Est e t rabalho quest ionou a vinculação ex ist ent e em diversos cam pos do conhecim ent o ent re o conceit o de cont ra- hegem onia e o nom e de Ant onio Gram sci.
O pensador sardo elabora e desenvolve no cár cere fascist a de Mussolini o conceit o de hegem onia, m as em nenhum m om ent o de seus escrit os, sej a os pré- car cerários, sej a os escrit os car cerários ( Let t ere e Quaderni) , Gram sci m enciona a concepção de cont ra- hegem onia.
A pesquisa aqui em preendida procurou inicialm ent e refazer a t raj et ória t eórica gram sciana para a const r ução do conceit o de hegem onia que é cent ral em sua obra e a “ ferram ent a” t eórica que desenv olv e para ent ender a nova configuração assum ida pelo Est ado Moderno – t ípico das sociedades de capit alism o av ançado.
Gram sci percebe que a burguesia, a part ir da segunda m et ade do século dezenove, não baseava m ais sua direção unicam ent e na coerção e repressão, m as abrira “ canais” de part icipação na sociedade civil para que os grupos sociais subalt ernos reiv indicassem e apresent assem t am bém seus proj et os. Tem - se, port ant o, um a am pliação e um desenv olv im ent o da sociedade civil.
O conceit o de hegem onia desenvolvido por Gram sci esclarece que agora a direção da burguesia sobre a sociedade realizava- se a part ir de um a com binação ent re a força e o consenso – sem que um não sobrepuj asse o out ro. O Est ado se t ornava sinônim o de sociedade polít ica m ais ( + ) sociedade civil.
O Est ado que dom ina com base no consenso não poderia m ais ser enfrent ado e vencido com a fórm ula esboçada por Marx e Engels no
Manifest o ( 1848) , cham ada por Gram sci de guerra de m ovim ent o, baseada no confron t o abert o e diret o cont ra a supost a “ m áquina est at al” e relacionada ao conceit o de “ revolução perm anent e” . Para que os grupos sociais subalt ernos v ençam seus inim igos em um novo cont ext o em que o Est ado fundam ent a sua direção na hegem onia ( coerção m ais con senso) , passou a ser necessário o desenvolvim ent o de um a nov a est rat égia de “ lut a” que Gram sci cham a de guerra de posição – aquisição de espaços de força na sociedade civil.
Quando o Est ado obt ém o consenso das m assas populares para o seu dom ínio, isso significa que os grupos sociais subalt ernos assim ilaram , com o sendo suas, concepções de m undo que const it uem o suport e da direção int elect ual e m oral da burguesia. O Est ado não é algo fora do m undo int elect ual e m oral dos grupos subalt ernos, um a “m áquina” que lhes é ext erna e com a qual se deve confront ar. Ao cont rário disso, o Est ado est á int ernalizado nos m odos de ser, sent ir e agir dos indiv íduos. Para const ruir a hegem onia nessa nova conj unt ura, os grupos sociais subalt ern os necessit am “ cindir” com as concepções de m undo que int ernalizaram e que fav orecem os int eresses dos grupos sociais dom inant es. Necessit am de um a elevação int elect ual e m oral que lhes proporcione const ruir um a nova hegem onia.
O m ovim ent o de educação das m assas depende, para Gram sci, de um a organização da cult ura e dos organizadores da cult ura – os int elect uais - . Depende t am bém da concret ização de m eios e condições para que viabilizem a organização da cult ura. Nesse sent ido, Gram sci apresent a a concepção de escola unit ária, fundam ent al à educação das m assas populares e à form ação de dirigent es, dim ensão int rínseca a um processo de reform a int elect ual e m oral.
Já em relação ao conceit o de cont ra- hegem onia, a pesquisa m ost rou que há um a grande dissem inação desse conceit o, em div ersos cam pos do conhecim ent o, apresent ando- o com o sendo um a elaboração de Gram sci. Cont udo, essa form ulação não vem de Gram sci e sim de Ray m ond William s - em seu livro Marx ism o e lit arat ura, publicado pela prim eira vez em 1977, -
acrescent ando- a ao corpus t eórico g ram sciano. Para William s há um a grande incert eza em relação ao uso que Gram sci fez do conceit o de hegem onia, apesar de sua inegáv el cont ribuição ao cam po m arxist a. Alegando que a hegem onia nunca é pacífica, sofre resist ências, cont est ações e apresent a aspect os cont radit órios, William s achou necessário acrescent ar ao referencial gram sciano os conceit os de cont ra- hegem onia e de hegem onia alt ernat iva.
No ent ant o, o confront o ent re as j ust ificat iv as apresent adas por William s ( 2000) para o acréscim o do conceit o de cont ra- hegem onia e os escrit os gram scianos sobre hegem onia m ost rou que o aut or da Cult ural St udies negligenciou o fat o de que o conceit o de hegem onia em Gram sci j á pressupõe as cont est ações, os aspect os cont radit órios, as reiv indicações, em relação à direção dos grupos dom inant es na sociedade. Esse confront o t am bém rev elou que em Gram sci a const rução da hegem onia é um processo m uit o m ais com plex o do que apont a William s ( 2000) , pois envolve planej am ent o, est rat égias para educação int elect ual e m oral das m assas populares e engaj am ent o polít ico por part e dos int elect uais com prom et idos com as t ransform ações sociais.