Apesar de assumirem especificidades, as instituições, em sua maioria, identificam seu público como de baixa renda, com ênfase ao atendimento de crianças e adolescentes.
Tabela 6
Público atendido
Público Casos (N)
Baixa renda 8
Mulheres de classes populares 1
Crianças, Adolescentes e jovens de baixa renda 7 Famílias em assentamentos / zona rural 2
Pessoas com deficiência 2
TOTAL 20
Estudos nacionais, como o de Landim (1998), apontam que crianças, adolescentes e mulheres são os chamados “beneficiários”27 mais atendidos pelas instituições filantrópicas, principalmente após 1990, com o advento do ECA.
Como o público “beneficiário” compõe-se basicamente da população pobre, as dificuldades vivenciadas (Tabela 7) são identificadas, pelos psicólogos, principalmente
27 Discordamos da denominação “beneficiário” utilizada amplamente pelas instituições que compõem o “terceiro setor”, justamente por conceber passivamente os sujeitos que têm acesso aos seus projetos. Nessa perspectiva, corre-se o risco das pessoas não serem percebidas como construtores da sua própria cidadania, mas que apenas se “beneficiam” de serviços.
como a falta total de acesso aos serviços básicos, como educação, saúde, assistência social etc..
Tabela 7
Dificuldades enfrentadas pelo público atendido
Público Casos (N)*
Falta de acesso aos serviços básicos 14 Falta de acesso à informação 4 Alcoolismo 2
Desigualdade de gênero 2
Violência familiar 4
Convivência com o tráfico de drogas 2
TOTAL 28
* Mais de uma resposta por entrevistado
A instituição se desdobra para tentar suprir esses serviços para a população, que apresenta carências de todos os tipos:
Quixote 1 A gente percebe que dentro do discurso deles, (a dificuldade é) da assistência em
si mesmo, de locomoção, falta de dinheiro, falta de cuidado, então estão sempre
em busca de alguma ajuda. São pessoas que também são muito desestruturadas emocionalmente, financeiramente nem se fala.
Na fala acima, se evidencia, uma vez mais, que o público atendido pelo “terceiro setor” pode ser considerado o núcleo duro da pobreza, ou seja, a parcela da população que está totalmente desprovida do acesso aos serviços básicos, que deveriam ser direitos garantidos.
A verdade é que o Estado brasileiro não tem suprido as necessidades básicas da população. O que fazer, então? Parece que essa é uma questão que inquieta alguns profissionais:
Quixote 6 Eles têm a dificuldade de acesso, eles querem participar, eles querem... mas aí trava um grande problema que é a condição econômica. E aí a gente observa que essa condição econômica em si ela tem uma dificuldade geral, porque a gente também não pode estar oferecendo para eles esse transitar por tudo. O que a gente
tenta, através de projetos, é arrecadar os recursos para fazer, dar oportunidade nesse acesso ao serviço.
(...) Mas aí chega o ponto em que a gente também não tem recursos, aí não pode
dar. Por exemplo, eles queriam continuar na oficina de dança, queria continuar a
oficina de música, de teatro, mas aí a gente não tem recursos para pagar o professor, para pagar o deslocamento dele, roupa...
A entrevista na sua totalidade demonstra que a população atendida (adolescentes e jovens da periferia da cidade) não tem acesso à cultura e lazer, que deveriam ser direitos garantidos pelo Estado, e a instituição tenta suprir tal carência. Mas: "chega um ponto em
que a gente também não tem recursos, aí não pode dar".
Isso reforça o quão perverso é a perspectiva de um Estado mínimo e o cuidado das mazelas da questão social delegado ao “terceiro setor”, como um projeto pontual na vida desses jovens, e não como direito respeitado. Inclusive, estudos têm mostrado que a falta de espaços e recursos comunitários de cultura e lazer para os jovens tem sido um grande fator de vulnerabilidade (Sarriera et al., 2007), contribuindo para a violência juvenil, consumo e envolvimento com tráfico de drogas. E quando terminam os projetos? O que ocorre com o grupo alvo?
Nessa mesma entrevista, a psicóloga responde da seguinte maneira aos jovens, sobre a falta de continuidade dos projetos: “tudo na nossa vida são passagens, e nós temos que passar, aproveitar isso como um aprendizado para nossa vida. Então a gente diz que todo aprendizado, que toda passagem pela instituição vai ser uma travessia para um outro
momento”.
Seria importante que os “novos quixotes” tivessem bastante clareza do que esperam nessa “passagem” e a que outro “momento” pretendem levar esses jovens. Voltar aos grupos atendidos, fazer avaliação de impacto após a realização desses projetos é a única
forma de verificar se tal “travessia” se efetivou de algum modo. Houve organização desses grupos sociais? Buscou-se a garantia de seus direitos? Que mudanças reais o projeto trouxe para o grupo atendido?
No entanto, como veremos, a questão da avaliação ainda não é realizada de maneira criteriosa pela maioria das instituições, que muitas vezes não têm a mínima idéia de como executá-la.
É fundamental trabalhar a autonomia, mas sempre aliada à conscientização e à organização social, caso contrário, corremos o risco de atribuir unicamente às forças individuais a responsabilidade pela sua condição social.
Além disso, algumas instituições podem estar criando uma forte dependência de suas ações. Não é raro encontrar instituições nas quais o mesmo grupo de pessoas é atendido, fazendo parte de inúmeros projetos diferentes, mas que não saem de um papel de receptores dessas ações. Não há aplicação do conhecimento adquirido no sentido da transformação (são “beneficiários” propriamente ditos).
Como “falta tudo” para a comunidade, as instituições parecem querer suprir todas as carências através de seus projetos, sem, mais uma vez, entender que trabalham dentro dos limites do sistema capitalista. Ou seja, que o “sonho quixotesco” de mudar o mundo esbarra nos nós do próprio sistema.
Ouvimos, inclusive, profissionais que se contentam: “melhor estarem aqui no
projeto, do que estarem na rua, fazendo o que não devem”. De fato. Mas será que nossa
intervenção só pode chegar até aí? Será que o que está sendo feito pode atrapalhar, muito mais do que ajudar, a realização de um projeto de emancipação? São questões para refletir.
Isso não quer dizer que cruzaremos os braços e não realizaremos trabalho social algum. Mas, que devemos pensar ações e intervenções que partam de uma análise da realidade e do engajamento social.
É importante estabelecer diálogos com os membros do grupo-alvo para definir corretamente a demanda a ser trabalhada (Martínez, 2004a). O correto estabelecimento da demanda permite que quem intervenha, conjuntamente com as pessoas envolvidas, possa estabelecer as prioridades da ação baseando-se nas características da demanda, e não criar falsas expectativas sobre o papel da intervenção.
As demandas deveriam surgir a partir de uma negociação entre a equipe de intervenção e o grupo social, para se definir quais são os problemas sociais a atacar, por que, como, e qual é a responsabilidade de ambos.
As instituições, ao se esforçarem por oferecer uma ampla quantidade de serviços, acabam não trabalhando uma questão crucial: a retirada dos sujeitos das condições passivas em que se encontram, de uma espécie de “letargia” social.