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1. BİRİNCİ BÖLÜM

2.1. Entegrasyon Kuramları

2.1.1. Entegrasyon Kavramı ve Entegrasyonun Tarihsel Süreci

O presente estudo, como já pontuado, teve como objetivo investigar a constituição das trajetórias escolares de estudantes universitários de origem popular, visando compreender a influência da inserção em grupos religiosos na construção de percursos longevos. Para tal, buscamos identificar e caracterizar formas de presença dos grupos religiosos nas trajetórias escolares analisadas; analisar os processos de socialização ocorridos nesses grupos religiosos e identificar disposições construídas nos grupos religiosos que contribuíram para a escolaridade longeva dos sujeitos investigados. Para alcançar os objetivos propostos, optamos por uma metodologia de pesquisa qualitativa. Essa metodologia se fundamenta na tradição compreensiva e interpretativa e “parte do pressuposto de que as pessoas agem motivadas por costumes, percepções e valores e que seu comportamento tem sempre um sentido, um significado que não se dá a conhecer de modo imediato, precisando ser desvelado” (PATTON, 1986 apud ALVES MAZZOTTI & GEWANDSZNAJDER, 1999, p.131). Segundo Bogdan e Biklen (1994), numa pesquisa qualitativa, o pesquisador deve ter o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o investigador como instrumento principal; os dados são coletados por meio de investigação descritiva; o processo é mais importante que resultados ou produto; a análise de dados ocorre de forma indutiva e o sentido que as pessoas dão às suas vidas é de importância vital.

Para estudar a complexidade das disposições de pensamento, sentimento e ação ligada ao sucesso escolar, construídas ou atualizadas nos processos de socialização ocorridos nos grupos religiosos católicos, foi importante nesta pesquisa reconstruir as trajetórias escolares e de participação na Igreja de alguns jovens. Esta reconstrução foi possível por meio de entrevistas semi-estruturadas, de maneira que pudemos identificar as formas de presença dos grupos religiosos nas trajetórias escolares destes jovens, bem como as disposições construídas que podem ter contribuído para a longevidade escolar. Para isto, levou-se em conta a noção de interdependência defendida por Elias (1994) e já abordada no capítulo anterior.

Ao estudar um fenômeno, surge a possibilidade de romper com naturalizações, determinismos e cristalizações, pois, ao questionar o instituído, temos a oportunidade de conhecer novos campos teóricos e/ou empíricos que poderão ajudar na conceituação dos mesmos, neste caso, de uma educação mais justa e democrática. O envolvimento com esse objeto de pesquisa possibilitou-nos conhecer um pouco mais sobre a educação, especificamente, as trajetórias escolares de êxito dos sujeitos das camadas populares. Assim, esta pesquisa constitui-se um

importante processo de aprendizagem, marcado por encontros e desencontros que fizeram ampliar a nossa responsabilidade ética e política com a educação, especialmente, com a educação de jovens de origem popular. Neste itinerário, vivenciamos intensos momentos de reflexão sobre a inserção e permanência de jovens pobres na universidade e o nosso papel como educadora-pesquisadora frente a esses jovens. Foi um percurso árduo que nos propomos a traçar aqui.

Os dados empíricos foram coletados por meio de questionários e entrevistas semi-estruturadas aplicados a quinze estudantes de graduação. Após indicação para a escolha dos sujeitos, o primeiro contato entre pesquisadora e estudantes foi realizado por alunos da Universidade do Estado da Bahia – UNEB e/ou por representantes dos grupos religiosos com os quais os entrevistados tinham mais afinidade. Aceito o convite para participar da entrevista, entrávamos em contato e marcávamos o primeiro encontro para explicar mais detalhadamente a pesquisa e colher informações por meio de um questionário. Para os quatro primeiros entrevistados, foram realizados dois encontros em dias diferentes. Um para apresentar a pesquisa e responder ao questionário e outro encontro para a entrevista. Com os demais participantes, devido à escassez de tempo dos informantes e por causa do deslocamento para outras cidades (duas entrevistas foram realizadas no município de Caetité), optamos por condensar os dois momentos em apenas um.

O questionário (vide em apêndice A) teve como objetivo evidenciar o perfil socioeconômico e a inserção nos grupos religiosos dos graduandos e de sua família. Os dados coletados pelas questões que versavam sobre a escolaridade dos sujeitos e sobre os grupos dos quais participam na igreja permitiram que nos organizássemos para instigar/provocar a fala dos jovens durante a entrevista, quando determinado aspecto de interesse da pesquisa não fosse abordado. Os dados do questionário se tornaram um meio importante para a (re)estruturação do roteiro de entrevista. Foi realizada também a análise do material de preparação para alguns encontros grupais (subsídios, manuais, jornais religiosos, livros de música). A análise desse material nos permitiu conhecer a organização de alguns grupos religiosos, o que tornou possível confirmar ou refutar os dados obtidos por meio das entrevistas.

Como o objetivo era investigar a influência da socialização em grupos religiosos nas trajetórias escolares, optou-se por privilegiar as entrevistas como fonte de dados. Segundo Lahire (2004), a entrevista pode ser um meio privilegiado para se reconstruir processo ou a gênese social de certos fenômenos, principalmente, por permitir a coleta de dados de caráter

biográfico e histórico. A entrevista qualitativa permite construir uma representação da realidade a partir de dados subjetivos que “constituem uma representação da realidade: ideias, crenças, maneiras de pensar; opiniões, sentimentos, maneiras de atuar; condutas; projeções para o futuro; razões conscientes e inconscientes de determinadas atitudes e comportamentos” (MINAYO, 2007, p. 65). Daí se justifica a escolha dessa fonte de coleta de dados.

Para a realização das entrevistas, apoiamo-nos também na discussão de Bosi (2006) sobre a questão da memória. Para ela, não se trata de lembrar simplesmente, pois diante de uma situação criada no presente, há uma produção de memória que permite ao sujeito entrevistado ressignificar a sua experiência de vida. Assim sendo, as entrevistas foram utilizadas para reconstituir as trajetórias escolares dos sujeitos até a universidade e buscaram compreender a forma como práticas, eventos, situações, processos ou personagens, que fazem ou fizeram parte de sua vida na esfera religiosa, influenciaram na construção de disposições favoráveis à longevidade escolar. O tipo de entrevista utilizada foi a semi-estruturada, também chamada de focalizada ou semidiretiva em que “o entrevistador faz perguntas específicas, mas também deixa que o entrevistado responda em seus próprios termos” (ALVES-MAZZOTTI e GEWANDSZNAJDER 1999, p.168). Enquanto os entrevistados narravam sobre a sua trajetória escolar e na Igreja, buscamos garantir que alguns pontos importantes, estabelecidos pelos objetivos e questões levantadas na elaboração do problema, fossem abordados, como por exemplo, desempenho escolar na Educação Básica, o acesso ao Ensino Superior, nível de envolvimento com os grupos religiosos, aprendizagens nos grupos que favoreceram o sucesso escolar, entre outros (vide Roteiro de Entrevista em apêndice B).

As entrevistas com os estudantes foram realizadas, em sua maioria, na residência do entrevistado. Entretanto, outros locais foram escolhidos, sempre a critério do jovem, para que ele se sentisse o mais confortável possível. Assim, Antônio e Artur optaram pela entrevista na casa da pesquisadora; Eduardo foi entrevistado na casa dos padres em Guanambi; Eunice, Vanessa e Rute escolheram o local de trabalho; Érico, Juliana e Anita responderam à entrevista nas dependências da UNEB. As entrevistas foram gravadas26 e, posteriormente, transcritas, de forma literal. O tempo de cada gravação durou, em média, 80 minutos. Depois de transcritas, entregamos a cada estudante uma cópia para que lesse e autorizasse a utilização de sua narrativa de forma escrita, conforme termo de autorização assinado por todos27 (vide

Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em apêndice C). Os informantes demonstraram

26 As quinze entrevistas foram realizadas entre os meses de fevereiro e maio de 2011. 27 O termo garante o anonimato e a confidencialidade dos entrevistados, entre outras coisas.

disponibilidade em relatar sobre as trajetórias escolares e vivências religiosas. Destaca-se que, em alguns casos, a entrevista funcionou como momentos de autorreflexão.

Realizamos a análise das entrevistas, primeiramente, via processo de imersão no material por meio de leituras e releituras sucessivas das transcrições, pois os “fatos jamais impõem sua evidência. Eles sempre supõem um olhar (ou ponto de vista) que os constituem”. (LAHIRE, 2006, p. 17). Pela dimensão da pesquisa e riqueza das entrevistas, a análise de conteúdo foi utilizada para tratamento de dados. Cada entrevista foi considerada e analisada em sua singularidade e totalidade. Procuramos conservar todos os detalhes que são importantes quando se trata da análise de práticas que são a parte observável de uma disposição. Foi feita uma análise de conteúdo transversal e vertical do conjunto dos relatos e buscaram-se similaridades e divergências entre os percursos escolares dos graduandos na sua interface com os processos de socialização ocorridos nos grupos religiosos.

Quando consideramos o estudo de disposições, é preciso atenção a toda fala, gestos, palavras não ditas, pois o trabalho de interpretação de uma entrevista nunca deve se contentar apenas com o que é particularmente significativo para cada entrevistado, pois segundo Lahire (2004, p. 316) “respeitar o entrevistado é levar em conta todas as suas palavras e não apenas aquelas que ele acentua para seu interlocutor”. Portanto, devemos levar em consideração na análise dos dados, não apenas os elementos que o entrevistado julga pertinente em relação ao seu caráter e personalidade como também elementos de seu patrimônio de disposições que se evidenciam por meio do estudo de respostas aparentemente banais.

Durante a análise dos dados, as categorias descritivas foram sendo construídas com base na problemática da pesquisa e nas temáticas que emergiram das leituras das narrativas biográficas. Da análise das entrevistas com os graduandos surgiram basicamente algumas categorias principais: a sociabilidade nos grupos religiosos, a constituição de disposições temporais de futuro, as práticas de leitura e escrita, as condições materiais e subjetivas oportunizadas pelos grupos religiosos que se constituíram eixos temáticos para a escrita dos capítulos três, quatro e cinco deste trabalho.

Por fim, é importante considerar que a pesquisadora é alguém que vive e sente. Que atua no mundo, relacionando-se e transformando-se. O contato com os sujeitos entrevistados, a escuta de suas histórias e confidências permitiram continuar a escrita das histórias singulares da

pesquisadora e pesquisados com elementos advindos da nova teia de relações na qual transitaram afeto e confiança.