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C. Hüsün ve Kubhun Fiillere Hüküm İsnad Etmesi 81

III. EMRİN HÜKME DELÂLETİNDE HÜSÜN VE KUBHUN ETKİSİ

O livro divide-se em três partes, cujos títulos são numerais cardinais dispostos como chamadas para notas de rodapé. Sucedem-se, na primeira parte, oito desses comentários que remetem um ao outro no aparente cumprimento da função de esclarecer algum aspecto enunciado nos precedentes. Para seguir a sugestão do narrador, dever-se-ia interromper a leitura de um trecho no momento em que se encontrasse o numeral que assinala a inserção de uma nota, e dirigir-se ao ponto correspondente indicado no texto. Seguindo tal norma, o leitor desenvolveria mais de uma dezena de movimentos de idas e vindas entre uma e outra nota, numa sucessão de interrupções, retomadas e intercalações até conseguir percorrer toda a primeira parte e finalizar a leitura do trecho de onde partiu. Não demora para ficar claro que constituem um embuste esse emaranhado de textos e a perseguição de um sentido que, supostamente, só a observância rigorosa da sinalética constituída pelas notas em sua exata posição seria capaz de revelar. Vê-se que o narrador pretende lograr o leitor que, eventualmente, traga a expectativa de revelação de um sentido imanente ao comentário:

[...] ove la nota fosse apposta in altra sede, quale si sia, pare difficile negarlo, equivarrebbe ad un ammicco goffamente vezzoso, un lezio arrogante; come a dire: ecco, qui appunto si nasconde una finezza, qualcosa che stava per sfuggirvi, il senso, la chiave sta qui, ma no, un poco più a destra, sopra, sotto, di fianco, fate attenzione, grazie al mio magistero non può sfuggirvi, ecco, qui – e così all’infinito; contegno defatigante al sommo e vigliacco [...].9

9

“se a nota fosse aposta em outro lugar, qualquer que seja ele, parece difícil negá-lo, equivaleria a uma piscadela desajeitadamente sedutora, um charme arrogante; como se dissesse: bem aqui está escondida uma sutileza que estava para escapar-lhes, o sentido, a chave está aqui, mas não, um pouco mais à direita, acima, abaixo, do lado, prestem atenção, graças à minha maestria não pode escapar-lhes, está aqui, bem aqui – e assim ao infinito; comportamento fatigante ao máximo, e velhaco [...]”. (MANGANELLI. Nuovo commento, p.27.)

Essa relação de desconfiança entre narrador e leitor permanece ao longo de todo o livro. Nas partes seguintes, embora as notas sejam dispostas de maneira linear e sucessiva, desorganiza-se a correlação entre títulos e textos, seja pela menção de uma nota inexistente ou pela correspondência inexata entre indicador e nota.

À medida que se aproxima o final do livro, chama a atenção a intercalação de narrativas, à maneira já vista em Hilarotragoedia. A segunda parte é interrompida pelo longo “caso do comentarista afortunado”10 e, na terceira, concentram-se a carta-parecer do profeta11 e o ensaio do comentarista realista12 que conclui com o testemunho do filho do astrólogo13. Nesses insertos, surgem diferentes vozes narrativas que se deixam distinguir em razão dos argumentos que empregam e da maneira como desenvolvem o discurso. O narrador principal – voz uníssona na primeira parte – apresenta uma concepção epistemológica e de linguagem distinta da que sustentam os demais comentaristas, alinhados em torno da naturalização da linguagem e de sua relação com o texto. Os discursos desses últimos são qualificados pelo narrador como exemplos ou demonstração das distintas maneiras de estabelecer relação com o texto, todas elas igualmente fadadas ao fracasso.

Por uma questão de clareza, o termo “narrador” é atribuído, neste ponto da presente tese, apenas à voz que unifica o discurso e que se faz presente em todas as partes do livro. Os demais são designados como comentaristas, não obstante o fato de que, em Nuovo commento, não existe tal diferenciação e é utilizado apenas o último termo para designar comentaristas e narrador. Ambos têm em comum o fato de explicarem tudo, “da cosmogênese à ecpirose”14, a partir da linguagem. Nossa proposta de divisão, entretanto, se fundamenta nas diferenças formal e conceitual existentes entre eles. Enquanto o narrador elenca os argumentos pelos quais expressa a dúvida sobre a possibilidade de existência do texto e do acesso a ele, os

10

MANGANELLI. Nuovo commento, p.56-90.

11

MANGANELLI. Nuovo commento, p.108-116.

12

MANGANELLI. Nuovo commento, p.118-129.

13

MANGANELLI. Nuovo commento, p.131-140.

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comentaristas partem da confiança na capacidade de abordar e descrever o texto. Esses últimos, contudo, sempre deparam com dificuldades na realização de seu projeto, seja pelos excessos do próprio texto, que, inesgotável, torna sem efeito qualquer esforço de redução, seja pela oclusão decorrente da alteridade absoluta do texto. Por uma ou outra dessas razões, os intentos realísticos dos comentadores acabam por revelar-se invariavelmente inexeqüíveis. Mesmo sendo uma sucessão de raciocínios aridamente silogísticos e de argumentações dogmático-dedutivas, combinados com um vertiginoso casuísmo, é a performance desse narrador atípico que garante a unidade formal do livro e que permite vinculá-lo ao tratadismo manganelliano. A relação entre narrador e comentaristas parece desenhar uma espiral, se se considera que há um tema central sempre revisitado, ao mesmo tempo em que novos dados são agregados à investigação.

A temática do real como linguagem já havia sido objeto de um ensaio de Manganelli15 sobre o livro Planolândia, de Edwin A. Abbott. Nesse ensaio, de 1966, Manganelli lança as bases para o Nuovo commento. Parte-se da linguagem como uma engrenagem ou agenciamento de que depende a existência de sentidos. Isso implica um posicionamento claramente contrário à expectativa nutrida pelo senso comum e por certas tendências filosófico-literárias de que haja uma correspondência entre as palavras e o que por meio delas é designado, e de que seja possível determinar, para cada realidade, a equivalência de um signo. Tal relação naturalizadora do processo de atribuição de sentido se explica pela assunção da prevalência de uma realidade dada e objetiva sobre a linguagem, e esta última é tratada como mera descrição ou nomeação de algo que já existe; uma espécie de rótulo, limitadoapenas a nomear sem afetar, nesse ato, o nomeado.

No entanto, a linguagem não é retrato, e sim um comportar-se como se houvesse tal identidade entre a coisa e seu nome. Esse faz-de-conta tem a arbitraridade de um jogo no qual

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se fixam os valores das cartas, os quais, daí em diante, passam a ser exigidos com o rigor do rito16. Com uma espécie de “má consciência”, depois de atribuído tal valor, esse arbítrio original é esquecido e passa-se a lidar com a linguagem como se a ela correspondesse a verdadeira, única e definitiva realidade. Inversamente, Manganelli afirma que toda linguagem “sabe” que não é a única possível; que há inúmeros sistemas alternativos17. A insistência sobre a suposta coerência do sistema lingüístico assume o aspecto de uma crença paranóide quando espera encontrar uma racionalidade e um fundamento ontológico para aquilo que não passa de “una delirante organizzazione del nulla”18. Em outro momento, Manganelli afirma: “«aver ragione» è la naturale vocazione della follia”19.

Essa atitude maniacale caracteriza as diferentes vozes narrativas ao longo do Nuovo

commento. Ostenta-se a certeza de que o objeto pode ser esgotado com a mesma insistência

obsessiva com que se externaliza a dúvida indecidível com relação a ele. No embate entre esses dois movimentos, o ceticismo prevalece como derrisão da expectativa de dar conta da totalidade. À medida que se afirma esgotar o objeto, vai ficando patente a impossibilidade de realização do que se diz. É um discurso que revela sua própria inconsistência.

A premissa fundamental de Nuovo commento – nunca abandonada em toda a produção de Manganelli – é a de que não existe realidade ou verdade que não passe pelo crivo da linguagem: “noi possiamo essere «qui» solo accettando le regole linguistiche che lo inventano”20. Portanto, o comentarista, quando fala em “texto”, está se referindo a algo que dissolve em si “tutti i possibili del reale”21. Daí terem sido constatadas acima as múltiplas contradições que aparecem nesse livro: somente a contradição pode permitir que mais dimensões, dentre tantas possíveis, transpareçam.

16

Cf. MANGANELLI. La letteratura come menzogna, p.44.

17

Cf. MANGANELLI. La letteratura come menzogna, p.49.

18

“uma delirante organização do nada” (MANGANELLI. La letteratura come menzogna, p.53.)

19

“«Ter razão» é a vocação natural da loucura” (MANGANELLI. La letteratura come menzogna, p.48.)

20

“nós podemos estar «aqui» somente aceitando as regras lingüísticas que o inventam” (MANGANELLI. La

letteratura come menzogna, p.44.)

21

Os procedimentos de que Manganelli se serve na construção de seu livro buscam realizar o pressuposto de que nenhuma linguagem detém a totalidade e de que há infinitos possíveis, “como se” alternativos, convivendo no mesmo espaço. Ao explicitar esse “disagio radicale dell’intelligenza”, Nuovo commento procura meios de implodir a “lucida mitezza della prosa”22, que caracteriza literaturas apaziguadoras, que não tomam consciência de que nada mais são do que organizações produtoras de sentidos. De maneira geral, pode-se dizer que a principal característica desse livro manganelliano é o esforço de fazer confrontrar a expectativa fetichista de univocidade com a necessária pluralidade da linguagem:

Al tema del linguaggio che si finge unico, e dalla propria finzione genera la menzogna della storia, si contrappone il momento antistorico della pluralità dei linguaggi. Al problema dello stare dentro un unico universo, si contrappone l’eroico problema del passaggio da uno ad altro universo.23

Parece, então, que Nuovo commento se destaca como uma espécie de literatura de fronteira, pois procura expor continuamente os meios e as razões pelos quais o sentido não deriva da percepção do ser, mas, ao contrário, é a percepção do ser que resulta das relações de sentido. Toda a organização de Nuovo commento se empenha no propósito de lidar com a cesura e não com a linearidade pressuposta pela linguagem cotidiana. Os comentaristas pretendem ficar dentro dos confins da sensatez produzida pelo assenso coletivo, sob a alegação de que “al di là dei posti di frontiera, non può esserci altro che incomprensibilità, solitudine e follia”24. O narrador, ao contrário, desconfia dessa fundamentação metafísica e, diferentemente do que sustentam o essencialismo e o isomorfismo, sugere que a realidade não possui e nem se constitui como um lastro que garante significados precisos às palavras.

22

“radical mal-estar da inteligência”, Nuovo commento procura meios de implodir a “lúcida mansidão da prosa” (MANGANELLI. La letteratura come menzogna, p.49.)

23

“Ao tema da linguagem que se finge única e pelo próprio fingimento gera a mentira da história, contrapõe-se o momento anti-histórico da pluralidade das linguagens. Ao problema do estar dentro de um único universo, contrapõe-se o heróico problema da passagem de um a outro universo.” (MANGANELLI. La letteratura come

menzogna, p.49.)

24

“para além dos postos de fronteira, não pode existir nada além de incompreensibilidade, solidão e loucura” (MANGANELLI. La letteratura come menzogna, p.99.)

É numa significação provisória, marginal e problemática que Nuovo commento aposta. A descrição que o narrador faz do texto explora os limites da realidade, na fronteira entre a possibilidade de significar e a incomunicabilidade. Disso se infere que o projeto literário de Manganelli visa a conduzir o leitor à consciência do ato inevitavelmente artificial da linguagem, de modo que esse perceba (ou suspeite de) que “una esperienza intellettuale inedita”25 se esconde no texto. É essa desnaturalização da linguagem que é indicada pela afirmação manganelliana de que a literatura “aspira ad una condizione estrema”26 .