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Gheyi (2000) apresentou uma estimativa das terras cultiváveis nas várias partes do mundo e mostrou que cerca de 10 milhões de hectares são abandonadas anualmente devido a problemas de encharcamento e salinidade do solo sob condições de irrigação. Estes problemas acontecem, sobretudo, em regiões áridas e semi-áridas dos países em desenvolvimento, afetando tanto projetos novos como antigos. Em projetos mal elaborados e/ou mal conduzidos, pequenas quantidades de soluto são adicionadas ao solo e podem, lentamente, transformar uma área fértil em um solo salino e de baixa produtividade.
Kume et al. (2000) estudaram as condições do solo no Projeto de Irrigação Hetao, formado por uma grande área irrigada, que consome 294 hm3 de água anualmente, proveniente do rio Amarelo, China, e cobre 500.000 ha com campos agrícolas. Enquanto esta área tem a história de agricultura irrigada desde tempos antes de Cristo, a irrigação em escala-
total foi iniciada a cerca de 100 anos. A expansão de áreas irrigadas trouxe consigo um sério problema de salinização do solo, de modo que atualmente cerca de 50% de sua área irrigada está salinizada.
De acordo com Griffiths et al. (2001), o percentual de terras agrícolas irrigadas afetadas pela salinidade na província de Alberta, no Canadá, é maior do que em áreas de sequeiro. Dos 1,25 milhões de acres irrigados, dos 13 distritos da Província, cerca de 12% (144000 acres) foram afetados pela salinidade em 1980. Atualmente essa taxa varia de 4 a 25% em toda a região.
Zalidis et al. (2002) estudaram os impactos que as práticas agrícolas podem causar sobre a qualidade da água e do solo na região do Mediterrâneo, uma vez que estes, nos últimos anos já representam uma ameaça a 60% das terras no Sul da Europa. Tal comportamento está ligado às mudanças por cultura mais rentáveis, o modo de produção, o aumento da demanda por água para o desenvolvimento de perímetros irrigados. Juntamente com o impacto da degradação do solo pela inundação, recarga subterrânea, intrusão marinha e salinização do solo, este fatores tem sido apontados como responsáveis pela desertificação das terras na região.
Causapé et al. (2004) diagnosticaram a qualidade da irrigação e prescreveram recomendações para melhorar o manejo e reduzir a poluição difusa, devido à irrigação no Distrito de Irrigação Bardenas I, na bacia do Rio Ebro (Espanha). O estudo mostrou que as três variáveis mais importantes na determinação da qualidade para irrigação e o volume de fluxo de retorno da irrigação foram: i) características do solo, ii) manejo e o sistema de irrigação e iii) requerimentos de água pela cultura. Por esta razão, as recomendações para melhorar a qualidade da irrigação foram: i) aumento da eficiência da irrigação, ii) mudança para sistema pressurizado em solos rasos e de alta permeabilidade e iii) reuso da água de drenagem para a irrigação dentro do distrito. Estas estratégias de manejo irão conservar a alta qualidade da água nos principais reservatórios e irão diminuir os déficits de água para as culturas e o volume do fluxo de retorno da irrigação, consequentemente, minimizando a poluição de locais fora do distrito.
Brainwood et al. (2004) estudaram a variação temporal na qualidade da água de pequenos açudes devido ao uso das terras e a origem das águas. Um dos reservatórios é predominantemente influenciado pela água subterrânea. O outro mostra ligação com ambas, água subterrânea e escoamento agrícola, e o terceiro têm como fonte de água escoamento urbano e de terras agrícolas, sem nenhuma entrada aparente de água subterrânea. Padrões químicos foram comparados para identificar o nível de similaridade nas tendências da
qualidade da água. De acordo com os resultados, para os pequenos açudes, a combinação do uso de terras e preferencialmente, por onde ela flui, dão uma descrição mais completa do impacto da qualidade da água do que somente o uso da terra.
Causapé et al. (2004) avaliaram o teor de sais e de nitrato provenientes do fluxo de retorno da irrigação aplicada. Os resultados mostraram que uma baixa eficiência de irrigação associada a um manejo inadequado de fertilização nitrogenada é responsável pela baixa salinidade, alta concentração de nitrato no solo e no fluxo de drenagem superficial das bacias estudadas. Em conseqüência, elevar a eficiência de irrigação, otimizando a fertilização nitrogenada e o reuso para a irrigação da água de drenagem de baixa salinidade e alto nitrato, são estratégias chave para um melhor controle da poluição fora do distrito de irrigação estudado.
A bacia do rio Guaribas, no Estado do Piauí, apresenta como uso preponderante da água, a irrigação. Frota et al. (2000) classificaram a água da bacia quanto a sua restrição de uso para irrigação, conforme classificação de Richards (1954). Na parte alta e média da bacia, a água foi classificada como C1S1 (água com baixo conteúdo de sais e de sódio) e em sua
parte baixa, como C2S1 (água com moderada tendência de salinidade e de baixo conteúdo de
sódio). O uso dessas águas restringe-se à utilização em solos com média ou alta permeabilidade ou ter a precaução com a lixiviação quando usada em solo de baixa permeabilidade. Plantas sensíveis à salinidade devem ser evitadas.
Souza et al. (2000), avaliando as características químicas do solo aluvial do Projeto de Irrigação Capoeira - Paraíba, verificaram que 24% dos solos estão afetados por sais nas profundidades de 0-20 cm; 27% na camada de 20-40 e 33% na camada de 40-60 cm. Resultados semelhantes foram obtidos por Coelho e Ferreira (1988 apud Chaves et al., 2005) em solo aluvial do Perímetro Irrigado de Morada Nova, Ceará.
Chaves et al. (2005) afirmam que a atividade agrícola nas regiões semi-áridas, torna-se um empreendimento de alto risco quando não é adotada como prática agrícola, o uso da irrigação. Perímetros irrigados como de São Gonçalo e Engenheiro Arcoverde, que foram altamente expressivos para a economia das regiões, atualmente já mostram sinais de degradação do solo e até mesmo, áreas improdutivas. O perímetro irrigado de São Gonçalo apresenta 24% da sua área afetada por sais, sem considerar as áreas abandonadas, em virtude de altos teores de sais e/ou sódio trocável adicionados pela água de irrigação.
Segundo levantamentos do DNOCS (GHEYI, 2000) dos perímetros irrigados instalados no Estado do Ceará, quatro dos mais antigos apresentam problemas de salinização. O Perímetro Morada Nova, com uma superfície agrícola útil implantada de 3611 ha, possui
625 ha de superfície desativada e 274 ha (7,6%) de superfície salinizada. O perímetro Icó- Lima Campos com uma superfície implantada de 3556 ha, sendo 2712 de superfície agrícola útil, possui 397 ha de superfície desativada e 122 ha (4,5%) de superfície desativada. O perímetro I Curu-Paraipaba com uma superfície agrícola útil de 2033 ha, possui 25 ha de superfície desativada. O perímetro Curu-Recuperação, possui uma superfície agrícola útil implantada de 1068 ha, apresenta 134 ha de superfície desativada, sendo 66 ha (6,2%) devido à salinização.
Na bacia do Acaraú não é diferente. Atualmente, existem quatro importantes perímetros irrigados instalados na região: Araras Norte, Forquilha, Ayres de Souza e Baixo Acaraú. Os perímetros Forquilha e Ayres de Souza, os mais antigos presentes na bacia, apresentam respectivamente, 218 e 615 ha de superfície agrícola útil implantada; 160 e 146 ha de superfície em operação; 26,6% e 76,3 % de superfícies desativadas e 9,2 e 5,2% de superfícies salinizadas (GHEYI, 2000).
A qualidade da água também sofre influência do modo de jazimento. Santos et al. (2000) avaliaram a dinâmica do processo de salinização nas represas Tremendal e Anajé, no Sudoeste da Bahia. Os resultados mostraram que a avaliação da tendência de salinização em função do represamento das águas nas represas de demanda irregular apresenta uma tendência ao aumento da concentração do sódio nas águas e, quando a demanda de água torna-se insignificante em relação ao estoque, o processo de salinização é favorecido. Já nas represas de demanda normal, este fato não foi observado. Desta maneira, nota-se que nos reservatórios de uso irregular a concentração de sal aumenta com a idade do reservatório e, nos reservatórios de uso normal, o tempo de retenção hidráulica é o parâmetro que governa a variação da concentração dos sais dissolvidos.