6. ARAŞTIRMAYLA İLGİLİ TÜRKİYE’DE VE YURTDIŞINDA YAPILAN
1.3. ERGENLİK DÖNEMİ VE GENEL ÖZELLİKLERİ
1.3.3. Ergenlerde Din Algısı
Pretende-se neste terceiro capítulo investigar a história do hábito através das transformações do habitar, a partir da crítica imanente das formas da habitação, desde o século XIX, empreendida por Benjamin no trabalho das Passagens. As variações semânticas na definição e nos usos do conceito de habitar e seus termos derivados permitem demonstrar uma dialética interna de seu desenvolvimento, polarizada entre permanência e transitoriedade. Para uma história desse conceito, investiga-se inicialmente o ponto de articulação entre as formas anteriores e posteriores de sua conjugação nos espaços de habitação. Tal ponto de inflexão e ruptura, que concentra os pólos da transição, é designado por Benjamin como a origem daquelas formas e identificado com as passagens parisienses do século XIX, que se desdobram nas arquiteturas do intérieur, do art nouveau e de ferro e vidro. Em cada uma delas, como se há de esclarecer, é reformulado o conceito: habitar significa “deixar rastros”, consiste em “confeccionar um casulo” e, como verbo transitivo, consiste ainda em uma “atualidade frenética”. Pergunta-se, afinal, se e como é possível habitar.
Antes de tomar como ponto de partida evidente, pergunta-se: o que quer dizer “a habitação como espaço de habituação”? Ao suprimir o “espaço”, “habitação” e “habituação” aparecem como termos de uma identidade em uma proposição lógica, portanto, verdadeira, uma tautologia; isto poderia ser asseverado em um estudo filológico que explicitaria o radical
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comum a ambas e demonstraria que derivam de um mesmo termo latino – habere, que diz respeito tanto a posse quanto a habilidade. Contudo, em um estudo filosófico, interessa analisar os conceitos em sua definição contextual; e mais, em uma investigação histórica, as reformulações e os usos desses conceitos. A partir disso, a conexão gramatical entre habitar e hábito – assim como em alemão entre wohnen e Gewohnheit, e em inglês entre inhabit e habit – torna-se uma relação histórica que se define de acordo com seu uso espacial específico. Nesse sentido, o “espaço”, como termo mediador da proposição, é atravessado pelo tempo; ambos, no entanto, não devem ser entendidos abstratamente, segundo uma “estética transcendental”497
, mas concretamente, segundo sua dinâmica histórica. Em outros termos, pode-se afirmar que assim como, para Benjamin, a “história é objeto de uma construção, cujo lugar não é formado pelo tempo homogêneo e vazio, mas por aquele saturado pelo tempo-de- agora [Jetztzeit]”498, também o espaço não é “homogêneo e vazio”; ao contrário, como argumenta Michel Foucault, o espaço está imerso em relações qualitativas499 e é definido pelos usos que dele se faz. Portanto, a habituação mostra-se como um processo temporal de formação do hábito no espaço da habitação; e como desenvolvimento histórico deve ser compreendida dialeticamente, em sua transitoriedade e permanência.
O hábito é um modo de existência, uma forma de perceber e agir no espaço, e com isso possui uma dupla designação: passiva e ativa, como percepção e gesto; porém, é uma forma de perceber que não é percebida, mas que aparece como fenômeno nos objetos de sua relação. Assim, a percepção e os objetos percebidos, ou os gestos e as coisas gesticuladas, são apreendidos concomitantemente, em sua reflexividade, e podem ser compreendidos como
formas estéticas – no sentido tanto de aisthesis (sensorialidade) quanto de objeto estético.
Esta concepção remonta à teoria da reflexão do primeiro romantismo, segundo a qual todo
497Cf. KANT. “Estética transcendental”, CRP, pp.33-55. 498 BENJAMIN. “Tese XIV”, p.119.
499 Cf. FOUCAULT. De outros espaços. Palestra proferia no Cercle d’Études Architecturales, em 14 de março de
1967 (publicado igualmente em Architecture, Movement, Continuité, 5, de 1984). Trad. Pedro Moura. [Disponível em: http://www.virose.pt/vector/periferia/foucault_pt.html. Acesso: janeiro de 2012]
conhecimento, bem como a percepção e a ação, consiste em um nexo imanente entre sujeito e objeto.500 Perceber a percepção através do que é percebido implica uma relação reflexiva que se configura não apenas espacialmente, mas também temporalmente, ou seja, implica que as transformações da percepção correspondem a mudanças objetivas através da história. Se o hábito é definido pelo espaço de habitação e se, inversamente, a habitação é definida pelo hábito, ou seja, se esta codeterminação diz respeito a um complexo perceptual e gestual, então o espaço pode ser definido como o medium dessa relação, e com isso não se restringe a um lugar fixo, mas é móvel, adaptável, permeável a novas práticas e contextos. Em termos arquitetônicos significa dizer que a construção do espaço corresponde à construção de sujeitos, individualizados ou coletivizados, em espaços públicos ou privados.501
As transformações históricas da relação entre as formas de percepção e os objetos no espaço são investigadas por Benjamin em seu projeto das Passagens, para o qual seu famoso ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” serviria como uma “segunda
Exposé”, ou “um tipo de contra-peça da exposição de 1935”502. Através de uma teoria dos objetos artísticos, Benjamin equaciona as mudanças do aparato perceptivo, de modo que a história das formas estéticas (igualmente, nos dois sentidos do termo) é compreendida do seguinte modo:
No interior de grandes períodos históricos, a forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao mesmo tempo que seu modo de existência. O modo pelo qual se organiza a percepção humana, o meio em que ela se dá, não é apenas condicionado naturalmente, mas também historicamente.503
Investigar a historicidade da percepção vinculada aos objetos percebidos compreende não apenas um princípio reflexivo, mas também crítico, i.e., que a reflexão contém um índice de
500 Cf. a seção 1.4 O salto dos românticos.
501 “O espaço construído é também um espaço de subjetivação, para Benjamin.” SCHMIEDGEN, Peter. “Interiority, exteriority and spatial politics in Benjamin’s cityscapes”. In: BENJAMIN, Andrew (org). Walter
Benjamin and the Architecture of Modernity. Melbourne: Re-press, 2009, p.148.
502 BENJAMIN. GS V-2, p.1151. Cf. BUCK-MORSS. Dialética do olhar, p.458, n.1.
503BENJAMIN. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” [primeira versão]. In: Magia e técnica,
arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 169. (Obras Escolhidas I) [Doravante citado como “Primeira
refração que modifica a relação entre sujeito e objeto. Por isso, uma crítica imanente, que diz respeito tanto ao objeto quanto ao sujeito, exige que a investigação da história da percepção a partir dos objetos seja ao mesmo tempo uma pergunta pela posição histórica do próprio crítico. Isto diz respeito a uma proposta crítica que considera que todo fato é construído e interpretado historicamente, que todo ser contém um dever-ser, e com isso distingue-se suficientemente de uma teoria tradicional cuja pretensa visão objetiva, amparada por sua neutralidade axiológica, isola o objeto do contexto social no qual recebe seu significado decisivo. Neste sentido, Max Horkheimer, em Teoria Tradicional e Teoria Crítica, ao formular a distinção fundamental entre estas duas teorias, aponta para a necessária adjunção entre teoria e prática, o que não permite desvencilhar o conhecimento da moral dentro do momento histórico em que se constituem. Do mesmo modo, toda forma estética diz respeito a um lado passivo e outro ativo, ou seja, define um modo de ser que compreende um dever-ser; pois tanto a percepção quanto os objetos percebidos são condicionados historicamente.
Os fatos que os sentidos nos fornecem são pré-formados de modo duplo: pelo caráter histórico do objeto percebido e pelo caráter histórico do órgão perceptivo. Nem um nem outro são meramente naturais, mas formados pela atividade humana, sendo que o indivíduo se autopercebe, no momento da percepção, como perceptivo e passivo.504
Essa relação reflexiva permite traçar a história da percepção, não através de uma visada “empática” que pretenda resgatar uma forma do passado “tal como ele de fato foi”505
, o que queda impossível; mas ao assumir a distância necessária entre passado e presente, procura-se investigar de que maneira ambos são atravessados por um instante de mútua compreensão. Assim, para uma história estética, que conjugue os elementos passivo e ativo, i.e., a visualidade e a gestualidade, há que se analisar os objetos mesmos, impregnados pela historicidade da percepção e do uso. Para esta empreitada, a arquitetura adquire privilégio,
504HORKHEIMER, Max. “Teoria Tradicional e Teoria Crítica”, in: Textos escolhidos. 2a. ed. São Paulo: Abril
Cultural: 1983, p.125.
505Cf. BENJAMIN. “Tese VI”, p.65. A crítica a uma visão “empática” da história, própria do historicismo, é
desde o surgimento da cidade grande, uma vez que ela se dá a perceber não apenas em momentos extraordinários, mas constitui inelutavelmente o campo perceptivo ordinário do homem urbano.506
Acerca dessa pregnância, Benjamin afirma no ensaio sobre “A obra de arte” que a arquitetura é a arte mais antiga e que, ao contrário de outras que surgiram e desapareceram, acompanha o homem desde os primórdios, pois a necessidade de habitar o determina, ou ainda, determina o modo de suas relações. De acordo com Benjamin, o homem lida com as construções segundo duas possibilidades: o uso e a contemplação.
Existem duas maneiras de acolher um edifício: pode-se utilizá-lo e pode-se fitá-lo. Em
termos mais precisos: a acolhida pode ser tátil ou visual. […] No âmbito tátil, nada existe,
deveras, que corresponda à contemplação no âmbito visual. A acolhida tátil faz-se menos pela atenção que pelo hábito.507
O primeiro modo corresponde ao que Benjamin denomina de percepção habitual, ou hábito; o segundo caracteriza a forma como, por exemplo, os turistas apreciam os monumentos. Em grande parte a própria contemplação é condicionada pelo hábito, quer dizer, a forma corriqueira e distraída de perceber coletivamente as obras arquitetônicas determina também a forma de percepção extraordinária, detida e isolada. Em termos históricos, a preponderância daquele sentido marca a forma de vida dos habitantes da cidade, cuja percepção “irrefletida” reflete a forma direta de lidar com o mundo de sua época; ou seja, o hábito, como uma forma
de perceber que não é percebida, determina mesmo a percepção refletida, contemplativa. “As
tarefas que, com efeito, se impõem aos órgãos receptivos do homem, na ocasião das grandes
506De acordo com Silke Kapp, “a arquitetura determina ambientes de ação, delimita e sustenta as relações que os
indivíduos estabelecem entre si, influencia seus hábitos e o movimento de seus corpos, forma a percepção do espaço e expressa significados da cultura. A arquitetura é apropriada, usada, fruída, lida. Essas relações abrangem desde a percepção sensível ou estética (no sentido da aisthesis, da afetação do corpo pelos sentidos), passando pela interação mecânico-funcional, até a interpretação de significados abstratos. A arquitetura é, portanto, o principal meio (medium) de ações [...]. Ela define possibilidades de percepção, uso e significado e, inversamente, é definida por tais possibilidades.” KAPP, Silke. “Por que teoria crítica da Arquitetura? Uma
explicação e uma aporia.” In: MALARD, M. L. (org). Cinco Textos Sobre Arquitetura. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2005, pp. 117-8.
507 BENJAMIN. “A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução” [terceira versão]. In: Textos
escolhidos. 2a ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p.26. [Doravante citado como “Terceira versão”] Salvo as importantes diferenças entre as três versões do ensaio (que não serão discutidas aqui), as passagens sobre hábito e arquitetura são grosso modo idênticas.
conjunturas da história, não se consumam de modo algum na esteira visual, em suma, pelo modo de contemplação. A fim de chegar a termo, pouco a pouco, é preciso recorrer à acolhida tátil, ao hábito.”508
No hábito estão sedimentadas as transformações históricas da percepção: daí sua importância decisiva, uma vez que nele estão marcadas as formas de perceber e agir no espaço construído arquitetonicamente.
O seguinte comentário de Andrew Benjamin é bastante esclarecedor:
O modo de recepção demarcado pelo ‘tátil’, um modo que também irá predominar em
relação ao ótico – e que define a recepção em termos de ‘percepção’ (Wahrnehmung) –, é
estruturado pelo ‘hábito’. Que a arquitetura, cuja preocupação é com a habitação – Wohnen –, pode ser definida em relação ao hábito – Gewohnheit –, é um importante movimento de
abertura e ainda por si só não é suficiente. O que importa é o tema do hábito e [...] a estrutura temporal implícita do hábito. Aprender a viver vem por hábito.509
O hábito, como estrutura perceptiva, reflete-se nas estruturas da cidade, na arquitetura. Pode- se sintetizar esta relação do seguinte modo: o hábito como forma de perceber a arquitetura – a arquitetura como forma de perceber o hábito. A história de uma forma estética, da percepção e do modo de existência, encontra-se gravada nos objetos, nas estruturas da cidade. Assim, toda a história do século XIX, das formas e formações da percepção e da cidade, pode ser encontrada em rastros deixados nas construções.
Para uma história das formas estéticas, aponta-se aqui duas chaves de leitura, uma visada histórica e outra dialética: a) através da ruptura e transição de uma forma a outra, pelo desaparecimento de uma e surgimento de outra; b) através da tensão que sustenta a mudança, focada em um momento que conjugue os elementos da contradição. Pretende-se inicialmente focar este ponto de tensão, de ruptura e transição, para então apontar os desdobramentos das formas nele contidas. Trata-se, entrementes, não de uma mera curiosidade histórica, mas de uma questão eminentemente atual. “Em outras palavras: assim como Gidion nos ensina a extrair da arquitetura da época, em torno de 1850, os traços fundamentais da arquitetura de
508BENJAMIN. “Terceira versão”, p.26.
509 BENJAMIN, Andrew. “Boredom and Distraction: The Moods of Medernity”, in: Walter Benjamin and
hoje, queremos reconhecer nas formas aparentemente secundárias e perdidas daquela época, a vida de hoje, as formas de hoje.”510
A partir desse projeto formulado por Benjamin, procura-se traçar uma breve história da arquitetura e da cidade.