou os próprios alunos trouxerem para a sala de aula.
Um aspecto interessante do uso da fotografia como meio de expressão individual do aluno em sala de aula é evocado pelo autor da seguinte forma:
Sabemos que frequentemente um aluno tem reticências em falar de si mesmo na medida em que deve falar em seu próprio nome, sob sua própria identidade ; no entanto, assim que lhe propomos de construir uma história (sozinho ou em grupo) a partir de um suporte projetado como uma simulação global ou uma foto, damos ao aluno a possiblidade de expressar certas preocupações de forma desdramatizada e, sobretudo, sem que os outros saibam que, desta forma, ele fala de si mesmo, expressando uma preocupação pessoal mais ou menos consciente. [...] Não poder falar de si na escola significa, às vezes, não poder falar e isso constitui, então, um obstáculo à aprendizagem.12
(YAICHE, 2002: 11)
Retomamos, mais adiante nesta pesquisa, essa questão da imagem como meio de expressão para o aluno, um ponto que nos parece fundamental no ensino- aprendizagem do FLE.