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Esse eixo de análise é decorrente das respostas dadas às questões 6 e 9 do questionário, ou seja:

“6. Devido a suposta rigidez dos currículos da matemática, você acredita que é possível aliar e/ou inserir atividades visando o desenvolvimento de valores nas aulas desta matéria? Justifique”.

“9. Você já trabalhou ou trabalha aspectos de formação humana baseada em valores em suas aulas? Qual estratégia costuma usar para isso? Cite pelo menos dois exemplos”.

Inicialmente, buscamos identificar se o professor vê possibilidades (e, nesse caso, como) de fazer essa incorporação. As respostas dadas encontram-se na Tabela 7.

TABELA 7 – Possibilidade de incorporação da educação em valores humanos nas aulas de Matemática e como.

Formas de incorporação da educação em valores humanos

Total de respostas

1- Nas questões do cotidiano de sala de aula 10

2- A própria natureza da Matemática e do seu ensino favorece o trabalho com valores.

5

3- Contextualizando os conteúdos 4

4- Mesmo com a proposta de um currículo fechado é possível contextualizar

3

5- Utiliza atividades em grupo 1

Formas de incorporação da educação em valores humanos

Total de respostas

7- Valor é atitude e não conteúdo 1

8- Resposta confusa/evasiva 2

Como era esperado, relacionar a educação em valores humanos com o trabalho com questões do cotidiano na sala de aula de Matemática, foi a forma mais citada pelos professores (total de 10 respostas). Acreditamos que esse discurso do ‘trabalho com o cotidiano’ vem se fazendo presente entre os professores de Matemática, principalmente na última década. A questão que se coloca é: qual é o entendimento que se tem de cotidiano? Sem dúvida, trata-se de questões que merecem ser aprofundadas e investigadas – mas que não se constituem em objetivo do presente trabalho.

No entanto, chamou-nos a atenção o fato de cinco professores considerarem que a própria natureza da Matemática possibilita um trabalho voltado a valores.

Para Skovsmose (2001, p.39), embora as aplicações da Matemática sejam muitas e importantes, normalmente elas ficam “escondidas”, devido à dificuldade de se observar suas implicações. Devido à grande aplicação dos conteúdos matemáticos, ela é conhecida como “formatadora da sociedade”, pois sem ela é impossível pensarmos em desenvolver uma sociedade como a que se apresenta atualmente, onde a tecnologia é a base do crescimento. É necessário que o professor possa compreender o caráter decisivo da Matemática no entendimento das decisões políticas e democráticas. Essa disciplina escolar oferece, no seu desenvolvimento, inúmeras oportunidades de se trabalhar os valores humanos. Destacamos as fala de P3 e P12, ao relacionar os conteúdos matemáticos ao desenvolvimento de valores na sala de aula:

Sim, aproveitando as oportunidades que surgem durante as aulas. Quando trabalho sistema monetário, alguns alunos “escondem” as cédulas. (P12)

Sim. O campo da matemática é o melhor exemplo para mostrar aos alunos que os valores sociais também estão presentes nos conteúdos. Concentração, respeito, disciplina fazem parte deste jogo. (P3)

Concordamos com P3 de que é possível nas aulas de Matemática desenvolver valores como a concentração, respeito e disciplina. A concentração é fundamental para qualquer atividade intelectual; o respeito pode ser trabalhado com relação a atitudes como: saber ouvir os colegas em sala de aula, saber respeitar seus pontos de vista, respeitar e reconhecer as boas estratégias que são criadas para um determinado contexto. Quanto à disciplina, retomamos aqui o argumento de Goergen (2006, p. 757) de que ela – assim como a autoridade – é necessária à convivência civilizada.

Bishop e Clarkson no trabalho intitulado: “Que valores você pensa que está ensinando quando ensina Matemática?” destacam que:

Atualmente há pouco conhecimento sobre que valores os professores estão ensinando nas aulas de Matemática, sobre como os professores estão cientes de suas próprias posições de valor, sobre como estas afetam seu ensino e sobre como seu ensino desenvolve desse modo determinados valores em seus alunos. (BISHOP, CLARKSON, 1998, p.30)

Os autores apontam três tipos de valores que são transmitidos pelos professores de Matemática: o educacional geral, o matemático e especificamente o educacional da matemática. Os valores educacionais gerais referem-se àqueles que ocorrem em sala de aula relacionados à honestidade (não colar na prova, por exemplo) e ao bom comportamento. Os valores matemáticos dizem respeito à própria natureza do conhecimento matemático – identificar contextos das diferentes filosofias da Matemática, por exemplo; e os valores educacionais da Matemática referem-se às instruções e procedimentos que o professor usa diante de alguns contextos para ensinar matemática – por exemplo, privilegiar ou não o uso de ferramentas tecnológicas, valorizar as diferentes linguagens na sala de aula, dentre outros. Nesse sentido, na fala de P3 acima, há a explicitação de valores educacionais da Matemática: concentração e disciplina; enquanto na fala de P1 se explicita um valor educacional geral: o não respeito com os materiais que são utilizados na aula.

Acreditamos que as ações dos professores em sala de aula – mesmo que os mesmos não tenham consciência disso – estão repletas de valores: desde a forma como ele valoriza (ou não) as diferentes estratégias apresentadas pelos alunos, a forma como responde a uma

pergunta feita, o diálogo que estabelece com os alunos, os desafios que são postos. E isso até mesmo dentro de uma aula expositiva – como destacado por um docente.

Há, ainda, aqueles professores que aproveitam os momentos oportunos no processo, como notícias ou fatos acontecidos na comunidade ou na própria classe, para estabelecer um trabalho com valores humanos nas suas aulas, sendo que o conteúdo matemático nesse momento não tem relação direta com esse assunto. Identificamos tal processo no discurso de P18 e P2.

A conversa sobre os valores acabam acontecendo separadamente ao ensino da matemática, mas de forma natural, em uma conversa informal com a turma. (P18)

Sim, durante a aula esse assunto sempre aparece em simples atitudes. Por exemplo, essa semana apareceu no “Fantástico” o assunto de um menino campeão nas Olimpíadas de Matemática. Os alunos chegaram comentando. Temos a oportunidade de trabalhar a confiança, persistência, a vontade desse jovem e sem dúvida, levar isso para a confiança também dos nossos alunos, mostrar que todos são capazes. (P2)

O cotidiano da sala de aula de Matemática está impregnado de contextos em que se pode trabalhar com o aluno as superações de suas limitações. Mostrar-lhes que são capazes de aprender matemática e de que esta não é uma disciplina escolar destinada a poucos. Todos os alunos são capazes e podem aprendê-la.

Identificamos também professores que não acreditam nessa possibilidade. Pelo menos três professores foram confusos em suas respostas ou acabaram não respondendo à questão.

Não há tempo. Muito aluno sem interesse, outros com dificuldades. Ou se dá aula ou sermão. (P17)

Há possibilidade de inserção, mas não a todo o momento. (P12)

Provavelmente, até o momento esses professores não pararam para pensar sobre o assunto.

3.7. Como vem acontecendo a formação docente frente às questões